De Feira para a Rússia: conheça baiano que é tradutor da Seleção

ba-vi
22.06.2018, 05:47:00
Atualizado: 22.06.2018, 10:22:19
(Geisel, que mora na Rússia há seis anos, no estádio de São Petersburgo, onde o Brasil joga nesta sexta-feira (22) (Foto: Acervo pessoal))

De Feira para a Rússia: conheça baiano que é tradutor da Seleção

Estudante de Medicina chegou ao país da Copa há seis anos, sem falar russo

Baiano de Feira de Santana, o estudante de Medicina Geisiel Cruz, 28 anos, chegou à Rússia em setembro de 2012 sem saber falar nenhuma palavra do idioma. O que ele não imaginava era que, quase seis anos depois, o jovem da Princesinha do Sertão estaria do outro lado do mundo, facilitando a vida da Seleção Brasileira na Copa de 2018.

Desde o início do mês, Geisiel é assistente de tradução e logística da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) na Rússia. E isso significa dizer que ele passa o dia acompanhando não apenas os 23 jogadores da campanha para o hexa, mas também médicos, roupeiros, massagistas...

Geisiel chegou a São Petersburgo com a Seleção na quarta-feira (20) (Foto: Acervo pessoal)

“Não sou tradutor de (entrevista) coletiva. É para o dia a dia aqui mesmo, porque a Seleção está vivendo em um país estranho e que o inglês não prevalece de forma alguma. Tem transporte, todo um protocolo para aeroporto, saída para treinamento... Todas as coisas que são necessárias para o bom funcionamento, a gente entra como canal de comunicação”, explica. 

Geisiel é o único tradutor exclusivo da CBF, mas um russo que fala português também trabalha como tradutor para o Brasil. Enquanto o russo atua para a Fifa – que disponibilizou um profissional para cada seleção – e o comitê organizador, o baiano fica somente com a entidade brasileira.

Feirense, Geisiel acompanha toda a delegação da CBF - inclusive a Seleção Brasileira (Foto: Acervo pessoal)

Facilidade com o idioma
Ele já tinha tido algumas experiências como tradutor antes. Trabalhava com traduções escritas, acompanhou um diretor de teatro russo em festival no Brasil e foi até intérprete de diplomatas brasileiros que foram para a Rússia. 

Por isso, foi natural quando, em janeiro deste ano, uma amiga lembrou dele quando viu um anúncio em uma rede social russa, buscando russos que falassem português. Geisiel entrou em contato com o comitê organizador da Copa e, durante uma ligação telefônica, avaliaram se ele falava bem. 

“Passei por entrevista e eles enviaram alguns currículos, o meu inclusive, para a CBF. Isso porque a CBF queria um tradutor exclusivo, que não fosse da Fifa. E eles me escolheram”, lembra Geisiel.

Mesmo tendo chegado a Moscou sem saber falar a língua, há seis anos, Geisiel se deu bem com ela. Na época, ele participava de um grupo de teatro de uma companhia filantrópica, a Cia Níssi. Ele e outros jovens tinham sido enviados à Rússia com o objetivo de estudar Artes, aprender o idioma e, depois, entrar em uma faculdade local.

“O projeto mudou bastante, teve algumas desistências e eu enveredei por outro lado. Conheci brasileiros que faziam Medicina e me falaram da facilidade de acesso de estrangeiros (ao curso). Ainda que fosse pago, não era caro” conta. 

O curso de russo tinha duração de nove meses, mas, com apenas quatro, ele já dominava o idioma. O tempo foi passando, ele foi gostando e, cada vez mais, a proposta de ficar soava  interessante. Dito e certo: depois que o projeto acabou, muitos dos colegas foram embora e Geisiel continuou. Hoje, está prestes a terminar o curso de Medicina que, como no Brasil, dura seis anos. 

Acompanhamento exclusivo
A rotina é intensa. Ele levanta por volta de 8h da manhã – às vezes, mais cedo, a depender da programação. Cada dia tem suas próprias demandas. “Geralmente tem uma programação fixa, mas logo cedo vemos se tem alguma pendência, se tem alguma demanda extra para o treino, se precisa resolver coisa de banco, ligação, encomendar algum produto para a equipe médica... Fico à disposição o dia inteiro”. 

No cargo de assistente de logística e tradução, o jovem está à disposição dos brasileiros (Foto: Acervo pessoal)

Isso inclui ficar hospedado no mesmo hotel que os jogadores, almoçar nos mesmos locais e viajar no mesmo avião. No entanto, ele não pode entrar em detalhes sobre a vida dos rapazes. "Eu acompanho a rotina, vivemos no mesmo hotel, almoçamos no mesmo local, estamos no treino juntos e auxilio de algum modo se precisam de alguma coisa. A gente está sempre junto, mas essas coisas sobre quem acompanhei ou o que eu fiz não é bom comentar", diz o baiano. 

Na parte de logística, ele precisa organizar o que será levado para treinos, como será feito o transporte e qualquer outra coisa que tenha comunicação com os russos. A vantagem, segundo Geisiel, é que o treinamento da Seleção Brasileira fica junto do hotel onde estão hospedados em Sochi – cidade eleita como a ‘casa’ da delegação. 

“Agora mesmo, estou organizando a carga que vai para o aeroporto para o jogo de São Petersburgo. Faço contato com o carro que vem buscar e o motorista. Eles chegaram, eu oriento, tenho que verificar os documentos e tem uma contagem de material, para saber quanto vai, enfim... Toda essa logística enquanto o pessoal está treinando. É um trabalho de bastidores, realmente”, contou, referindo-se à partida desta sexta-feira (22), na qual o Brasil enfrenta a Costa Rica, a partir das 9h. 

Quando o Brasil entrar em campo, provavelmente, o coração de Geisiel vai estar como o de todos os outros brasileiros. A diferença é que ele pode conferir a partida de um ângulo privilegiado – junto ao restante da equipe que acompanha o jogo. Não é junto de Tite e do banco de reservas, mas na primeira fila reservada a profissionais como médicos e fisioterapeutas. 

Foi assim na estreia do Brasil, no domingo (17), contra a Suíça.

“No primeiro tempo, estava lá, gritando tanto que perdi a voz. Foi uma emoção muito grande. Depois do intervalo, fui resolver algumas coisas. Quando voltei, já foi quando teve o gol da Suíça e não quis mais assistir. Fiquei muito nervoso, parecia que eu ia jogar”, brinca. 

Para ele, tanta exclusividade compensa financeiramente muito mais por se tratar de uma Copa do Mundo. “É uma oportunidade incrível. Talvez, se não fosse Copa e fosse acompanhamento exclusivo de um grupo ou uma pessoa, o valor fosse maior. Mas o valor é compensatório, é bom para o currículo e a experiência pessoal conta junto”. 

Geisiel fica com a CBF até o fim da participação brasileira na Copa (Foto: Acervo pessoal)

Geisiel fica com a Seleção durante toda a participação brasileira na Copa (o que ele - e muita gente - espera que seja até a final). O destino na Rússia depois que terminar o curso de Medicina, por outro lado, ainda não está definido. Uma coisa ele garante: gosta muito de lá e, quando pensa em ir embora, a sensação não é boa. 

Trabalho exige concentração
Tradutores de russo não são algo fácil de encontrar. Aqui na Bahia, não existe nenhum tradutor juramentado de russo na Junta Comercial do Estado (Juceb). Em todo o país, há seis filiados na Associação Brasileira de Tradutores (Abrates) e apenas três no Sindicato Nacional dos Tradutores (Sintra), de acordo com a busca no próprio catálogo de cada uma das entidades. 

“São poucos tradutores de russo, mas nem todo mundo é sindicalizado. Habitualmente também não temos tantos eventos no dia a dia que exijam o russo. Só às vezes, quando tem uma conferência internacional, alguma coisa da ONU (Organização das Nações Unidas) ou alguma coisa em que venha um participante russo”, explica a presidente do Sintra, Luisa Lamas. 

No entanto, como a profissão não é regulamentada, é difícil até mesmo estimar quantos profissionais atuam como tradutores no país hoje. Mesmo assim, é possível imaginar que é um grande universo: a própria Luisa destaca que há desde as atividades mais óbvias, como traduzir livros e filmes até aplicativos, bulas de remédio e manuais de carro. 

Para ser considerado tradutor, não basta apenas falar uma língua estrangeira. Segundo Luisa, é preciso ter praticamente o mesmo domínio do idioma que um nativo teria – inclusive, o domínio da norma culta da língua em questão. Sem contar que um trabalho de intérprete, por exemplo, pode ser muito estressante. 

“É um trabalho que exige extrema concentração. É algo comparado ao estresse que os controladores de voo têm porque é algo que você tem que ficar concentrado ouvindo e falando ao mesmo tempo”, diz.

Ela explica que é comum que, no trabalho de acompanhamento, o tradutor participe de tudo: desde ir a um restaurante para ajudar até ir ao aeroporto, passando por reuniões, idas ao médico e entrevistas coletivas. 

Não existe piso salarial no Brasil justamente porque a profissão não é regulamentada. No entanto, entidades como o Sintra oferecem tabelas de valores de referência que, de acordo com Luisa, seriam um pagamento “justo para um profissional sênior realmente qualificado”. Nos estados do Sudeste, onde o trabalho é mais comum, as referências são as mais altas – a diária sugerida para acompanhamento é de R$ 1.870. Não há valores na tabela para o Nordeste. 

“Além disso, existem práticas que incluem o pagamento de passagem aérea, hospedagem, alimentação e dia cessante. Tudo isso é negociado e as boas práticas indicam que você tem que levar isso em consideração”.

Russo não é tão difícil
Apesar de assustar, à primeira vista, aprender russo não é tão difícil assim. Como explica a professora de russo Volha Yermalayeva Franco, 29, o primeiro desafio é justamente o alfabeto, que é diferente do latino – no qual se baseiam o português e outras línguas. A língua russa, por outro lado, utiliza o alfabeto cirílico, que também é a base de outros idiomas eslavos. 

O alfabeto é a primeira lição que um estudante de russo aprende – com duas, três horas de aula, o aluno já terá boa noção das letras. “Depois, eu diria que a pronúncia de russo não é tão difícil quanto possa parecer”, diz ela, que nasceu em Belarus (antiga Bielorrússia) e mora em Salvador desde 2011. Em sua terra natal, são dois idiomas oficiais: o belorusso e o russo. 

Para dar uma ideia, no idioma russo, não existe um dos principais problemas dos falantes não-nativos de línguas como o inglês, o espanhol e o francês: os verbos ‘ser’ e ‘estar’.

“Se você quer falar ‘eu sou brasileira’, você fala ‘eu brasileira’ (em russo). Tem umas coisas muito simples nesse sentido e é interessante porque sempre abre a mente para outras construções”. 

É quase como se fosse uma língua impessoal – ela explica que é como se quem fala não fosse realmente o sujeito da frase. “Não é você que tem uma idade, por exemplo. É a idade que vem para você. E nós não escolhemos a idade, ela vem sem perceber”. 

Assim, ela acredita que realmente seja tranquilo para estrangeiros aprenderem a falar russo. E mesmo quando a pessoa sabe pouca coisa, os russos já ficam impressionados: eles reconhecem que não é lá um idioma muito popular. 

Volha ensinou russo a cerca de dez pessoas que viajaram para a Copa do Mundo. Em uma das escolas, o Clube Eslavo, houve até turmas de um curso específico para esses viajantes. Ela, no entanto, só vai à Rússia em agosto, depois de visitar Belarus. 

“Na Copa do Brasil, trabalhei como intérprete para turistas russos (em Salvador), mas não procurei, foi a oportunidade que me achou”, explica ela, que faz mestrado em Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal da Bahia (Ufba). 


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