Da descoberta do zika vírus a nanopartículas em fungos: conheça a 'balbúrdia' da Ufba

salvador
05.05.2019, 05:58:00
Atualizado: 11.06.2019, 08:07:42
(O Laboratório de Virologia, por exemplo, é responsável por descobertas como o vírus da zika no Brasil (Foto: Marina Silva/CORREIO))

Da descoberta do zika vírus a nanopartículas em fungos: conheça a 'balbúrdia' da Ufba

CORREIO lista 10 iniciativas de pesquisa e extensão na universidade consideradas de excelência

Começou com o surto de uma doença misteriosa em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador (RMS). As pessoas tinham a pele cheia de marcas vermelhas, sentiam coceira, febre, dores nos olhos e articulações. Era março de 2015 quando o infectologista Antônio Bandeira, que trabalhava na cidade, entrou em contato com um amigo – o virologista Gúbio Soares, professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba). 

Queria ajuda para descobrir o que acontecia ali. Enquanto as pessoas levantavam hipóteses como a contaminação da água, o professor Gúbio e a também professora e pesquisadora Silvia Sardi analisavam amostras. Um mês de análises depois, chegavam ao resultado: a dupla descobriu o vírus da zika no Brasil, colocando a Ufba nas principais manchetes do país. 

“O (então) ministro (Arthur) Chioro confirmou que era isso e que nosso trabalho era algo sério, importante para o país e para a humanidade. A partir daí, publicamos vários trabalhos e a coisa ganhou corpo no Brasil e no mundo inteiro a partir da nossa descoberta”, explica Soares, coordenador do Laboratório de Virologia do Instituto de Ciências da Saúde da instituição. 

De lá para cá, mais pesquisas sobre a zika – e outras arboviroses – foram desenvolvidas. Do mesmo laboratório, por exemplo, saíram descobertas como o vírus da chikungunya no sêmen humano e no leite materno. Mas a questão é que a Ufba não se resume a isso. Com 72 anos – além dos 211 da Faculdade de Medicina, a mais antiga do Brasil – a instituição se destaca em dezenas de outras áreas. 

O virologista Gúbio Soares foi um dos responsáveis pela descoberta do vírus da Zika no Brasil, em 2015 (Foto: Marina Silva/CORREIO) 

Produtividade
Na semana em que o Ministério da Educação (MEC) confirmou o bloqueio de 30% dos recursos repassados ao funcionamento de custeio – que inclui as contas de água, luz, telefone, limpeza e segurança –, a Ufba voltou ao noticiário nacional. 

Na terça-feira (30), o ministro Abraham Weintraub, titular do MEC, chegou a afirmar, em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo, que a Ufba, assim como a Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Federal Fluminense (UFF), teriam verbas reduzidas por promoverem “balbúrdia” e terem baixo desempenho acadêmico. Depois da repercussão, o MEC voltou atrás e anunciou que todas as instituições federais de ensino sofreriam bloqueio. 

O alegado baixo desempenho acadêmico foi um dos alvos de protesto. Um dos principais rankings internacionais, o Times Higher Education, colocou a instituição como uma das 10 melhores do Brasil – 15 universidades brasileiras ficaram entre as mil melhores do planeta. Na classificação das melhores da América Latina, a Ufba passou da 71ª para a 30ª posição, de 2017 para 2018.

Da mesma forma, a Ufba passou de 15º lugar para 14º, entre 2017 e 2018, no Ranking Universitário Folha (RUF), o principal do Brasil. Em entrevista ao CORREIO, esta semana, a coordenadora do RUF desde a primeira edição, Sabine Righetti, explicou que entre 2008 e 2017, a Ufba aumentou sua produção científica em 102%, na base de periódicos Web of Science. No mesmo período, a média nacional foi de 65%. 

De fato, hoje, a Ufba conta com 19 pesquisadores com produtividade 1A, de acordo com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O órgão divide os pesquisadores bolsistas em dois níveis (1 e 2). No nível 1 há uma gradação em letras (A, B, C e D) – os 1A são considerados os maiores pesquisadores do país. 

O CORREIO preparou uma lista com 10 iniciativas – entre pesquisa e extensão – de excelência na Ufba. Para chegar aos 10, pedimos indicações a diretores de faculdades e institutos, além da própria Reitoria. O resultado é uma lista que inclui trabalhos nas áreas de Saúde, Biológicas, Artes e Humanas. Mesmo com a variedade de áreas, muita coisa ficou de fora. Conheça parte da ‘balbúrdia acadêmica’ na mais importante universidade da Bahia. 

1. Zika, dengue, chikungunya e outras arboviroses
A descoberta do vírus da zika por pesquisadores do Laboratório de Virologia da Ufba, em 2015, é destacado por especialistas e veículos de comunicação até hoje, mas, de lá para cá, a instituição esteve à frente de pesquisas importantes com desdobramentos sobre a doença. 

Na época, aos pesquisadores Gúbio Soares e Sílvia Pardi suspeitavam que era algo transmitido por um inseto. Testaram pouco mais de dez vírus para o diagnóstico até chegar a vez da zika. De fato, o trabalho dos dois colocou o laboratório de virologia em um nível internacional – capaz de competir com universidades estadunidenses, inglesas ou alemãs. 

O laboratório de virologia continuou pesquisando sobre a zika e seus desdobramentos (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Mas não parou por aí. Os pesquisadores encontraram o vírus da chikungunya no sêmen de um homem adulto, em amostras recolhidas ao longo de um mês, e no leite materno de uma mãe que tinha tido a doença.

“A mãe estava aflita, o pediatra estava preocupado, mas, em momento algum a criança adoeceu”, lembra Soares. 

Atualmente, o grupo tem estudado meningites virais causadas pelo zika vírus. De 260 amostras coletadas no Hospital Couto Maia, 16% tiveram resultados positivos para o vírus. “Isso é muito importante, porque estamos mostrando que o zika vírus também pode causar meningite”. 

O laboratório ainda foi responsável por encontrar o vírus da febre oropouche, que ainda não tinha sido descoberto na Bahia.  Pouco conhecido no Brasil, o vírus é transmitido pelo mosquito Culicoides paraenses, conhecido popularmente como ‘maruim’ e provoca febre, mal-estar e dor de cabeça. Para o professor Gúbio Soares, a situação de restrição orçamentária na Ufba assusta. “A gente não vai poder trabalhar. A gente vai ficar sentado na porta do instituto, sem poder fazer nada”, lamenta. 

Outra descoberta do Laboratório de Virologia foi o vírus da chikungunya no sêmen e no leite materno (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Este ano, pesquisadores do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) chegaram a outra importante descoberta: a de que pessoas que tiveram dengue e adquiriram imunidade têm menos risco de contrair o zika vírus. O estudo foi publicado na revista Science, uma das mais prestigiadas publicações acadêmicas do mundo, em fevereiro. Além do ISC/Ufba, a pesquisa contou com a participação da Fiocruz Bahia e da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. 

Os pesquisadores acompanharam 1.453 moradores do bairro de Pau da Lima, em Salvador, entre março e outubro de 2015 e perceberam que 73% das pessoas contraiu o vírus da zika no período de surto da doença. No entanto, o estudo revelou que apenas um terço dessas pessoas manifestou sintomas – e eles foram leves.

"Observamos que as pessoas que tinham tido infecção por dengue, ou, mais especificamente, tinham anticorpos contra dengue, estavam mais protegidas. Esse foi nosso primeiro achado", afirmou, ao CORREIO, na época, o coordenador da pesquisa na Bahia, Federico Costa, professor do ISC.

2. Geoquímica do petróleo no Recôncavo baiano 
O petróleo começou a ser explorado na Bahia justamente no bairro do Lobato. Aos poucos, o estado despontou como pioneiro na produção de petróleo – o que fortaleceu a indústria, atraiu investimento e gerou empregos. Mas, nas últimas décadas, a produção nos poços - em especial, no Recôncavo baiano - só tem decaído. É bem nesse contexto que têm se fortalecido as pesquisas na área na Ufba. 

Através do Instituto de Geociências, a universidade começou a desenvolver pesquisas sobre petróleo há mais de 50 anos – tornou-se referência no país. No caso da Geoquímica do petróleo, os estudos datam de 20 anos, através do Centro de Excelência em Geoquímica do Petróleo, o chamado Projeto Geoqpetrol. 

No projeto, foram criadas metodologias que permitem inovar desde a fase de exploração do petróleo – envolvendo procedimentos de monitoramento, geração de bioprodutos e remediação de áreas afetadas por acidentes. 

A professora Olívia Oliveira, diretora do Instituto de Geociências, coordena os estudos sobre geoquímica do petróleo (Foto: Acervo pessoal)

“Muitas pesquisas ainda estão em andamento, mas muitas das nossas conclusões parciais demonstram o potencial ainda existente da produção de petróleo no Recôncavo baiano e em outras bacias brasileiras”, adianta a professora e pesquisadora Olívia Oliveira, diretora do Instituto de Geociências e coordenadora do Geoqpetrol. 

O grupo tem desde ferramentas para o entendimento de áreas com riscos ecotoxicológicos de acidentes do petróleo até biotecnologias patenteadas para remediar o impacto desse setor produtivo em áreas costeiras. “Atualmente também temos nos dedicado ao entendimento de bacias sedimentares brasileiras, através da modelagem geoquímica e prospecção de microrganismos e enzimas que atuam na degradação de hidrocarbonetos”, explica a professora. 

Com os resultados, o grupo espera, também, ajudar a retomada do petróleo do Recôncavo, através de novas tecnologias na produção dos chamados campos maduros – os que estão em estágio avançado na exploração – além de novas áreas.

“Esses avanços tecnológicos certamente fortalecerão a retomada do setor petrolífero na Bahia, refletindo na atração de investidores e geração de empregos para os baianos”, completa Olívia. 

3. Leptospirose no Subúrbio Ferroviário 
O grupo de pesquisadores do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) sabia de uma coisa: anualmente, explodem casos de leptospirose em Salvador – sempre em bairros periféricos. “Isso não é uma coincidência”, aponta o pesquisador Ricardo Lustosa, um dos responsáveis pelo estudo que busca entender o risco da leptospirose em bairros populares em Salvador. 

O projeto atua em quatro bairros do Subúrbio Ferroviário (Foto: Divulgação)

Através da análise da soroprevalência nessas comunidades, eles perceberam que a doença era comum em locais onde a infraestrutura, o saneamento básico e as oportunidades são menores do que no restante da cidade. De 2017 para cá, quando o trabalho teve início, o grupo passou por quatro bairros do Subúrbio Ferroviário: Alto do Cabrito, Marechal Rondon, Nova Constituinte e Rio Sena. 

“Verificamos as diversas dimensões que estão associadas à doença. Um dos pontos fortes é a questão da desigualdade, inclusive intrabairro. No próprio bairro, existem áreas mais vulneráveis que outras”, explica Lustosa. 

Famílias com renda menor do que um salário mínimo têm mais probabilidade de serem infectadas. Por isso, eles concluíram que, para que exista mudança, é preciso haver envolvimento da comunidade. Daí, criaram o projeto Jovens Inovadores, que conta com a participação de jovens moradores dos bairros. Eles atuam com registro de fotografias e com a coleta de informações no local.

O projeto identificou a relação da leptospirose com a desigualdade social (Foto: Marina Silva/CORREIO)

São desenvolvidos aplicativos geográficos em que esses jovens indicam os locais de maior vulnerabilidade e sugerem intervenções. “Um dos resultados mais importantes que tivemos é que os locais que eles indicam como de risco à saúde sobrepõem às nossas áreas de maior concentração da população soroprevalente para leptospirose. Ou seja: eles conseguem indicar as áreas de risco” . 

Além de pesquisadores de graduação e pós, como Ricardo (de azul, no meio), o projeto conta com moradores dos bairros envolvidos no estudo (Foto: Marina Silva/CORREIO)

O projeto é realizado em parceria com a Escola Politécnica e com o Instituto de Humanidades, Artes e Cultura (Ihac). Ao todo, mais de 30 pesquisadores – entre estudantes e professores – participam. Integrantes do grupo estão presentes, inclusive, em reuniões com um grupo de trabalho com secretarias de saúde locais. A ideia é, nesse grupo de trabalho, traçar estratégias para enfrentar a doença. 

“Esse projeto, além de promover o desenvolvimento dos estudantes, contribui para a formação dessas pessoas como cientistas e promove uma interação com a comunidade. É uma pesquisa que tem um efeito direto na comunidade”. 

4. Nanopartículas de ouro integradas a fungos 
À primeira vista, a pesquisa desenvolvida no Laboratório de Biotecnologia e Química de Micro-organismos, do Instituto de Química, parece ser complicada até de entender. Em resumo, o grupo trabalha com a síntese de nanomateriais para a integração na estrutura de micro-organismos – no caso, fungos. 

“Basicamente, crescemos algumas espécies de fungos e depositamos diferentes materiais na parede celular e isso confere particularidades diferentes para o micro-organismo. Se a gente deposita nanopartículas metálicas, eles passam a apresentar condução metálica”, explica o professor Marcos Malta, um dos coordenadores do laboratório. 

Através disso, as características biológicas e químicas desses fungos são alteradas e eles passam a ter uma aplicação tecnológica – diferente, inclusive, da especialização original. A depender do material depositado na parede celular – pode ser até ouro – as propriedades mudam radicalmente. Se forem depositadas nanopartículas metálicas, por exemplo, em um micro-organismo com estrutura tubular, o fungo pode apresentar uma condução metálica da mesma forma que um fio. 

O projeto trabalha com nanopartículas luminescentes integradas em fungos (Foto: Divulgação)

No caso específico do ouro, os pesquisadores podem depositar nanopartículas de ouro nos fungos. Em seguida, a célula fúngica (que é o componente biológico) é eliminada pelo processo chamado calcinação, que é uma reação química de decomposição térmica. Assim, o ouro depositado retém a morfologia dos fungos e pode ser usado como eletrodos de alta área superficial. 

“É um método muito simples para produzir microtubos de ouro, que, individualmente, são invisíveis a olho nu. Esses eletrodos são importantes para o desenvolvimento de sensores eletroquímicos”, explica o professor Marcos.

“Se a gente decora esses micro-organismos com materiais usados em catálise, eles podem ser utilizados para promover reações catalísticas”. 

Os cortes no orçamento o preocupam. O básico, para que um laboratório funcione, é justamente ter energia elétrica, água e internet. Além disso, os recursos para a compra de insumos químicos e equipamentos já eram escassos. “Especificamente, nosso laboratório funciona com recursos de um projeto que se encerrou em 2015. Quando os insumos químicos acabarem, a nossa pesquisa, infelizmente, vai parar”, lamenta. 

O professor Marcos (segundo à esquerda) é um dos coordenadores do laboratório (Foto: Acervo pessoal)

Um dos diferenciais do trabalho deles é que os micro-organismos foram retirados de áreas de restinga da Lagoa do Abaeté, que vem sofrendo um processo de destruição, nos últimos anos, devido à expansão da cidade. “Em Salvador, a região de restinga é pouco estudada. E (no geral), poucos grupos de pesquisa trabalham com micro-organismos, química de materiais e biotecnologia. É uma área nova, que poucas pessoas trabalham e que exige diferentes áreas de conhecimento”. 

5. Resgate de comunidades pela arte
Depois de trabalhar com comunidades de mulheres na Baía de Todos os Santos, no Recôncavo e na África, a artista Viga Gordilho, professora e pesquisadora da Escola de Belas Artes, ganhou uma bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) para passar os próximos seis meses em Portugal, pesquisando plantas consideradas sagradas – como a arruda. 

A nova pesquisa da professora e artista Viga Gordilho envolve plantas consideradas sagradas e metais (Foto: Acervo pessoal)

Ainda que tenha sido uma planta originária do Mediterrâneo, a arruda foi adotada pelos africanos como um talismã. Mas, ao mesmo tempo em que é associada à sorte, quando o chá é preparado em excesso, pode ter propriedades abortivas. 

“Ela tem dois contrastes. Dou um banho de ouro, prata e cobre e transformo em algo precioso da nossa cultura, como se fosse uma joia, para as pessoas se atentarem a essa descolonização. Por que os negros adotaram essa planta, se não era nossa, não vem da África, mas do Mediterrâneo? São muitas sutilezas, memórias invisíveis que tento revelar”, explica. 

Na Ilha de Itaparica, uniu a pesquisa com o resgate da comunidade. Com um grupo de mulheres, costurava travesseiros que eram enchidos com flores de pitanga. Através dos bordados dos travesseiros, as mulheres respondiam perguntas sobre os lugares onde viviam. 

Na Escola de Artes Visuais, a professora Viga trabalha com comunidades de mulheres (Foto: Acervo pessoal)

Com as mulheres, criou obras de arte como o Vestido Fuxiqueiro, que chegou a virar livro. “Era um vestido que não tem fim, feito de fuxico. À medida que fuxicávamos sobre o mundo, alegrias e tristezas, eu ia gravando. Você podia escutar esses fuxicos encostando no vestido”. 

O Vestido Fuxiqueiro foi desenvolvido com mulheres de comunidades da Baía de Todos os Santos (Foto: Acervo pessoal)

Para a professora, esse trabalho de pesquisa – que traz um olhar sensível para comunidades periféricas – ajuda a resgatar a autoestima das moradoras.

"Você deixa uma sementinha de confiança, de possibilidade de trabalho. É uma estética relacional. Eu não vou salvar ninguém, mas é um trabalho de formiga. Eles colaboram com minha obra e eu deixo algo com eles. Isso é a Ufba, porque o conhecimento não fica em minha gaveta”, diz. 

6. Erosão costeira 
Hoje, a Ufba conta com 19 pesquisadores com produtividade 1A pelo CNPq - ou seja, que estão entre os maiores pesquisadores do Brasil. Três deles estão lotados no Instituto de Geociências (que está no topo da lista, ao lado da Faculdade de Comunicação e da Faculdade de Arquitetura). 

Um deles é justamente o pesquisador e professor José Maria Landim, responsável pelo Laboratório de Estudos Costeiros nas últimas duas décadas. O foco das pesquisas do professor Landim é justamente a Zona Costeira do Brasil - em especial, da Bahia. 

"O planeta encontra-se ameaçado pelas consequências nocivas do aquecimento global decorrente da emissão de gases estufa na atmosfera (dióxido de carbono). A Zona Costeira, onde se concentra a maior parte da população mundial está diretamente ameaçada por estas mudanças climáticas e a elevação do nível do mar", diz Landim.

O professor José Maria Landim desenvolve pesquisas sobre erosão costeira (Foto: Acervo pessoal)

Só que, de acordo com ele, para responder a essas mudanças, é preciso conhecer o funcionamento da zona costeira. A partir daí, é possível fazer prognósticos das transformações que já estão acontecendo. Um dos resultados foi a conclusão do mapeamento da linha de costa dos estados da Bahia, Sergipe e Alagoas, que identificou os trechos mais afetados pela erosão. 

Em vermelho, no mapa, os trechos sujeitos a sofrer maior variabilidade - seja de erosão ou de progradação (Fonte: José Maria Landim Dominguez, Abilio Carlos da Silva Pinto Bittencourt e Junia Kacenelenbogen Guimarães, professores do Instituto de Geociências/Ufba)

"Estas informações podem agora ser utilizadas por prefeituras e empreendedores quando do licenciamento de empreendimento na faixa costeira", pontua.

O livro Panorama da Erosão Costeira no Brasil, que inclui o capítulo sobre os três estados, coordenado pelo professor, foi lançado no fim do ano passado, pelo governo federal. 

Em 2017, o CORREIO publicou uma reportagem mostrando a situação de cidades como Mucuri e Prado, no Extremo Sul do estado, a partir de algumas das conclusões dos pesquisadores. “A Ufba, no cenário nacional já tem uma colocação bem razoável. Os resultados das pesquisas traduzidos em publicações e teses, dissertações e monografias de alunos de pós-graduação e graduação, dentre outros aspectos, é o que ajuda a elevar o desempenho da Ufba frente às outras instituições de ensino”, afirma Landim. 

Confira onde estão lotados os 19 pesquisadores 1A-CNPq na Ufba:

Departamento de Zootecnia 
1. Gleidson Giordano Pinto de Carvalho

Faculdade de Arquitetura 
1. Ana Maria Fernandes 
2. Paola Berestein Jacques
3. Pasqualino Romano Magnavita

Faculdade de Comunicação 
1. André Luiz Martins Lemos 
2. Marcos Silva Palácios 
3. Wilson da Silva Gomes 

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas 
1. João José Reis 

Hupes 
1. Edgar Marcelino de Carvalho Filho 

IHAC
1. Antonio Albino Canelas Rubim

Instituto de Física 
1. Antonio Ferreira da Silva 

Instituto de Geociências
1. José Maria Landim Domiguez
2. Milton José Porsani
3. Pedro de Almeida Vasconcelos

Instituto de Psicologia 
1. Antônio Virgilio Bittencourt Bastos

Instituto de Saúde Coletiva
1. Jairnilson Silva Paim 
2. Maurício Lima Barreto

Instituto de Química 
1. Jailson Bittencourt de Andrade
2. Sérgio Luis Costa Ferreira
 

7. Mediação de conflitos referência no Brasil
A professora e pesquisadora Ana Paula Bomfim, da Faculdade de Direito, começou a trabalhar com mediação de conflitos há 20 anos. Na Universidade Federal do Piauí (UFPI), instituição onde trabalhava anteriormente, criou o Observatório da Pacificação Social. Quando foi transferida para a Ufba, em 2012, decidiu implantar o programa aqui. 

Ela não imaginava que, no início de 2019, pouco mais de seis anos depois, o projeto teria sido vencedor do Prêmio Conciliar é Legal, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), na categoria ensino superior, entre 105 projetos inscritos. 

Na Bahia, o observatório começou com um projeto de mediação escolar em Valença, no Sul do estado – que, por sua vez, foi expandido para Cairu. Gradativamente, novas vertentes do projeto foram criadas, a exemplo da mediação comunitária, familiar e a Câmara Modelo, que funciona no subsolo da Faculdade de Direito. Hoje, o grupo tem convênio até com órgãos como a Defensoria Pública do Estado (DPE) e mais de 30 núcleos comunitários espalhados pela capital. 

A professora Ana Paula Bomfim implementou o Observatório da Pacificação Social na Ufba. O projeto venceu um prêmio do CNJ (Foto: Marina Silva/CORREIO)

O principal, explica Ana Paula, é disseminar a cultura de paz nas comunidades.

“O judiciário resolve o seu conflito no que você pediu, mas o seu vínculo com aquela pessoa se desfez. Na mediação, além de solucionar a questão, você mantém aquelas questões – seja na área de vizinhança, de família. Não adianta você pagar uma pensão alimentícia, se não resgatar a relação entre mãe, pai, filho”, diz a professora. 

Por dia, são realizados, em média, oito procedimentos de mediação. Em mais de 80% dos casos, a resolução acontece por meio da mediação. O observatório atende pessoas em situação de vulnerabilidade econômica e, por vezes, microempresários se enquadram nessa situação. Na mediação, estudantes e professores já impediram até que empresas se desfizessem, com a ruptura de sociedade. 

Nos bairros, são feitas visitas em que se aplicam questionários para que os estudantes possam entender qual é o tipo de conflito naquela comunidade – e, por consequência, qual é a melhor solução para mediá-la. É o caso de conflitos entre vizinhos, parentes e, em caso de escolas, até de alunos com professores, com funcionários e com outros estudantes. 

“A validade da mediação e da sentença proferida pelo juiz é igualzinha. Além de empoderar essas pessoas, a mediação não vai ter custo e elas ficam na própria comunidade”, conta. Atualmente, 24 alunos de graduação fazem parte do projeto. Há desde estudantes de Direito até de cursos como Psicologia, Arquitetura e dos Bacharelados Interdisciplinares. Isso é possível porque a mediação não tem aspectos apenas do direito. 

No Observatório, mais de 80% dos casos têm resolução pela mediação (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Além do atendimento de segunda a sexta-feira, na Faculdade de Direito, o projeto visita comunidades entre duas e três vezes por semana. Uma vez por mês, vão a Valença e a Cairu. No caso de Cairu, a localidade atendida é a chamada Zimbo, que fica em Morro de São Paulo. 

Para chegar lá, vão com o ônibus da Ufba até a costa, seguem de lancha (cedida pela prefeitura de Cairu) até a ilha e, lá, andam até a Segunda Praia. Em seguida, andam no trator ou no ônibus escolar da cidade até a localidade, que fica a 40 minutos de distância. 

Em Valença, a diretoria de um dos colégios onde o grupo faz a mediação deu o exemplo de como a situação mudou. Na área da escola, a média era de 10 homicídios por ano. Em todo o ano de 2017, foi apenas um. Até os índices de evasão diminuíram. 

O Observatório da Ufba se tornou referência no Brasil. A Universidade Federal do Paraná (UFPR) foi uma das que criou um grupo para fazer cooperação técnica com o projeto baiano, enquanto a Universidade Federal de Goiás (UFG) deu início a um diálogo para que a Ufba ajude na implantação de um projeto nos mesmos moldes lá. 

Nesse cenário de bloqueio do orçamento de custeio, o transporte é uma preocupação da professora. O ônibus deve ser diretamente afetado por isso.

“Com o corte que já teve, já cortam o transporte para a gente, porque a gente não tem dinheiro (financiamento próprio). Se a gente não tiver dinheiro, nosso projeto morre nas escolas do interior e nos bairros de Salvador, porque não vamos ter como nos deslocar. Ônibus não é luxo, é necessidade”, diz. 

8.    Enfrentando fungos hospitalares 
A Cândida é o quarto fungo mais comum em infecções hospitalares do mundo. Mas, até o Laboratório de Análises Clínicas e Toxicológicas da Faculdade de Farmácia estudar a situação local, não havia muita clareza sobre como esse – e outros micro-organismos – agia em ambientes hospitalares em Salvador. 

“O Cryptococcus também é oportunista e causa meningite em humanos e animais. Hoje, a gente tem um perfil de espécies ambientais que, apesar de raras, têm provocado infecção em humanos. A ideia do trabalho é chamar atenção para essas novas espécies de micro-organismos que podem vir a causar infecções”, explica a professora Tânia Barros, uma das três pesquisadoras do laboratório e diretora da Faculdade de Farmácia. 

Como infecções fúngicas costumam ter altas taxas de mortalidade, o diagnóstico deve ser preciso, para que o tratamento seja iniciado o quanto antes. As pesquisadoras, inclusive, já chegaram a fazer o isolamento desses fungos em unidades hospitalares baianas – entre públicas e particulares. 

“Não é como se os fungos fossem negligenciados, mas é uma infecção que poucas pessoas trabalham, uma linha que poucas pessoas pesquisam. É um trabalho importante nesse sentido”, completa. 

9.    Água mais limpa no Sertão
A inquietação da jovem Anna Luísa Bezerra começou ainda na adolescência: queria criar uma solução prática, rápida e barata que ajudasse quem vive sem acesso à água. Naquela época, começou a traçar o que poderia ser essa solução. 

No entanto, só conseguiu tirar a ideia do papel quando entrou no curso de Biotecnologia na Ufba, onde se formou no fim do ano passado. No curso, ela conseguiu transformar os planos em um negócio de impacto social – a startup Safe Drinking Water for All (SWD), que criou uma alternativa para o tratamento de água.

Anna Luísa criou o sistema Aqualuz no curso de Biotecnologia (Foto: Divulgação)

Com a empresa, desenvolveu o produto – a chamada Aqualuz, um sistema de pouco mais de 2,5 quilos que é instalado ao lado da cisterna da casa da pessoa, que já vem com uma bomba manual. A cisterna bombeia a água que vai passar por um filtro. 

Em abril, Anna Luísa e outros três estudantes ficaram em segundo lugar na premiação HackBrazil,  evento realizado por estudantes brasileiros nas universidades de Harvard e MIT, em Boston (EUA), com o foco em iniciativas empreendedoras na área de tecnologia. Além do reconhecimento, o grupo recebeu R$ 25 mil. 

Com capacidade para filtrar até 28 litros de água por dia, a Aqualuz é uma caixa de inox coberta por vidro e uma tubulação para ser ligada à cisterna – com energia limpa e sem compostos químicos. O sistema chegou a reduzir 99,9% das bactérias presentes na água.  

10. Pesquisa inovadora sobre qualidade da água
No Instituto de Biologia, o jovem professor Pedro Milet Meirelles coordena um projeto que promete resultados inéditos sobre a qualidade da água no Brasil. O objetivo da iniciativa, que engloba 30 pesquisadores de diversas áreas e instituições, é avaliar os impactos das mudanças climáticas nos micro-organismos que vivem embaixo da terra, nos aquíferos, na água subterrânea e em lençóis freáticos e o impacto disso na qualidade da água. 

A pesquisa envolve pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Holanda e Espanha. Estão envolvidos ainda membros do Instituto de Física, do Departamento de Computação, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e das escolas de artes. Meirelles explica que a pesquisa vai gerar conhecimento inédito e utilizar estas informações para melhorar a qualidade da água. 

O professor Pedro Milet Meirelles coordena uma pesquisa sobre a qualidade da água (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

O projeto foi classificado, em uma primeira fase, para um financiamento do Instituto Serrapilheira e compete com outras 65 iniciativas. Se passar, será destinado R$ 1 milhão para o desenvolvimento da pesquisa. "Envolve coletar dados inéditos sobre os aquíferos, fazer experimentos inéditos com esses micro-organismos para saber como vão se comportar se a gente simular uma situação de mudança climática no laboratório", explica.

Segundo ele, em 2015 foram descobertas novas bactérias e as informações  sobre elas ainda são escassas. "Não sabemos como essas bactérias estão distribuídas no planeta, como elas influenciam nos lugares que estão, se estão amplamente distribuídas", avalia. "As bactérias  desempenham papel super importante, tanto na saúde, no equilíbrio, quanto na ciclagem de matérias, nutrientes, até no nosso comportamento", complementa. 

Na primeira fase da pesquisa, foram coletadas amostras de todos os tipos  de ambientes do planeta, ele explica. O projeto envolve até inteligência artificial para a condução. "O principal foco é gerar dado inédito do Brasil. Como temos parceiras internacionais, pretendemos estender isso para o resto do planeta", diz, ao complementar que o projeto envolve também riscos. "Estamos nos expondo a resultados que ainda não sabemos o que vai dar". 

Sobre os cortes orçamentários na Ufba, ele diz que podem afetar o estudo. Ele lembra que o projeto é bancado com recursos privados, mas ressalta que o funcionamento básico da universidade é fundamental para a continuidade das ações e manutenção das condições mínimas de trabalho. "Esse tipo de pesquisa é feita nesse âmbito (da universidade). Não é porque tem financiamento privado que vai deixar de sofrer impacto", afirma. 

*Colaborou Luan Santos


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