Coronavírus: isolamento digital é um luxo para poucos em um país de miseráveis

artigo
23.03.2020, 22:22:38
Atualizado: 23.03.2020, 22:48:33

Coronavírus: isolamento digital é um luxo para poucos em um país de miseráveis


Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

O mundo está vivendo, com a pandemia da COVID-19, formas de isolamento social e quarentenas, voluntária e forçada, a depender da cidade ou do país. Hoje, no Brasil, vivemos um isolamento social voluntário (para os que não querem se contaminar ou estão assintomáticos) e uma quarentena recomendada, mas sem controle dos que voltam de áreas de risco ou apresentam sintomas da doença. O governo brasileiro, embora tenha uma Lei 13979 de 6 de fevereiro de 2020 que define a quarentena como restrição de atividades ou separação de pessoas suspeitas de contaminação das pessoas que não estejam doentes, ou de bagagens, contêineres, animais, meios de transporte ou mercadorias suspeitos de contaminação, de maneira a evitar a possível contaminação ou a propagação de coronavírus", ainda não determinou a sua implementação obrigatória. Sendo isolamento, quarentena recomendada ou compulsória, este é mais um efeito do agenciamento material do novo coronavírus, um dispositivo ao mesmo tempo material, político, legal e psíquico.

Grande população brasileira está sendo convidada a ficar em confinamento voluntário. Os que obedecem tentam achar formas de combater o tédio em casa. Outros estão em confinamento obrigatório em navios de cruzeiro, hotéis, aeroportos. Seja onde for, as mídias digitais e as janelas têm ajudado a lutar contra o isolamento social através de formas específicas de conexão. A janela tem sido uma forma de contato com o mundo, por onde pessoas cantam, se exercitam, batem palmas para os profissionais de saúde, batem panelas para protestar, ou simplesmente olham para as ruas desérticas. A janela conecta (associa) o isolado à rua.

Já as mídias, dispositivos (artefatos, processos, discursos...) infocomunicacionais que permitem driblar constrangimentos de espaço e tempo (das pinturas rupestres à internet), auxiliam no combate à solidão, seja para divertimento, trabalho remoto,  suporte psicossocial, ou busca por informação sobre as diversas dimensões da pandemia. Essa é uma diferença fundamental em relação a outras formas de isolamento social implementadas por outras epidemias. O termo quarentena surge do confinamento imposto em Veneza, durante a Peste Negra nos séculos XIV e XV, na qual os navios deviam ficar 40 dias (quarentino) isolados antes de serem autorizados a desembarcar (passageiros, produtos e tripulação). Nessa situação, isolamento social significava confinamento físico e informacional radical. Não mais. O isolamento com o uso das tecnologias digitais permite diversas formas de associação. Ele mantem, de alguma forma, o vínculo coletivo. É isolamento físico, já que estamos confinados mas conectados a outros, de forma bem diferente do acesso à informação com as mídias de massa.

Computadores, tablets, smartphones, plataformas digitais, coleta e tratamento amplos de dados (Big Data) e sistemas de inteligência artificial, aliados ao acesso por múltiplas redes à internet (Wi-Fi, fixa, 4G) constituem a nova cultura digital global. Megaplataformas (Google, Amazon, Facebook, Apple, Microsoft) dominam o comércio mundial de dados. Elas coletam, produzem e distribuem dados pessoais sobre nossas mais singelas ações (tais como curtir um post, assistir um filme, postar uma foto, fazer um busca, ouvir música...), transformando-as em insumos para produção de novas práticas de dados, tendo como motor a ação dos algoritmos. Novos serviços, baseados no nosso perfil por eles construídos, são ofertados exigindo ainda mais interação. O ciclo é perpetuamente alimentado. A plataformização da sociedade, a dataficação do nosso comportamento e a performatividade algorítmica ampliada (PDPA), constituem a atual cultura digital. Na PDPA, o isolamento físico não é exatamente um isolamento social, pois estamos conectados desde nossas casas. Elas são um espaço infocomunicacional de onde mantemos contatos com próximos (afetivamente falando) e acessamos e circulamos informação sobre o vírus e a doença.

Há vários exemplos de esforços para informar: infográficos sobre a Covid19, dados sobre a dimensão da conversação mundial no Twitter, aplicativo do SUS sobre a doença, informações em tempo real oficial da OMS (basta enviar “hi” ao WhatsApp +41 79 893 18 92), entre outras.

Além do acesso a informação, é possível estudar, trabalhar, se divertir e socializar com amigos, colegas de trabalho e familiares por redes sociais digitais, plataformas de streaming, jogos online, videoconferência. Já há um aumento gigantesco da demanda em pouco tempo de confinamento. Lojas de compras online e aplicativos de entrega não estão conseguindo atender a demanda. Muitos serviços de TV por assinatura e streaming estão oferecendo seus conteúdos de graça. Há também problemas típicos da dinâmica da PDPA, como a ampliação da circulação de fake news e a superexposição à informação, causando mais ansiedade, medo e pânico. Muitos começam a fazer um “isolamento no isolamento”, impondo limites de tempo de exposição e momentos de desconexão das informações e do mundo online.

Como os Estados têm que intervir, há um maior uso da vigilância massiva digital distribuída e problemas de invasão da privacidade por parte dos poderes públicos. A Coreia do Sul é hoje o melhor exemplo de contenção do contágio pelo uso de tecnologias digitais. A China, depois de grande crescimento do contágio no início, conseguiu conter a epidemia com vigilância massiva. Mas o uso de técnicas de vigilância digital é controverso. Muitos especialistas acusam a pouca eficiência de alguns sistemas e a violação da proteção de dados pessoais, definindo, inclusive, quem deve ou não ficar de quarentena.

Esse estado de controle digital distribuído não é novidade, pois estamos em um capitalismo de vigilância. No entanto, o uso nesse período de exceção pode gerar uma ampliação das formas de controle e monitoramento pessoal com fins políticos. O filósofo italiano Giorgio Agamben criticou, em “A necropolítica das epidemias, o confinamento exagerado, afirmando que esta ação seria uma desculpa para governos exercerem poderes ainda mais totalitários. Ele escreveu o texto antes da epidemia tomar a amplitude que tem hoje na Itália. Jean-Luc Nancy respondeu ao seu colega italiano, criticando a sua posição em “Eccezione Virale. A grave situação da Europa aponta para a complexidade da questão e revela como o agenciamento viral desempacota problemas e visões políticas contraditórias. Lá fora e aqui!

Apesar das desigualdades, o crescimento do uso dos aplicativos, serviços e de largura de banda no Brasil já é considerável. Em pouco tempo de confinamento voluntário, o consumo de internet fixa das operadoras teve um aumento médio de 40%. Isso mostra que as pessoas estão isoladas, mas conectadas, ampliando as práticas de dados, socializando pela redes sociais (postando textos, fotos, vídeos), realizando reuniões por videoconferências, maratonando séries, ouvindo podcasts e músicas em streaming, fazendo cursos online, trocando informações com grupos pelo WhatsApp... Empresas de streaming, como a Netflix, já cogitam reduzir a qualidade dos vídeos retirando as transmissões em HD para não sobrecarregar o sistema. Pessoas começam a ler mais, escrever etnografias de suas janelas, diários do seu confinamento, criando outras formas de lidar com a crise. Mas mesmo essas atividades dependem cada vez mais da conexão à internet (pois todas são compartilhadas em redes sociais).

No Brasil, o isolamento digital é para quem pode, um luxo para poucos em um país de miseráveis. Grande parte das habitações populares tem pouco espaço, abrigando famílias numerosas. Segundo dados do IBGE, mais de 11 milhões de pessoas vivem em favelas e apenas 52% vivem em moradias adequadas (com luz, água, esgoto, coleta de lixo e 2 pessoas por cômodo). Governo e mídia mandam ficar em casa, mas para muitas famílias de baixa renda, ficar em casa é um martírio. Certamente, o uso de tecnologias digitais propicia uma fuga informacional do espaço de confinamento. Mas fuga aqui é apenas uma metáfora, pois a materialidade do local de isolamento e as condições materiais de acesso ao mundo digital são diferenciais. A falta de espaço e a precariedade do acesso fixo à internet nas residências populares, a baixa e/ou precária conexão por 4G por contratos de telefonia pré-pagos, a pouca confiabilidade na infraestrutura de oferecimento de internet sem fio, ou mesmo energia elétrica (sem falar em bens como água ou saneamento) agravam ainda mais a situação.

O isolamento social revela desigualdades, diminuindo as possibilidade dos mais vulneráveis de autonomia na busca por informação, ou de amenizarem a falta de contato físico direto. Outros sofrem pressões e assédio moral ao serem constrangidos no teletrabalho. Muitos ainda vivem de trabalho precário, ambulante, tendo que ficar na rua para viver. No contexto das plataformas digitais, os trabalhadores dessa “gig economia” (motorista de aplicativo, entregadores de comida e compras...), expostos a condições de trabalho sem segurança, se arriscam para servir aqueles que podem ficar em casa protegidos do contágio. O governo e a grande mídia precisam agir reconhecendo a gravidade dessa desigualdade no país. O agenciamento viral descortina, de forma ainda mais evidente, as feridas abertas do Brasil.

No século XVII, Blaise Pascal nos seus “Pensamentos” sobre o “Divertimento” escreveu: “digo frequentemente que a infelicidade dos homens vem de uma única coisa, que é não saber ficar quieto em um quarto. Um homem que tem o suficiente de bem para viver, se ele soubesse ficar feliz no seu quarto, não sairia para ir à praia ou sentar num banco de uma praça”. Essa felicidade do isolamento em um quarto, que não demandaria nem a ida à praia, ou um passeio no parque, está bem longe de ser alcançada pelos comuns dos mortais e, ainda menos, pelos brasileiros. Certamente é muito difícil ficar só nos nossos quartos. Ainda mais quando esse isolamento é quase obrigatório.

O filósofo quer apontar para a necessidade de cultivar um pouco o cuidado de si e a introspecção com uma forma de crescimento espiritual. Certamente essa introspecção será mais fácil para os que têm condições materiais. Os mais necessitados vão sofrer para conseguir lidar com a falta de espaço, os problemas econômicos e a precariedade da infraestrutura para sobreviver nessa crise. No Brasil, a introspecção e o trabalho espiritual sobre si também são um luxo para privilegiados.

No século XVIII, outro escritor francês, Xavier de Maistre, escreveu uma obra que satirizava as narrativas dos grande viajantes. Ele, ironicamente, preferia fazer “viagens ao redor do seu quarto” (“voyage autour de ma chambre”, 1794), descrevendo as aventuras que realizava ao atravessar o quarto na diagonal, ao deslizar pela parede até chegar à cama, ou a zigzaguear pelo espaço. Esperemos que nessa quarentena digital a demanda massiva por dados e a conexão permanente aos dispositivos digitais, além daquela por serviços básicos de água, luz, saneamento e coleta de lixo, não venham a causar um colapso generalizado. Se isso vier a acontecer, infelizes, desconectados, presos nos nossos quartos (os que têm o privilégio de ter um), só nos restará inventar aventuras ao redor deles.

(Foto: Divulgação/PósCom)

*André Lemos é professor Titular da Facom/UFBA, Coordenador do Lab404 e pesquisador 1A do CNPq

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas