Depois de 30 anos sem registros, nasce mais uma ararinha-azul na Bahia

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20.04.2021, 06:00:00
(Foto: ACTP/Divulgação)

Depois de 30 anos sem registros, nasce mais uma ararinha-azul na Bahia

Especialista afirma que nascimento é ótima notícia para manutenção da espécie natural da Caatinga

Imagens como as do filme Rio, em que milhares de ararinhas-azuis - da espécie Cyanopsitta Spixii - voam pela floresta, procriam e têm o meio ambiente como habitat natural são impensáveis em um mundo real. O animal está extinto da natureza há 21 anos e só existem cerca de 180 indivíduos da espécie vivendo em cativeiro em todo o planeta. Quer dizer, 181. 

É que, em Curaçá, no norte da Bahia, nasceu mais uma ararinha-azul, a primeira em solo baiano desde o último registro de nascimento, há 30 anos. A espécie natural da Caatinga sumiu do mapa por conta do desmatamento do bioma e de ser alvo do tráfico de animais silvestres. Um nascimento que, segundo especialistas, é uma ótima notícia para os projetos de reinserção das ararinhas que restaram de volta para a natureza.

Até por isso, o animal, que nasceu no dia 13 abril e foi abandonado pelos pais, está sob os cuidados de uma equipe técnica que é responsável pelo monitoramento de um grupo de 52 ararinhas-azuis que vivem em um viveiro de mais de 2 mil m² no meio da Caatinga, em Curaçá. Elas estão lá desde março do ano passado, após chegarem da Alemanha para serem inseridas novamente no seu habitat através de um cativeiro pré-soltura. E a nova ararinha, diferentemente de um outro filhote nascido dois dias antes e que acabou não resistindo, está bem. 

Nascimento importante

O ato de colocar as aves no ambiente que resultou em um nascimento de ararinha-azul depois de 30 anos faz parte do projeto que tenta manter a existência da espécie e tem o apoio de uma instituição alemã, ONGs brasileiras e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Procurado pelo CORREIO para dar mais detalhes sobre a mais nova arara baiana, o ICMBio apenas confirmou que a ararinha está viva e sendo “artificialmente cuidada”, sem dar maiores detalhes.

De qualquer forma, o nascimento, mesmo em cativeiro, já é uma boa nova por si só. Pelo menos, é o que afirma Henrique Batalha, professor do Instituto Biologia da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e especialista em evolução de aves, que cita a alta dificuldade de reprodução da espécie. “Há uma dificuldade enorme de reprodução porque todos os indivíduos que sobraram são muito aparentados. Tinha até um estudo genético para superar isso e determinar os melhores casais com base na maior diferença genética que eles tinham pra diminuir, ao máximo, a semelhança genética porque ela que causa problemas, como o não desenvolvimento do filhote ou a ocorrência de algumas doenças que evitam a continuidade da espécie”, explica.


O professor informa também que a semelhança não só atrapalha a reprodução, a formação de casais entre animais e o desenvolvimento dos seus filhotes, como pode ter influência na relação parental das ararinhas, fazendo com que ela, por exemplo, abandone os seus filhotes, outro fator que dificulta a sobrevivência da ave.

“Existe um projeto longo de monitoramento desses animais remanescentes em cativeiro para tentar reintroduzir as araras na natureza e que tenta resolver esses problemas. Tudo isso porque essa semelhança prejudica o organismo do animal e também pode ter influência no abandono dos pais porque, em muitos casos, os indivíduos serem aparentados é um fator”, conta.

Manutenção da espécie

Batalha diz ainda que, se replicado mais vezes com sucesso, a reprodução em soltura experimental pode ser o caminho para que a reinserção desse animal em seu habitat possa ser realizada depois de tantos anos de tentativas. “A notícia é ótima por mostrar que a soltura dos animais, que ainda é experimental, teve algum grau de sucesso porque eles conseguiram reproduzir. Então, já é uma esperança para a manutenção dessa espécie caso mais indivíduos sejam soltos na natureza. Digamos que é um passo a mais pra tentar reintroduzir, com sucesso, a ararinha-azul na natureza”, afirma.

A reintegração dos animais citada pelo professor é também um objetivo da equipe técnica que conduz o monitoramento das aves. Isso porque, se a reprodução e a inserção das ararinhas nesses espaços for bem sucedida, os filhotes delas sairão da área de monitoramento e poderão viver no seu habitat.

*sob supervisão da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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