'Depois da oração, comecei a enxergar', diz maestro alvo de milagre de Irmã Dulce

salvador
01.07.2019, 15:26:00
Atualizado: 01.07.2019, 15:28:39
(O maestro José Maurício Moreira, 50, foi o segundo miraculado de Irmã Dulce (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO))

'Depois da oração, comecei a enxergar', diz maestro alvo de milagre de Irmã Dulce

José Maurício, que foi cego por 14 anos, foi reconhecido como segundo miraculado da religiosa e selou o processo de canonização da freira baiana

O maestro Jose Maurício Moreira, 50, nunca pediu para voltar a enxergar. Acreditava ser impossível. Ouvira, dos médicos, que não tinha mais chances de recuperar a visão – especialmente depois de 14 anos vivendo com a cegueira causada pelo glaucoma. 

No entanto, tudo mudou na madrugada do dia 10 de dezembro de 2014. Naquele dia, há quase cinco anos, José Maurício voltou a enxergar. E se os doutores não encontraram explicações, ele tinha: foi um milagre de Irmã Dulce.

“Eu voltei a enxergar depois de uma oração que fiz. Peguei a imagem de Irmã Dulce e botei nos olhos”, contou o maestro, durante a entrevista coletiva que marcou o anúncio da data de canonização da freira baiana, na manhã desta segunda-feira (1º), no Santuário que leva seu nome, no Largo de Roma.

A imagem a que se referia era uma relíquia da religiosa, que carregava consigo – uma miniatura que pertencera à sua mãe. 

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José Maurício estava no meio de uma crise de conjuntivite viral. Era tão grave que chegou a ter derrame em um dos olhos. Há quatro noites, não dormia. Não conseguia trabalhar, nem sair de casa. Naquela madrugada, o único pedido era que o Anjo Bom da Bahia fizesse sua dor parar.  

José Maurício (no centro) entrou na cerimônia segurando a imagem que foi de sua mãe (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

Por volta de quatro horas da manhã, fez a oração. “(Disse) ‘Alivia minha dor porque está difícil, muito difícil’. E eu tinha que sair para trabalhar e tal. Nesse mesmo momento, quando voltei e coloquei a imagem de volta no criado-mudo, eu já bocejei. Já me fez dormir e acredito que ela tenha operado no meu sono”, lembrou. 

Ao acordar, no dia seguinte, a esposa lhe entregou compressas de gelo para que esfregasse nos olhos. Em uma dessas esfregadas, começou a enxergar sua própria mão. O glaucoma só lhe deixava ver algo como uma nuvem forte. Mas, aos poucos, foi como se a nuvem se afastasse. 

Aos poucos, a visão foi voltando. Meu tipo de glaucoma deixava uma nuvem muito forte e, nesse momento, eu vi minha mão saindo dessa nuvem. E essa nuvem foi se afastando com o passar do tempo. O momento que começou o retorno da visão foi depois da oração. Ela respondeu a minha oração. Eu pedi a ela que intercedesse, ela intercedeu. 

“O que ela me deu foi muito mais que a cura da conjuntivite, o alívio da dor. Momentos depois da oração, meu olho começou a enxergar”, disse. No começo, teve medo. Achou que voltaria a ficar cego. 

Só que isso não aconteceu. Quase cinco anos depois, continua enxergando, sem o auxílio de óculos, como se nunca tivesse ficado cego. Mais do que isso: o caso de José Maurício foi justamente o que selou o processo de canonização de Irmã Dulce. Foi graças ao reconhecimento desse segundo milagre – e dele próprio como segundo ‘miraculado’ (pessoa alvo do milagre) – que o Vaticano reconheceu que a religiosa seria proclamada santa. 

“Esse caso foi levado a muitos especialistas da área que concordaram que não existe explicação para o que aconteceu, até porque a conjuntivite nada tinha a ver com o glaucoma. O glaucoma era uma doença maior que levou à cegueira”, explicou o médico Sandro Barral, que fez parte da comissão de especialistas que analisou o milagre como caso clínico. 

O caso de José Maurício é tão emblemático que foi decisivo para que o processo de Irmã Dulce fosse concluído tão rapidamente, de acordo com o arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, dom Murilo Krieger. A canonização do Anjo Bom foi a terceira mais rápida da história da Igreja Católica – fica atrás somente do Papa João Paulo II (nove anos) e de Madre Teresa de Calcutá (19 anos). 

“As virtudes haviam sido comprovadas e também o grau daquele que foi miraculado (foi determinante), porque há milagres que, para provar demora muito, mas esse foi possível porque era algo que a ciência não tinha explicação”, disse dom Murilo. 

Logo após o anúncio, o maestro José Maurício, que é natural de Salvador mas mora em Recife desde 2011, conversou com a imprensa. Confira a entrevista com ele. 

José Maurício contou detalhes sobre seu caso, ao lado de dom Murilo, Maria Rita Pontes e do médico Sandro Barral (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

Como aconteceu o milagre? 
Era impossível voltar a enxergar. Com tudo que se passou, eu descobri o glaucoma muito tarde e eu tinha perdido muito nervo óptico. Eu tive uma conjuntivite 14 anos depois e, no meio dessa crise foi que eu voltei enxergar depois de uma oração que fiz. Peguei a imagem de Irmã Dulce, botei nos olhos. 

Eu nunca pedi para voltar a enxergar, porque sempre achei que era impossível, através de depoimentos médicos. O que ela me deu foi muito mais que a cura da conjuntivite, o alívio da dor. Momentos depois da oração, meu olho começou a enxergar. Foi muito mais do que eu pedi. Eu pedi que curasse a minha dor. 

Eu precisava de uma noite de sono porque doía muito. Foi uma conjuntivite viral da pior que tem. O que eu soube é que, entre as conjuntivites, era a pior que tem. 

Como era sua vida antes desse milagre atribuído a Irmã Dulce? 
Eu trabalhava com informática. Trabalhei a vida toda com informática em Salvador. Sou natural de Salvador, trabalhei com informática e, depois que perdi a visão, fui para o lado da música. Hoje, sou maestro. Estudei música em braile e também sou músico. Moro em Recife e lá também sou músico e maestro de corais. Foi isso. 

Eu cresci ouvindo falar de Irmã Dulce porque a minha família ajudava Irmã Dulce. Meu avô ajudava, meu pai ajudava. Meu avô tinha um armarinho chamado Armarinhos Bragança e ela sempre ia no armarinho. Ele sempre doava coisas para ela. Meu pai também sempre doava materiais de construção para ela. Então, a fé em Irmã Dulce é desde criança e foi a quem eu recorri para aliviar a minha dor. Ela me deu muito mais do que eu pedi.

Irmã Dulce era assim. Se uma pessoa pedisse ajuda para subir três degraus, ela ajudava logo para subir cinco. 

Pode lembrar do momento que fez o pedido? 
Eu estava deitado na minha cama. Meu coral ia cantar nesse dia e minha esposa não deixou nem que eu saísse de casa, porque eu tinha tido derrame no olho por conta da conjuntivite. Eu não estava conseguindo dormir e quando foi umas quatro horas da manhã, eu peguei essa imagem que fica na minha cabeceira e que herdei de minha mãe, e botei nos olhos. E pedi. 

Pedi a ela que aliviasse minha dor. Com toda minha fé. ‘Alivia minha dor porque está difícil, muito difícil’. E eu tinha que sair para trabalhar e tal. Nesse mesmo momento, quando voltei e coloquei a imagem de volta no criado-mudo, eu já bocejei. Já me fez dormir e acredito que ela tenha operado no meu sono, porque, quando eu acordei de manhã, minha esposa me deu umas compressas de gelo. Numa dessas vezes que comecei a enxugar o gelo, comecei a ver minha mão. 

E aí, aos poucos, a visão foi voltando. Meu tipo de glaucoma deixava uma nuvem muito forte e, nesse momento, eu vi minha mão saindo dessa nuvem. E essa nuvem foi se afastando com o passar do tempo. O momento que começou o retorno da visão foi depois da oração. Ela respondeu a minha oração. Eu pedi a ela que intercedesse, ela intercedeu. 

Isso foi dia 10 de dezembro de 2014, sendo que eu perdi a visão no ano 2000. Foram 14 anos sem enxergar pelo glaucoma. Eu enxergava somente uma nuvem muito forte que tomou todo meu olho e não enxergava nada.

Qual é a sensação de entrar no santuário depois disso? 
É uma gratidão infinita porque jamais imaginei que isso fosse acontecer na minha vida. É gratidão por ela, por Deus. Quero agradecer também a todos os depoentes, todas as pessoas que ajudaram nesse processo e deram depoimento, que mantiveram sigilo que o Vaticano exigiu um sigilo absoluto. Eu respeitei esse sigilo. 

