Desabafo de uma mulher negra que precisa ser forte

midiã noelle
25.07.2019, 11:15:00
Atualizado: 25.07.2019, 13:42:20

Desabafo de uma mulher negra que precisa ser forte

Hoje, 25 de julho, é Dia Internacional da Mulher Afro-Latino Americana e Caribenha

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Olx carx leitxr. Tudo bem? Certa vez, uma amiga, a atriz Telma Souza, me disse: temos de estar sempre preparadas. E automaticamente concordei e pensei: nasci preta e mulher em uma sociedade racista e machista. Não há outro jeito. Tenho que estar preparada. Essa afirmação vai e volta na minha cabeça, em diversos momentos, com o mesmo peso de uma enxaqueca.

Ficar com isso no juízo, vou dizer à vocês, é um aperto de mente cotidiano. Carregar o escudo e a lança todo dia não é uma tarefa das mais fáceis, mas é necessário para nossa sobrevivência e proteção. As usei nesta semana. Estava em um evento quando uma mulher branca e desconhecida ordenou que eu segurasse o seu copo de refrigerante enquanto ela procurava um remédio na bolsa. E pasmem: ela estava encostada em uma mesa! Teria eu cara de mesa?

A criatura, uma senhora de uns 60 anos, realmente achou que eu fosse a sua mucama de dentro. Respondi didaticamente de que não seguraria e deu ruim, óbvio. Porque, infelizmente, pessoas não negras não sabem lidar e se descontrolam (real) quando as questionamos onde elas guardam o racismo.

Eu costumo dizer aos meus amigos que tomar consciência racial é como tomar a pílula de Matrix. Depois que começamos a enxergar a realidade não dá para voltar atrás. E olha, o meu processo foi demorado. Lembro que começou mesmo aos meus 13 anos, ao ver minha professora de História da 7ª série. Não lembro o nome dela, mas me marcou: cabelo natural, bem crespo, curto e roupas de tecidos africanos. Não entendia porque, só sentia o quanto a achava o máximo. Passou o tempo e fui encontrando pessoas para me orientar no caminho. Até que um dia a menina do bairro da Liberdade que trabalhava em call center para pagar a faculdade (eu mesma), entrou nas Nações Unidas, onde trabalhou por seis anos. E tudo que Neusa Santos nos traz em Tornar-se Negro - As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascensão Social passou a ter ainda mais sentido. Ao sentir a realidade pesar demais, confesso que até tentei regurgitar a pílula, mas felizmente não consegui e quando percebi já estava tretando com a Trinity e organizando manifestação com Morpheus.

Mulheres Negras fizeram uma mobilização histórica em Brasília, no ano de 2015 (foto/Agência Brasil)

E, apesar de estar bem cansada dos enfrentamentos e de saber que não é fácil, me reenergizo ao lembrar das mulheres que têm estado nas trincheiras de luta para a garantia do direito ao bem viver. E por isto, neste 25 de Julho, Dia Internacional da Mulher Afro-Latino Americana e Caribenha, saúdo todas as Marias, Zeferinas, Aqualtunes, Mahins, Dandaras, Benguelas, as vivas e as do outro plano. Em tempos sombrios, as mulheres negras nos reforçam diariamente como é estratégico dialogarmos sobre opressão de gênero e suas variadas formas. 

Desde 2013 a Bahia vem se fortalecendo ainda mais com a agenda feminista negra, através de ações do Julho das Pretas, instituído pelo Odara - Instituto da Mulher Negra com apoio de outras organizações baianas. Por mais que outros coletivos tenham, historicamente, feito ações com foco nas mulheres negras neste mês em decorrência da data marco, termos essa mobilização como pauta fixa anual, potencializa nossa articulação e dá um gás para seguirmos.

Ainda no tocante que meu corpo se esgota, surge também na minha memória os rostos de Alyne Pimentel, vítima de mortalidade materna por falta de atendimento público de saúde, Claudia Pereira da Silva, arrastada por uma viatura de policiais, Joselita de Souza, que morreu de depressão após o assassinato de seu filho na Chacina de Costa Barros, das mães dos jovens da Chacina do Cabula, e da deputada Marielle Franco, morta por acreditar que é possível transformar este país em um espaço mais igualitário para todxs. Todas vítimas do nosso utópico estado democrático de direito, que tenta nos fazer desistir. Mas não irá. Por estas e outras pessoas que precisamos estar presentes em ações como a 3ª Marcha de Mulheres Negras da Bahia, marcada para a tarde desta quinta-feira (25), no Centro de Salvador, e que levará milhares de pessoas às ruas. Estamos voltando no tempo com tantos retrocessos de direitos e chega da carne mais barata do mercado ser a negra.

Encerro esse texto pedindo a vocês para guardarem isso: combinaram de nos matar, mas nós combinamos de ficarmos vivxs, orgulhosxs e de cabeça erguida! Não temos tempo a perder. Eu estou em marcha. E você? Ubuntu.

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