Delivery, drive-thru ou até na garagem: baianas se reinventam na pandemia

salvador
02.08.2020, 05:00:00
Atualizado: 02.08.2020, 08:54:53
Dona Gel prepara acarajé em casa: de lá para o motoboy e, em seguida, para o cliente (Nara Gentil/CORREIO)

Delivery, drive-thru ou até na garagem: baianas se reinventam na pandemia

Aplicativos de entrega como o Ifood e a porta de casa são alternativas para baianas não ficarem paradas; cerca de 80% perderam o sustento

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Uma chuva fina deixava ainda mais nostálgica a noite da última quarta-feira no Largo da Mariquita, no Rio Vermelho. Àquela altura, mesmo com a garoa, as mesas dos bares estariam cheias se não estivéssemos na maior crise sanitária da história. Mas a luz fluorescente de um quiosque coberto com uma lona no meio da praça mostra que tem movimento ali. E a rotatividade é grande!   

Chama a atenção dois motoboys do aplicativo Ifood na fila, entre os clientes do modelo drive-thru - ou simplesmente ‘pegue e leve’ - da baiana de acarajé Cira, uma das que voltou a montar tabuleiro nas ruas. Em seguida chega outro entregador. Depois, mais um. Após uma fase inicial em que a produção de acarajé chegou a quase zero, algumas baianas estão se virando como podem.

No fundo, no fundo, elas sabiam que o soteropolitano não aguentaria muito tempo sem comer o bolinho frito no dendê. Por isso, pela primeira vez em décadas, o acarajé da Cira topou entregar a iguaria nas casas dos clientes, ainda que a experiência de comer o quitute de feijão fradinho tradicionalmente envolva estar no local.

“A gente gosta de receber as pessoas aqui, de conversar e ver elas comendo à vontade nos bares. Mas estamos em uma crise e o acarajé é só pra matar a vontade mesmo”, diz Luciene de Almeida, uma das funcionárias de Cira, que junto com as outras usavam máscaras, seguiam regras de higienização e pediam que os clientes cumprissem o distanciamento.

Apesar de tudo, ela calcula uma redução de 50% das vendas em relação ao que saía antes. De toda a produção atual, 20% vai por delivery. “O delivery tem sido bem aceito. Mas o povo gosta mesmo é de pegar aqui”, conta Luciene. “Oxe, eu quero estralando de tão quente. Não venha com acarajé frio depois de três meses sem comer um”, disse a vendedora Larissa Aguiar, 36 anos  

Leia também: CORREIO lança campanha para arrecadar doações para as baianas de acarajé

Cira:'pegue e leve' (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

O número de baianas que aderem ao delivery é cada vez maior. Por "questão de estratégia", o aplicativo Ifood diz não divulgar a quantidade de baianas de acarajé que cadastraram seus cardápios no aplicativo. Mas até os entregadores sentiram a diferença. “Antes o hambúrguer ganhava disparado nas entregas. Agora o acarajé aumentou muitos”, observa o motoboy Nilvan Carvalho, 28 anos. "Hoje já entreguei acarajé em uns dez lugares. Antes não entregava um", confirmou Rodrigo Oliveira, 25 anos.

O Ifood informou que um dos seus propósitos é levar aos consumidores diferentes experiências gastronômicas, independentemente do lugar onde eles estejam. "Acreditamos que, assim, contribuímos para a valorização das culinárias regionais, que são também manifestações culturais. Com as baianas do acarajé - patrimônio imaterial - não seria diferente", disse nota da empresa, que fica com o percentual de 25% das vendas.

Angelimar Trindade Santos Sousa, 63 anos, que tem um ponto de venda há 12 no IAPI, foi uma das primeiras a aderir ao sistema. No caso dela, a produção é feita de casa. Seu ponto original está fechado. “Resolvi não abrir mesmo depois que o prefeito liberou que as baianas fizessem o modelo drive-trhu. Eu pensei em me proteger. As pessoas sentam, conversam. Estaria colocando a minha vida em risco e a dos clientes também. Passei então para o plano B”, diz dona Gel, que atua na direção da Associação Nacional de Baianas de Acarajé (Abam).

Todo o preparo na casa de Dona Gel (Fotos: Nara Gentil/CORREIO)

Na semana seguinte ao início do isolamento social, em março, Gel começou a divulgar para os clientes que iria fazer entrega na residência deles. “Pensei na seguinte forma: já atendo esse pessoal há 12 anos. Se eu não tomar uma atitude para ser lembrada, vou perder minha clientela para sempre. Eles iriam arranjar outro fornecedor. Porque as pessoas não vão aguentar ficar sem comer seu acarajé, seu abará e sua passarinha”, acredita.

Chegou a fazer o delivery durante 11 semanas. A notícia correu de boca em boca e Gel viu surgir clientes da redondeza que ela nem conhecida. “Isso se espalhou de uma forma que me surpreendeu”. Gel também passou a atender pelo Ifood nos dias de quarta, quinta e sábado. Só não entregava pelo aplicativo na sexta-feira para poder atender melhor a demanda do seu bairro.

Só uma coisa parou Angelimar por um tempo: o coronavírus. “Comecei a sentir os sintomas. Já estava atenta. Começou em um sábado e não trabalhei mais. Muita tosse e dor no corpo. Na terça-feira amanheci sem paladar”. Gel fez o teste no hospital e foi para casa se isolar. O resultado deu positivo.

“Comuniquei aos meus clientes, coloquei nas redes sociais, não escondi de ninguém”, disse Gel. No décimo quarto dia, refez o exame sorológico e positivou também. Foi aconselhada a ficar mais sete dias isolada. Numa quinta-feira, 23 de julho, Angelimar finalmente pôde voltar a entregar sua iguaria. E com delivery do Ifood na sexta. “Já avisei a todo mundo. Gel está de volta!”.  

Somente nas sextas, chega a tirar R$ 1,2 mil. Agora, Gel percebe um aumento do número de baianas nos aplicativos. “No início eram poucas. Agora tem várias”. Pensa que Gel tem receio da concorrência? Pelo contrário. Ela tem incentivado as colegas que estão paradas a buscarem uma alternativa. Especialmente as baianas que costumavam vender nas praias e perderam todos os clientes.

“Não dá pra ficar vivendo de cesta básica e de auxílio da prefeitura. Uma hora essas doações vão acabar. Tenho incentivado elas a entrar no Ifood e a colocar o tabuleiro na porta. Só vai saber, se vai dar certo ou não, se tentar. Algumas me ouviram e estão vendendo direitinho por Ifood, Instagram, Whatts App e até na garagem”.  

Alessandra: garagem de casa foi a saída (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

De fato, a garagem de casa foi a opção encontrada por Alessandra Braga, 40 anos. Ficou 100 dias parada em casa lamentando os planos que tinha feito para 2020. Chegou a ficar deprimida. “Me isolava no quarto e não queria falar com ninguém. Aquela mulher, que antes ajudava nas despesas de casa, não podia ajudar mais”.

Mesmo deficientes e do grupo de risco, o marido e a filha passaram a incentiva-la a colocar para frente a ideia de montar o tabuleiro na garagem de casa. “Começamos a divulgar a volta do acarajé da Alessandra e do Expedito. Amigos e cliente ajudaram. Então o grande dia chegou”.

As vendas caíram bastante em relação a antes, mas o pouco que tem entrado ajuda muito.

“A minha venda teve a queda de 80% mas eu sou muito grata pelos 20% que restou, porque são esses 20% que me ajudam a suprir com as despesas fazendo o que eu mais gosto de fazer, que é vestir a minha roupa de baiana, arrumar o meu tabuleiro e vender o meu acarajé”.

Então, se quiser provar o acarajé da Alessandra e do Expedito, dê uma passada na Rua José Araújo N 8, Itapuã. “O endereço onde eu me reinventei vendendo na garagem de casa”, orgulha-se.

Caindo de boca
Nessa brincadeira, muita gente que fazia tempo sem sentir o gostinho de cair de boca em um acarajé voltou a provar da iguaria. O engenheiro civil Thiago Cruz parou o carro rapidinho ali no Largo da Mariquita para pegar uns acarajés da Cira. Já fazia cinco meses sem sentir esse prazer. "Cara, eu já não aguentava mais. Tive que sair de casa debaixo de chuva para vir aqui. Não vejo a hora", disse Thiago, que pelo tamanho do saco tava levando para toda a família. 

Thiago não comia um acarajé há cinco meses (Foto: Alexandre Lyrio/CORREIO)

No primeiro mês de isolamento, a jornalista Morgana Damásio, 28 anos, sentiu "abstinência" do produto. Acabou comprando acarajés e abarás congelados. "O abará eu esquentava na cuscuzeira e o acarajé no forno". Mas, não era a mesma coisa, diz ela, que mora na Barra. Na semana passada, botou a máscara, saiu de casa e foi até o Porto da Barra pegar um acarajé da Roseneide.

"Fui na baiana pela primeira vez nesses quase cinco meses de isolamento. Trouxe o acarajé pra comer em casa, mas estar diante de um tabuleiro é sempre uma experiência afetiva. O cheiro do dendê, o barulho do bolinho fritando no azeite, a conversa durante a espera", suspira Morgana.

Repasses
As baianas têm tentado se reinventar porque a situação está muito difícil para a maioria delas. Cerca de 80% não estão atuando nas ruas com a pandemia pelos mais diversos motivos. Algumas estão vivendo de cestas básicas doadas pela Abam. As que apostaram em modelos alternativos ao menos conseguem tirar um valor das vendas.

Ninguém está faturando como antes, mas nesse momento o que entra já reduz os prejuízos. No caso do Ifood, por exemplo, os repasses são semanais. Mas, para não ter muita perda, o valor do acarajé deve ser maior que antes - já que o Ifood fica com 25% do valor das vendas. "Tudo bem que você tem vários motoboys à disposição", pondera a baiana Angelimar.

Dona Gel e o motoboy do app (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

De vez em quando, os motoboys não aparecem alegando que a área é difícil. O aplicativo Traz Favela tem sido visto como uma opção pela Abam. “O Ifood era pra complementar a renda, mas tá sendo meio de vida”, diz a baiana Sandra Nascimento Santos, 46 anos, que perdeu todos os clientes depois que o Salvador Norte Shopping fechou com a pandemia.

Teve a ideia de trabalhar com o aplicativo, as vendas caíram bastante, mas é possível tirar um troco. Passou a produzir o bolinho frito no dendê direto de casa. Juntou os auxílios emergencial do Governo Federal com o pago pela prefeitura de Salvador. Assim, tem conseguido sustentar os três filhos.

Com o retorno dos shoppings, no dia 24 de julho, voltou para o seu ponto e não sabe se vai ter muito cliente. Por isso, vai seguir com o delivery também. “Vou voltar seguindo as normas, sem mesas ou cadeiras, com meu álcool gel, minha máscara e tentar seguir a vida”.

Pedidos delivery para novos produtos aumentaram 70% em aplicativo
O aplicativo Ifood informou que, neste período de pandemia, foi possível observar mudanças nos hábitos de consumo dos clientes que utilizaram a plataforma. Porções familiares ganharam cada vez mais destaque, assim como novas ocasiões de pedidos. Entre março e abril de 2020 houve um aumento de pedidos de 70% em produtos como bolos, doces e sorvetes. Por um questão estratégica, a plataforma não divulga números de entregas de acarajé.

Também houve aumento no volume de pedidos para novas ocasiões, como café da manhã - com crescimento de 82% no número de solicitações durante a semana e de 63% aos finais de semana. Itens de padaria aumentaram em mais de 60% e o Ifood chegou a contabilizar mais de 1 milhão de pedidos de pães neste período.

Passo a passo para entrar no Ifood

1 - Os restaurantes que têm interesse em serem parceiros precisam possuir CNPJ, código CNAE ligado a atividade de restaurantes, conta bancária em nome do restaurante e documentação que comprove a regularidade do estabelecimento com as leis. O Ifood possui 2 planos, o Básico e o Entrega. Os valores variam de acordo com o plano e com negociações. O Plano Básico permite que os estabelecimentos utilizem a plataforma como ferramenta de marketing/ canal de vendas e trabalhem com frota própria de entregadores. Já o Plano Entrega consiste em um sistema em que o Ifood realiza a gestão de pedidos do restaurante e o conecta aos entregadores independentes cadastrados na plataforma.

2 - Os restaurantes podem se cadastrar por meio do site restaurante.ifood.com.br. Ao clicar em “Quero fazer parte”, o restaurante inicia um cadastro, no qual há verificação de documentos, e assina o nosso contrato digital. Depois, precisará configurar as demais informações do restaurante, como formas de pagamento, horários de funcionamento, itens do cardápio etc., para que elas fiquem disponíveis aos clientes no site e aplicativo.

3 - Feito isso, deve acessar o Gestor de Pedidos, onde irá realizar um tour explicativo pela ferramenta para aprender a receber os pedidos pelo Ifood. Há algumas redes e estabelecimentos que possuem suas ferramentas de gestão e há também a possibilidade de conexão via api.

4 - Os pedidos com pagamento pelo app realizados no Ifood são repassados ao restaurante via transferência bancária em até 30 dias. Os pagamentos feitos nas maquininhas POS do restaurante serão repassados nos prazos negociados pelos restaurantes com as empresas.

5 - É importante entender que a venda por delivery é diferente daquela que acontece no salão. É uma operação que demanda pensar na embalagem e forma como o produto será entregue depois do deslocamento e exige algumas particularidades operacionais. Talvez seja necessário, por exemplo, fritar um bolinho em fogo baixo por mais tempo para gerar uma camada mais grossa e crocante a fim de manter sua característica ou escolher a embalagem certa para que não vaze. Há restaurantes que utilizam embalagens sustentáveis e o público reconhece esse valor.

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