Desânimo pós-férias pode ser sinal de insatisfação com o trabalho

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17.01.2022, 06:00:00
Ausência de objetivos e metas contribui para a desmotivação de profissional em organizações que não atentam para a saúde mental (Shutterstock/reprodução)

Desânimo pós-férias pode ser sinal de insatisfação com o trabalho

Excesso de pressão, metas inalcançáveis, falta de escuta e ambiente pouco colaborativo favorecem burnout e traumatizam

Você é uma daquelas pessoas que se sentem punidas e muito desanimadas nas segundas-feiras ou no final das férias? O sentimento de tristeza e desalento sentidos nessas duas oportunidades é mais comum do que se imagina, não está relacionado simplesmente à relação atávica entre trabalho e castigo e alerta para que algo não vai bem com a saúde mental nos ambientes corporativos. 

De acordo com a psicóloga Carmen Rezende, geralmente, nos finais de semana e nas férias é possível tirar o foco das coisas que não andam bem na rotina pessoal, desconectando as inquietudes. “Quando iniciamos a segunda-feira é como se ‘tomássemos coragem’ para encarar novamente nossa realidade”, diz.

Especialista em comunicação, idealizador e co-fundador do O Corpo Explica, Elton Euler acredita que o  motivo pelos quais muitas pessoas sofrem ao voltarem para o que deveria ser o momento de construção de suas vidas é o fato de não estarem construindo nada. 

Elton Euler destaca o fato de que o trabalho pode não significar realização pessoal e ferramenta de construção de algo maior para o colaborador (Foto: Divulgação)

“ A maioria das pessoas trabalha apenas para pagar seus boletos por isso o trabalho não traz a sensação de que algo está sendo construído, por isso ele perde o sentido e dá a sensação de um lugar ou momento ruim do qual as pessoas tentam fugir ou escapar nas férias ou nos finais de semana e voltar para esse lugar ruim passa a parecer castigo ou punição”, afirma Euler.

Auto realização

A psicóloga destaca que durante muito tempo, o trabalho foi visto na sociedade como uma punição e a visão só se modificou durante o período renascentista, quando se associou a atividade exercida à identidade pessoal e a uma fonte de auto realização. “Ao longo dos tempos, identifica-se duas formas contraditórias de vivenciar o trabalho que convivem nos mesmos espaços, e por vezes, um mesmo indivíduo revela sentimentos dúbios em relação a sua vida profissional. A visão de trabalho como algo punitivo está em enraizado à memória afetiva, que vem se repassando de geração em geração”, esclarece.

Para Euler, qualquer colaborador que busca um trabalho para tentar realizar um sonho verá a atividade como uma ponte que o aproxima do sonho e, a cada dia, aprenderá algo novo, ganhando um pouco a mais de dinheiro e experiência e compartilhando o que sabe com outras pessoas. “Uma boa estratégia é perguntar para um candidato a uma vaga quais são seus principais problemas e seus maiores sonhos e contratar o que tiver mais sonhos do que problemas, assim a empresa será uma ponte e não um castigo”, defende.

O representante do Corpo Explica defende que em muitos negócios, apenas quem está no topo sonha e, por isso, fica tão difícil motivar as pessoas nas suas funções.

Ambiente saudável

A headhunter e administradora Erica Castelo ressalta que a questão é um desafio imenso para os RH's e para as lideranças em geral, que precisam genuinamente priorizar a questão da a saúde mental e bem-estar dos colaboradores para que consigam, no fim do dia, atrair e reter talentos. 

Erica Castelo ressalta que a saúde mental e o bem estar dos colaboradores são fatores de atração e retenção de talentos nas organizações (Foto: Divulgação)

“Uma cultura voltada às pessoas é certamente o primeiro passo, o que significa, em resumo, colocar o colaborador no centro da estratégia corporativa”, diz, destacando a necessidade de construir sistemas de escuta genuínos sobre as motivações das pessoas, usar a empatia para entender diferentes realidades, e adequar-se às diferentes demandas e necessidades desses colaboradores. 

Para a psicóloga, as organizações ainda não se atentaram para a importância de estabelecer  ambientes de trabalho saudáveis, nos quais a saúde, bem-estar e satisfação dos colaboradores sejam levados em consideração. “Falta criar uma cultura real de promoção de uma série de ações com diferentes graus de complexidade para aumentar os níveis de satisfação dos colaboradores, que podem variar de acordo com o segmento e tamanho do negócio, a exemplo de uma fidedigna flexibilização do trabalho aliado com níveis de recompensas por produtividade”, ilustra. 

Carmen Rezende reforça que ambientes com altas demandas, metas inalcançáveis, pressão psicológica, tarefas monótonas jamais serão saudáveis e que criação de programas de gestão da qualidade de vida no trabalho com comprometimento de todos, alcançando a alta direção até o primeiro nível de colaboradores é a forma assertiva de lidar com esse contexto.

Carmen Rezende destaca a necessidade de uma política empresarial que contemple a saúde mental dos colaboradores (Foto: Arquivo pessoal)

Aspectos relacionados aos incentivo e reconhecimento contínuos, condições ergonômicas, relacionamento entre áreas; estratégias da empresa aliada com o corpo de colaboradores e um olhar para equipe de líderes participativos e que saiba delegar tarefas são ações que já colocam a questão num outro patamar”, finaliza a psicóloga.

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