Depois da prisão de Babalu, grupos rivais estão de olho no território

salvador
04.04.2013, 07:37:00
Atualizado: 04.04.2013, 07:57:21

Depois da prisão de Babalu, grupos rivais estão de olho no território

Levantamento da polícia indica que há cinco áreas identificadas de atuação dos bandidos. A maioria dos traficantes já foi presa, mas eles acabaram sendo liberados pela Justiça

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Jorge Gauthier
jorge.souza@redebahia.com.br

“Aqui o silêncio faz a vida render”. A frase do aposentado de 69 anos, que prefere não ter o nome divulgado, sintetiza o medo de quem vive no bairro de Pernambués, onde o comando do  tráfico de drogas é disputado por pelo menos seis facções criminosas.

O líder de uma dessas quadrilhas - Luciano Silva Santos, o Babalu - foi apresentado pela polícia, anteontem, mas há pelo menos mais cinco traficantes comandando o tráfico em diferentes regiões do bairro, que tem pelo menos 100 mil habitantes. Além da divisão já estabelecida, o clima na região tende a ficar ainda mais tenso com a prisão de Babalu, que atuava principalmente na área da rua 1º de Maio, na Baixa do Manu.

“A área está muito mexida e podem ocorrer mais conflitos pelo território (que Babalu ocupava). Os conflitos já existem e podem ser ampliados, mas a polícia está monitorando isso”, afirma o titular da Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes (DTE), Guilherme Machado.

Levantamento da 1ª Companhia da Polícia Militar (CIPM/Pernambués) indica que há cinco áreas identificadas de atuação dos bandidos. De acordo com o major Jailson Damasceno, a maioria dos traficantes já foi presa, mas eles acabaram sendo liberados pela Justiça. “Fizemos esse levantamento e mapeamos as áreas de atuação. A ação de todos eles é violenta, são ações cruéis para manter seus territórios”.

Além dos cinco traficantes listados pela PM, Machado indica que há na área também o traficante Beto Fuzileiro, embora ele não tenha querido identificar a área de atuação dele “enquanto as investigações tiverem sendo realizadas”. Machado também preferiu não informar dados sobre os bandidos  que estão sendo procurados, para não atrapalhar as investigações. 

Medo
A segmentação do poder do tráfico gera uma série de conflitos no bairro que se traduz em homicídios, principalmente nas zonas limítrofes dos domínios de cada traficante. Machado diz que, apesar de terem áreas definidas de atuação, os traficantes estão em constante confronto na meta de ampliar os domínios. “Todo mundo quer mais e a ambição deles não tem freio”.

Quem vive na fronteira das localidades tem o medo como companheiro. “Várias pessoas chegam aqui relatando que os traficantes não deixam sair de casa, mandam guardar droga e esconder armas”, diz uma comerciante que mora no bairro há 15 anos. Uma empregada doméstica, que tem três filhos pequenos, conta que não é incomum  faltar ao trabalho e os filhos à escola por conta do tráfico. “Quando eles mandam a gente ficar em casa, não tem quem saia”, conta a moradora da Baixa do Manu.

O bairro, dominado por construções irregulares e ladeiras, dificulta a ação da polícia. Em imagens aéreas usadas nas investigações da 1ª CIPM fica claro a dificuldade de acesso à região. “A geografia é complicada e cria uma situação difícil para a ação porque quando estamos chegando os olheiros já veem da pista”, diz  o major.

O comandante da 1ª CIPM/Pernambués argumenta que, no passado, a chegada da polícia em zonas de favela era anunciada com fogos. “Hoje, o aviso é por rádios portáteis, usados por crianças e adolescentes, geralmente pagos com droga ou até mesmo coisas para os pais como botijão de gás e contas de luz”, afirma o major.

A droga que abastece os traficantes do bairro vem de outros países, segundo explica o delegado. “A cocaína vem de outros estados e de países como a Colômbia, dela é feito o crack. A maconha vem do Paraguai e também do Polígono da Maconha (entre a Bahia e Pernambuco)”, explica o delegado Guilherme Machado.