Entrei em contato com Maria Rita (Pontes, superintendente das Obras Sociais Irmã Dulce), relatei o que aconteceu e ela abriu portas para o processo. Desde então, foi mantido o sigilo total, muito forte. Mas, graças a Deus, o Vaticano reconheceu, pegou todos os meus exames. Está tudo documentado e o milagre aconteceu. 

Qual foi a reação dos médicos quando souberam?
Milagres não se explicam. Os médicos dão depoimento dizendo que a parte clínica não explica. Eu também não sei explicar. Como leigo, eu não entendi o que aconteceu. Já tinha muito tempo que eu não ia em médico, não sabia mais o que estava acontecendo aqui dentro. O que eu sabia era que eu quase não tinha mais nervo óptico. Eu não sei te dizer, clinicamente, o que aconteceu. 

Em que momento percebeu que a cura estava relacionada à intercessão de Irmã Dulce?
Porque foram momentos depois da oração. Eu pedi a cura de uma doença no olho e ela me deu muito mais do que isso. Ela aproveitou que ia aliviar minha dor e me deu logo a visão. Isso só aconteceu porque fiz a oração. Eu tinha tido um derrame no olho. Eu estava com os olhos fechados e o olho inchou, fechou totalmente. Depois da oração dela, comecei a voltar a enxergar.

Continuei o tratamento da conjuntivite, mas nervoso, confuso. Pensei que ia ser só um flash. Eu tinha pressa de ver logo tudo de perto porque pensei: ‘será que vou perder de novo?’. Mas eu confiei tanto nela que o milagre foi para valer. 

Ainda sou paciente de glaucoma, que foi o que causou a cegueira. Através do milagre, voltei a enxergar sem nunca ter pedido para voltar a enxergar porque já tinha ouvido de médicos que a visão perdida por nervo óptico não se recupera. 

Já morava em Recife quando perdeu a visão? 
Eu perdi a visão aqui. Minha esposa é de Recife. Me casei em 2011 e fui para lá. Tenho dois enteados, que é como se fossem meus filhos. 

Eu fiquei cego em 2000. No Réveillon, a virada de 1999 para 2000, eu perdi a visão. Em outubro (de 1999), eu comecei a perder o olho esquerdo. Em 2000, eu fui fazer uma cirurgia em São Paulo e voltei já sem enxergar. 

Há quanto tempo tem glaucoma? 
Eu descobri o glaucoma com 23 anos. Tratei durante 10, mas não foi suficiente por ter descoberto tarde. Os colírios não seguraram o nervo óptico. Em janeiro de 2000, já não tinha mais nada (de visão). 

Pretende ir ao Vaticano? 
Sim, claro. Se eu tiver de ir, eu vou, com certeza. Vou agradecer a ela lá. 

A relíquia foi da sua mãe?
Foi dela. Minha mãe é falecida já. Quando eu vim para Salvador para o sepultamento de minha mãe, em 2012, essa imagem estava com minha irmã, lá no apartamento. Eu pedi a minha irmã que me desse, porque representa muito minha mãe, para mim. Desde criança, tanto minha mãe quanto meu pai eram fãs de Irmã Dulce, eram devotos. 

Você chegou a conhecer Irmã Dulce pessoalmente? 
Encontrei Irmã Dulce três vezes em minha vida. Quando meu avô ajudava Irmã Dulce, eu não era nem nascido. Mas, com meu pai, alcancei. Ele trabalhava numa loja de material de construção e eu a vi entrando lá e ele doando coisas, junto com o dono da loja. Ela entrava e fazia: ‘o quê que tem para mim aí hoje?’. Aí ele fazia: ‘tem duas torneiras, tem um vaso, tal, tal, tal’. Me lembro bem dela descendo da Kombi e entrando lá.

E eu fui menor estagiário do Banco do Brasil e aí que tive um contato maior com ela também, com ela autografando um livro escrito por Maria Rita. Eu era (office) ‘boy’ do Banco do Brasil. Depois que ela autografou meu livro, lá na agência da Avenida Sete, eu segurei na mão dela e, bem ousadamente, dei um beijo na mão dela. Ela pegou, puxou minha mão e beijou também. 

Eu falei: ‘Irmã, vou ficar três dias sem lavar essa mão’. Ela deu risada. Eu tinha uns 15, 16 anos. Era um menino. 

E, uma vez, quando eu era criança, vim aqui (nas Osid) com uma excursão da escola e ela mostrou toda a obra. Sentou, fez um lanche com a gente. Esses foram os três contatos direto com ela, mas sempre oramos para Irmã Dulce, minha família sempre ajudou. É muita emoção e gratidão.


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