Conto de São João na Bahia

baianidades
15.06.2020, 08:10:00
Atualizado: 16.06.2020, 21:13:56

Conto de São João na Bahia


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O tema da coluna, essa semana, não tinha nada a ver com São João, mas minha amiga e vizinha Mariana Rios, editora do jornal, insistiu na manutenção da agenda. Após um dia catando desculpa e saída, ordem cumprida. Inventei de me lançar na missão de parodiar ‘Um Conto de Natal’, do Dickens, na versão São João (minha época do ano favorita), trazendo à baila o tema do vírus. E é isso, a ideia é essa.

Acrescento que, como auto-presente de aniversário, neste 15 de junho, volto a escrever um conto após 16 anos, distância que me separa dos textos pré-universitários de ‘Raiai!’. Com vocês, uma estorinha gaiata (e longa, quase um livro, leia em partes!), feita com a pena da galhofa e a tinta da lamentação ante o cancelamento do São João.

***

Sinopse: Flávio é um jovem de 27 anos, de Salvador, que passou a odiar o São João no interior aos 20, quando foi ridicularizado durante uma grande festa junina ao ser pego traindo a namorada, com quem estava. Julga ter perdido a chance definitiva com Gisele, mas um acontecimento drástico o fará mudar de ideia em junho de 2018. Às vésperas da celebração, ele vai receber a visita de Santo Antônio, São João e São Pedro, que vão mostrar a ele são joões passados, presente e futuros. O trio tentará induzir o rapaz a mudar seu comportamento machista e abusivo, dando ainda uma nova chance para ele se redimir com o amor perdido.

***

Conto de São João na Bahia

O olhar esquivo de Baronesa, no canto da sala, entregava o que ela matutava: “Não devia ter cavado o sofá. Já estão se preparando pra me abandonar”. Pai e mãe, semi-sonâmbulos e um tanto apressados, juntavam um sem-fim de malas e tralhas no fundo da Troller, a tempo de pegar a BR menos movimentada.
 
Já era tarde. Quatro e tanta da manhã de sexta (22), atraso denunciado pelo acelerado processo de esvaziamento do Pituba Ville. Flávio e Sheila, os filhos, ainda não tinham ido dormir, mexendo no celular e discutindo entre insultos sobre viajarem ou serem duas das doze pessoas que permaneceriam na cidade em 2018.

  • Vão ficar aí mesmo?

  • Vamos, né, pai. Eu queria ir pra Amargosa, mas Flá quer me embarreirar. Vai ficar aqui e não pode tomar conta de Baronesa. Escroto! Mas destá...

  • Eu falei pra você não pegar a cachorra. Já viram como tá o sofá?

  • Vão me abandonar. Eu sabia!

Os pais lançam o protocolo de instruções: o coroa antecipa sermões, a coroa avisa que pediu à vizinha, dona Conceição, pra ficar de olho nos dois, e logo após partem pro sossego agitado do Capão. Ignoram que vão furar o pneu na estrada, perto da entrada de Lençóis, 12 horas depois.

Tchau dado, Flá já emenda outra discussão agora com o amigo, Eduardo, virados no Counter-Strike.

  • Duda, man, você não disse que não ia viajar pra participar da parada? Já tamos com o dobro de Marina! Hora da virada.

  • Não ia, mas agora vou. Conheci a piveta no Tinder, tomei chá de calçola. Já quero casar. Hahaha!

  • Que nada, man! Você é o cara mais banda-voou que eu conheço. Só perde pra mim! Vai cair no laço do passarinheiro?

  • Já caí, véi. Tô te dizendo! Mas desça com a gente pra Cruz. Tem lugar na casa que a turma dela alugou. Deixe de frescura. 

  • Frescura o que, man? Eu odeio São João, você sabe. Tá de sacanagem...

  • Véi, aquele B.O. com Gisele já tem 7 anos. Se saia dessa…

  • Me saio se você largar a vadia aí e a gente descer de bate-volta pra Ibicuí. Quero revanche...

O desafio à desforra remonta a 2011. No Forró Ticomia, Flá e Duda disputavam ponto a ponto o torneio particular de quem pegava mais mulher na festa - as feias rendiam pontos extras. 
 
No Carnaval, Flá tinha levado a melhor no Harém, e no São João, valendo um engradado, Duda faturou. Mas, verdade seja dita, neste segundo caso, tudo por causa de um amor descontinuado...

  • É isso, man: eu me saí de Gisele, mulher da minha vida, pra manter a nossa parceria, e me fudi. Agora você acaba de conhecer uma qualquer na internet e desfaz nosso trato.

  • Oxe, véi! Nada a ver esse seu papo. Parada é só em outubro. Agora, sobre 2011, a gente tinha 20 anos! E que culpa eu tenho de você ter sido otário com Gisele?

Boa pergunta, mas a resposta é fácil: Flá e Duda foram meninos absurdamente mimados, sem qualquer orientação razoável sobre como lidar com as garotas. Muito pelo contrário! Aliado às vaidades de beijar o espelho, os defeitos de fábrica da escassez de noção e o completo desconhecimento da palavra ‘não’, eis a previsível situação.

  • Otário é você, seu viado! Vá lá com sua putinha novinha, vá. Agora, quando ela meter galha em você, não venha pra cá dizer que eu não avisei.

  • Tomar no cu, véi! Você não ouviu eu falar que eu tô na dela? Tá com ciúme? Vá se tratar!

  • Ciúme minha… ói! Vá se lenhar, vá! Por mim você se fode com essa fudida.

Amanheceu duvidando que a amizade com Duda continuasse, e supondo o fim, pensou forte como se prece fizesse para que o ex-amigo se lenhasse. Desejo atendido já à noite, porque nem o universo diz não àquele umbigo protuberante.

No primeiro rolé em Cruz das Almas, Duda se esquiva de uma espada tracejante, mas outra esquiva, traiçoeira, vem e bate em cheio em sua cabeça, perto da fonte direita. A turma ao redor ri, a menina do Tinder cai pra acudir, a ambulância demora pra chegar. Duda em coma.

Com cortesia informativa de Sheila, Flá fica sabendo e, em meio à convulsão de conflitos, se ressente por dentro. Deitado no sofá, sobre os bofes estofados evidenciados por Baronesa, ensaia uma reza, mas nunca fez isso antes. Desiste e dorme. Em sonho, Duda o atormenta.

  • Vou morrer por sua causa, filadaputa!

  • Ô, véi, eu não pensei por mal... Não morra, não, na moral!

  • Tudo bem. Ainda não sei se vou morrer. Tô esperando o resultado. Mas pra você ver que eu sou seu bróder, vim aqui lhe avisar que o capitão vai ganhar e que três fantasmas vêm lhe visitar essa noite. 

  • Que fantasma o que, véi? Tá viajando? Num gosto de assombração, não.

  • Se foda! O primeiro que vai vir é o Fantasma dos São Joões Passados. É gente boa. Depois, o Fantasma do São João Presente. Ele é meio esquentado. E pra fechar o caixão vai vir o miserê: o Fantasma dos São Joões Futuros. Segure sua onda e se ligue que eu sempre achei Gisele gostosa.

Flávio Júnior acorda todo se bulino. Na verdade, já vinha forçando a volta, pra aflição de Baronesa, que correu pro pé de outra porta ao ver a semi-convulsão do co-tutor.

  • Oxe, tá passando mal?

  • Caralho, que onda. Tive um pesadelo feio da porra.

  • Eu fiz cuscuz. Não devia fazer nada, porque você é escroto comigo. Tô depressiva vendo o povo postando os stories. Gisele tá em Irecê, cê viu? Solteira na bagaceira.

Flá ainda tentava acordar e depois de dar um pulo do sofá foi olhar no olho mágico. Dona Conceição molhava as plantas sem encanto. Dois por andar.

Comeu o cuscuz da irmã e reclamou de não ter milho cozido às vésperas do São João.

  • Cuscuz é milho cozido. Agradeça, porque nem isso você merecia. Vem, Baronesa! 

Injuriada e entediada, Sheila leva a cadela para um passeio noturno, na praça do condomínio, enquanto Flá tenta ver se passa o efeito de um pesadelo que só começa.
 
Fantasma dos São Joões Passados
Comendo cuscuz com café e olhando no celular, Flávio tenta se concentrar em algo que não diz respeito ao coma do amigo ou aos vacilos com a única namorada da vida, lá atrás. Na meia-noite de 23, digerir a possibilidade de Duda morrer por uma praga sua o incomodava, mas também julgava ser um castigo à altura pelo bróder achar sua ex gostosa.

Imaginava-se, aliás, voltando atrás na história e casando-se com a moça, hoje. No meio do devaneio, ouve, de algum lugar mais longe, a marcha nupcial de Mendelssohn.

  • Quem é o casal sem noção que inventou de casar em pleno São João, e ainda em Salvador? Não deve ter um convidado - crítica em tom de contrariedade.

O som veio marchando pra mais perto, e cada vez mais alto, ao tempo que Flá delimitava dois minutos como prazo para ligar na Sucom e reclamar.
 
Num instante, um repentino silêncio e um vácuo de acontecimentos preocupam o rapaz. Prevendo o bote de algo abstruso (seja lá o que isso seja), corre desembestado para o quarto e tranca a porta.

  • Só posso estar ficando doido. Que viagem errada foi essa?

  • Doido você é, mas isso não é o maior dos problemas.

A voz vinha de trás, provavelmente de algum ladrão que invadiu a casa. Era algo grave, mas suave, de alguém sentado na cama. O pavor paralisou Flá e ele não se mexeu supondo a possibilidade de um tiro, facada ou cascudo.

  • Ô, man, pode roubar o que quiser. Só não faça nada comigo e com minha irmã. Se ligue que aqui tem uma rottweiler. Não vou olhar, pra você não achar que eu marquei sua cara. Tá tranquilo. Vá na manha.

  • Olhe pra mim, vá, sacana! Não sou ladrão, não. Respeite a autoridade.

Flá então matou a charada: trollagem de algum amigo na mesma pegada. Virou-se rápido, prevendo um riso, mas caiu trancando tudo, não passava alfinete. No meio do quarto, um carecão esquisito, meio brilhante meio transparente, sentado num jumento amarronzado com as patas dianteiras dobradas.

  • Sou o Fantasma dos São Joões passados. Não sei por que essa cara de furico... Já deixou de xibiatagem? Sim, vamos lá, que tô sem paciência. Vou te levar, como já trago o aviso no nome, pras suas desventuras antigas. Vou passar na sua cara as maiores merdas que você já fez.

Sem dizer palavra, Flá tenta se aprumar e colocar o que julga alucinação no potinho da realidade vigente. Tudo acordado, quis fingir normalidade perguntando o nome do espectro alumiado.

  • Me chame de Tonho. Mas não faça tanta pergunta. Já disse que tô apressado e devo complementar que você tá aqui pra ouvir, não pra se manifestar.

  • Oká.

Sem saber no que o oká daria, Flá viu o cavaleiro - jumenteiro, sei lá - virar de costas, estando o animal ainda com as patas dianteiras dobradas.

  • Sobe na garupa, anda!

Temeu levar um coice ao se aproximar da traseira empinada, mas se organizou num embarque lateral, apoiando um pé na maçaneta da cômoda. Mal sentou e o jumento disparou, feito um Delorean, e por pouco Flá não despencou no abismo lúgubre de 2016.

A primeira parada foi em 2008. Em Senhor do Bonfim, ficou longe dos pais (e bêbado) pela primeira vez e não soube lidar bem com essa tal liberdade. 

  • Bom, aqui é a pousada que o seu moço ficou. Você deve lembrar. Vê aquela menina deitada no colchão do lado de fora?

  • Sim, tô vendo. Bem gostosinha.

  • Bom, o moço achou a mesma coisa há exatos 10 anos. A pousada tava cheia, o dono botou algumas pessoas pra dormir do lado de fora, e na volta da festa você agarrou a menina.

  • Eu?! 

  • Sim senhor. Achou-se no direito. Sorte que ela conseguiu se desvencilhar, chamou ajuda, você fingiu desmaio e o dono da pousada segurou sua onda.

  • Eu não lembro. Sério mesmo.

  • Amnésia alcoólica. Você disse isso. Mas você fingiu desmaio e lembra sim. Não foi preso porque tinha 17 anos.

  • Não conte pros meus pais, por favor.

O jegue voa para a próxima parada: SAJ 2009. Flá comanda um grupo de ex-colegas de escola. Excursão pancadona, pra celebrar a maioridade, e a primeira viagem no carro que ganhou por entrar na universidade.

  • Vamos rápido, porque aqui a lista é longa. Primeiro você segurando uma menina pelo braço. Ela nega atenção, você a xinga.

  • Ela tava me olhando antes, dando mole.

  • Silêncio! Agora, o moço aqui liderando a rodinha que impede as meninas de passar e, claro, forçando cada uma a beijar vocês para serem liberadas.

  • Mas...

  • Silêncio!! Estou sem paciência. Agora, chamando a menina que não te deu mole de baranga. E aqui relando a mão na outra simulando um toque acidental. Também tem essa hora aqui que vai socorrer a moça caída e planeja levá-la para casa para fazer algo.

  • Eu não fiz nada.

  • Sorte sua, porque dessa vez seria preso.

O excesso de atitudes equivocadas (eufemismo para criminosas), largamente difundidas e por vezes comemoradas, desperta reações na parentada. Isoladas as tentativas de resgate, é verdade, como em 2010, que um tio de Flá o convenceu a passar o São João na Chapada. A fazenda da família, uma antiga jazida de diamantes, é o ponto de partida para o primeiro encontro com Gisele, menina de outro clã que se estabeleceu na capital. Em Mucugê, o casal inicia a relação que vai durar até o outro São João.

O jegue cósmico, num erro de cálculo histórico, ainda deu um rasante no Rio de Contas, nos tempos do imperador. O mar de homens negros chamou a atenção de Flá, que até estranhou, mas preferiu não comentar.

As considerações foram tão bem guardadas como no momento em que Tonho mostrou as várias vezes em que Flávio Júnior traiu Gisele durante o Ticomia 2011. Teve a menina da fila do banheiro, a da fila da cerveja... 

Da terceira aqui citada, que abriu a porteira lá na fila de entrada, até a décima terceira, que Gisele flagrou após uma dica supostamente involuntária de Duda, Flá não poupou esforços em ser escroto, prepotente e vaidoso. Supunha-se mané-gostoso. Bom garoto, dizia Duda. Bom garoto.

Acontece que o flagra quebrou o feitiço para o maioral, que foi ridicularizado ao ser descoberto. Quando ainda tentava explicar a Gisele o inexplicável, no microfone do palco principal, como um Plantão da Globo especial, o locutor anunciou a parcial inicial de maiores pegadores da noite.

  • Eduardo e um amigo tão disputando quem são os maiores pegadores da noite. Tá 13 a 13, mas Eduardo garante que vence.
  • Que porra é essa, Duda? Eu não sei do que ele tá falando.

Gisele ouve aquilo e vai embora antes de presenciar a vaia do público quando Duda aponta o amigo como o rival em questão, na disputa pelo prêmio de gostosão do Ticomia.

Tonho não dá sermão, e até ri do ridículo todo, mas só se preocupa em relatar o que estava escrito.    

  • Uma vereda bem sinalizada previa seu casamento com Gisele. Que bom que você errou a entrada...

  • Que vereda?

  • Nada. Pensei alto, sem o devido cuidado. Se pique que eu já tô ficando retado com sua cara de novo.

Com um coice do jumento, Flá despencou sobre a cama, ressuscitando com os olhos arregalados e correndo pra abrir a porta do quarto. Redivivo o trauma.

Fatiou a sala, depois o quarto dos pais, o da irmã, e a cozinha, onde finalmente colocou um café pra esquentar mode a despertar de vez.

  • Mas que porra, Sheila! Pra que sair a essa hora com Baronesa? Que disgra… ói! Bicha escrota!

Fantasma do São João Presente
A mão febril do tempo abriu os dedos como grelhas para fritar as más intenções de Flá. Seguro que o calor ameno de junho, num súbito, embrasou a defumar a ideia do moço de culpar a irmã por suas assombrações.

Era Sheila o principal foco de sua frustração presente, que o motivou a não tomar conta da cadela que ele e ela adotaram. Negava o intento, embora os tempos em que malhava e passeava na orla exibindo o muque, tendo a cachorra como segunda grife, o refutasse.

Sheila, aliás, escondia do irmão a relação com o peguete da academia, com quem viajaria pra Amargosa. Mas Flá sabia de tudo, e um tanto ou muito, talvez até demais por isso, fez o rebuliço para ficar em Salvador e manter a irmã à vista e reprimida.

Na sala, onde esperava ver Sheila voltar o quanto antes, viu se destacar de um grande quadro na parede um homenzarrão gigante, que tinha de três metros ou quatro em diante.

  • Etaporra! Ok, Seu Fantasmão. É o do Presente, né? Tô indo na manha. Posso chamar o senhor de Fantasmão?

  • João. Meu nome é João. Até gosto da banda de pagode, mas me chame pelo nome mesmo. E hoje é meu aniversário. Dá-me os parabéns.

  • Vigi, é mesmo? Parabéns! Mas por que o senhor é assim tão grande?

  • Entre os nascidos de mulher, não há maior que eu. Entretanto, o menor do reino de Deus, que é o seu caso, é maior que eu.

  • É o quê?!

  • Deixa pra lá. Bora ali em Amargosa? Sobe aqui na cacunda do tio.

O fantasma do presente catou Flávio entre o pé da cintura e a esquina do sovaco, obrigando o sacana a dar solavancos pra encaixar os cambitos no grande pescoço. A distância era segura para a fogueira que estava sob os pés do fantasma, o qual, como foguete ou cometa, chegou em dois tempos em Amargosa.

Na praça, sem ânimo ou graça, um boyzinho lamentava a ausência de Sheila.

  • Tô aqui tomando um quentão, pequena. Nem gosto, mas lembrei que você disse que adora e quis me forçar a ter uma nova opinião. Veja só que coisa: até que esse daqui é bom.

  • Oh, baby... Tá vendo que é bom? Tô aqui passeando com Baronesa. Queria tanto estar aí com você. Teve Dorgival no Piu Piu, você foi?

  • Que nada, coisa linda. Nem me liguei, sabia? Tô aqui pensando em voltar pra Salvador só pra te ver.

A conversa entre Sheila e o boy não comove Flá, que observa o papinho com cara de nojo, como se traído estivesse sido.

  • Sim, seu João. Me desculpe a intromissão, mas que é que eu tenho a ver com essa história?

  • Tudo e nada, filho de Adão. Tudo e nada.

Noutro salto sobressaltado em rasgo ao céu do sertão baiano, o gigante com pés de chamas parte rumo a Irecê com o xibungo em seu cangote. Nada conversam no caminho, até porque não dá tempo no quinhãozinho de instante.

  • Gisele!!! Pare ali, é Gisele!

  • Eu sei, garoto. A gente veio aqui pra vê-la.

  • Mas eu vou poder falar com ela?

  • Não, porque você está em Salvador. E ela te bloqueou.

  • Não, eu tô aqui! Me deixe falar com ela. 

  • Não posso, já disse.

  • Então me leve pra casa que eu pego a estrada e venho encontrar com ela.

  • Mas a noite de São João é hoje. Amanhã ela já tem que ir embora.

  • Ela não vem, eu sei. Ela sempre se empolga e fica um pouco mais.

  • Ok, tudo bem. Mas por que não decidiu vir antes?

  • Eu odeio São João desde o dia que ela me disse que nunca mais ia querer me ver na vida. Eu traí, sacaneei, fui muito escroto, eu sei, eu sei… Mas eu mudei, eu entendi que a vida não gira em torno de mim. Me leve pra casa, por favor. Eu imploro, por favor. Imploro, po. 

Fantasma dos São Joões Futuros
Num estalo acordou no meio de outra reprise de ‘imploro’, esta já se dissipando no meio da cortina de fumaça que, descontrolada, empesteava a sala e o corredor que dava para os quartos. A água do café que deixara no fogo secou, como as flores que um dia Gisele recebeu.

  • Desculpas não servem pra nada nessa caralha? Eu já pedi desculpa, porra! Eu falei mil vezes com Gisele que me desculpasse. Se quiser eu peço de novo, mando mais flores, faço mais café. Cadê Sheila, véi? Cadê Sheila?

O desespero de Flá ao desligar o fogão não comoveu o fantasma Simão, que já veio com sete pedras relando nos anéis. 

  • Deixe de porra de chilique, que eu não gosto de palhaçada! Se for pra ser assim, não vai prestar. Pego essa espada e arranco-lhe a orelha...

  • Foi mal. Nem vi o senhor chegar. Por acaso é o fantasma da redenção?

  • Não. E por que seria?

  • Eu não sei. Eu já paguei todos os meus pecados. Não é possível essa marcação comigo.

Pelo reclame histérico, Flávio tomou logo duas pedradas pelos cornos. Incharam. Acalmou-se com o prenúncio de mais e decidiu sucumbir ao novo absurdo.

  • Que é isso que jogou em mim?

  • Vou te puxar na minha rede, venha. Já tô com um pré-remorso de levar você pra ver o futuro. Não merece. É sério. Não merece nem um pouco.

  • Oxe. Fiz nada.

  • Justamente. Não fez nada pra merecer essa ousadia. Privilégio branco.

Simão, o fantasma mais durão, lançou Flá preso à sua rede elástica para conferir a alegria de quem curtia o São João em cidades tão diversas como Itaberaba, Alagoinhas ou Riachão.

A empolgação nas ruas, em 2019, era uma primeira tentativa de mostrar ao rapaz que o trauma com a festa havia perdido o sentido, e que Gisele lhe daria uma nova chance para se redimir. Carecia apenas de Flá se convencer do que havia de errado e precisava ser corrigido, como já, desde 2018, a recuperação de Duda havia demonstrado.

  • Oxente! Ali sou eu e Gisele juntos?

  • Sim, senhor. Esse ano vocês se reencontram, e em 2019 se juntam e ficam noivos. Em 2020 se casam em plena noite de São João no interior. Assim está escrito aqui no papel que eu tô lendo.

  • Boa, papel! Se fosse em Salvador não ia ter um convidado. Mas, venha cá, e se eu não fizer o que tá combinado?

Simão se assusta com a pergunta e, numa cabriola persuasiva, tenta envolver Flá em sua rede mágica. Pena que parte do encanto já estava quebrado só no questionamento. Tenta investir mais duas vezes, mas novamente tem os intentos impedidos.

Absolutamente preocupado, conduz Flávio pelo céu da Bahia em excursão urgente pelo São João 2020.

  • Olha, menino. Aqui é Cruz das Almas na noite de São João.

  • Cadê todo mundo?

  • Você que vai dizer.

  • Aqui é Cachoeira, ó que coisa. Quase ninguém também, tá vendo? Só uns maconheiros. (...) Veja Juazeiro. Ninguém. Euclides da Cunha, terra de Gisele, zero pé de gente na rua. Que coisa, não?

  • Entendi.

  • Entendeu mesmo?

  • Eu acho que entendi. Agora posso ir?

  • Eu ia dizer que não, mas vá. Espere o galo cantar e lembre do que a gente combinou.

O canto do galo mais parece o latido de Baronesa. Aliás, é sim o latido da cadela. Flá corre pra abraçá-la. 

  • Porra, cachorra! Pensei que você tinha fugido, sinha miséria.

  • Eu falei que ia levar Baronesa pra passear. Tá doido? Tem 15 minutos que saí daqui pra dar um rolé com ela.

  • Tô doido. Dei a louca mesmo. E a gente vai pegar a estrada de manhã. Pode se preparar. Primeiro Amargosa, depois Irecê. Tu arrasta seu boy lá e depois a gente vê como faz pra encontrar Gisele.

  • Sério? Mas e Baronesa?

  • Dona Conceição me deve uma comédia. Amanhã eu falo com ela e depois a gente se acerta.

Tarde de São João, 2018, os irmãos Flávio e Sheila entram tardiamente no caminho da roça. Alguns desentendimentos são parcialmente resolvidos, outros ficam mesmo no esboço a exemplo de heranças e outras cobranças comezinhas.

O cunhado é enfim agregado, depois umas confissões de lado a lado, umas declarações, tudo certo enquanto cumpre-se o combinado.

À noite de 24, ligeiramente mamado, Flá calibra o faro para encontrar Gisele com duas doses de licor batizado no juízo. No primeiro rabo de saia que aparece, já esquece a que veio ao mundo, e tudo gira, como se previa, em completo desespero.

***

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