Saramandaia: traficante Coe retomou poder na área

Um dos traficantes em atuação no momento em Pernambués é Cosme da Paixão Lisboa, o Coe, que domina a área da Saramandaia. Preso em janeiro de 2010, Coe está foragido desde dezembro do ano passado, quando foi beneficiado pela saída temporária de Natal, mas não retornou ao Complexo Penitenciário do Estado da Bahia, segundo informou o major Jailson Nascimento, comandante da 1ª CIPM/Pernambués.

Nenhum representante da  Secretaria de Adminstração Penitenciária e Ressocialização (Seap), responsável pela guarda de presos no complexo prisional, foi localizado para comentar o caso de Coe.

Acusado de tráfico de drogas, Coe foi preso quando estava com uma sacola cheia de maconha no bairro de Saramandaia. Na ocasião,  tentou fugir e chegou a invadir a residência de uma família, que fez refém. Para libertar as vítimas e se entregar à polícia, Coe exigiu a presença da imprensa. As negociações duraram três horas. Logo após ser preso, chegou a circular no bairro um abaixo-assinado para mostrar a vontade da população de que Coe deixasse a prisão.

Moradores da comunidade indicam que Coe tinha uma atividade assistencialista, fornecendo doações para a comunidade. Este ano, em três meses, foram registrados dez homicídios no bairro de Pernambués, de acordo com  dados disponíveis em boletins diários no site da Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP). 

Em função da quantidade de traficantes que há em atuação no bairro, a polícia pede que quem tiver informações sobre alguns dos bandidos informe  para a polícia através do Disque-Denúncia (telefone: 3235-0000).

“Pedimos que a população informe sobre o paradeiro dessas pessoas. É uma forma que temos de efetuar as prisões”, afirma o delegado Guilherme Machado, que antes de ser titular da Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes era titular da 11ª Delegacia (Tancredo Neves), que era responsável pelo bairro de Pernambués.

Polícia procura integrantes da quadrilha  de Babalu

Depois da prisão do traficante Luciano Silva Santos, o Babalu, na terça-feira,  por policiais do Departamento de Narcóticos (Denarc) e da Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes (DTE) foi dado seguimento a uma operação no bairro de Pernambués para encontrar as armas usadas pelo traficante, assim como prender membros da sua quadrilha.

Mas, até ontem, segundo André Viana, titular do Denarc, e Guilherme Machado, da DTE, a operação ainda não tinha sido concluída nem o arsenal localizado.
Apontado pela polícia como autor de mais de dez homicídios, Babalu  determinou, em novembro passado, um toque de recolher em represália pela morte de um integrante de sua quadrilha por um grupo rival, segundo confirmou a Polícia Civil durante apresentação do traficante. Na época, uma operação com 125 policias não conseguiu prender o traficante.

O comandante da  1ª Companhia da Polícia Militar (CIPM/Pernambués), Jailson Damasceno, afirma que a prisão de Babalu - realizada pela Polícia Civil - foi difícil em função da mobilidade que o traficante tinha no seu território de domínio. “Na sexta passada, nós fizemos uma perseguição contra ele, mas ele fugiu, mesmo tendo sido baleado por uma das nossa guarnições. Ele conseguiu fugir provavelmente com o auxílio dos moradores que foram intimidados por ele”, explica o major.

No momento da prisão, anteontem, Babalu tentou escapar do cerco policial, fugindo por telhados de várias casas vizinhas. Foi capturado dentro de uma casa,  onde fez reféns uma mulher e uma criança. Ele foi preso depois de denúncias anônimas feitas à polícia.

Segundo apuração do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), a maioria das mortes atribuídas a Babalu tem ligações com as atividades do tráfico.

Policiais ligados à investigação do caso Babalu indicam que outro traficante já deve ter assumido seu posto na área da Rua 1º de Maio, mas ainda não podem revelar seu nome.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas