Devotos contam como vão reverenciar Iemanjá nesse ano de restrições

salvador
27.01.2021, 15:14:00
Atualizado: 27.01.2021, 15:15:32
Festa é considerada Patrimônio Cultural de Salvador (Foto: Arisson Marinho/ CORREIO)

Devotos contam como vão reverenciar Iemanjá nesse ano de restrições

Flores em outra praia, comida nos terreiros, presente surpresa... as ações são diversas

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A interdição das praias do Rio Vermelho no dia 2 de fevereiro vai obrigar os fieis a encontrarem alternativas para prestar as homenagens para Iemanjá, e alguns deles anteciparam para o CORREIO como pretendem reverenciar a Rainha do Mar. O anúncio das restrições que serão adotadas esse ano na festa foi feito pela prefeitura, nesta quarta-feira (27).

O dia 2 de fevereiro vai amanhecer com as praias do Rio Vermelho interditadas, uma ação que está prevista para começar já no dia 1º. Na prática, esse ano os devotos de Iemanjá não poderão descer para a areia, nem fazer fila para depositar os presentes, nem aglomerar nas ruas do bairro. A professora Cristina Lima, 46 anos, disse que gostou.

“Mas entenda, eu gostei da ideia de evitar o tumulto, mas, assim como todo mundo, estou triste de não poder saudar minha Mãe como faço todos os anos, nas águas do mar do Rio Vermelho”, disse, mas Cristina contou que já tem um plano em mente. “Vou cedinho na praia de Ondina, entrego minhas flores e volto para casa”, revelou.

Assim como Cristina, muitos devotos estão pensando em como reverenciar a Rainha do Mar, respeitando o distanciamento e garantindo que a data não passe em branco. A presidente da Rede Religiosa de Matriz Africana do Subúrbio (RRemas), ialorixá Jacira de Iansã, contou que fará as homenagens dentro do próprio terreiro, e fez um apelo para aqueles que também são devotos da orixá evitar os tumultos.

“Dia 2 eu estarei reverenciando Iemanjá dentro do meu terreiro, arriando a comida e as flores dela dentro do terreiro, e batendo meu paó para ela dentro do meu terreiro. Nós sabemos que Salvador tem praia além do Rio Vermelho, e quem for levar presentes pode fazer isso me outras praias ou em outras datas”, disse, aconselhando os fiéis a evitarem aglomerações.

Tradicionalmente, Mãe Jacira saí de Paripe, no Subúrbio Ferroviário, para prestar as homenagens no Rio Vermelho. Ela destacou a relevância de Iemanjá. “Ela tem uma importância muito grande por ser a dona e a mentora de todos os oris, ou seja, ela é a dona de todas as cabeças, a dona do pensamento”, afirmou.

Mas há também quem não revele os segredos. O pescador Jorge Amorim tem 76 anos e contou que participa das festividades para a Rainha do Mar desde que era menino. Ele contou que ficou triste com as mudanças provocadas pela pandemia, mas disse que já sabe como vai fazer as homenagens. Questionado, foi rápido na resposta.

“Eu já sei o que vou fazer, mas á algo que está no meu coração. Só quem vai saber sou eu e ela. O que eu posso te dizer é que em branco não vai passar. Ela é minha mãe, minha rainha, ela é tudo pra mim”, disse.

Já o presidente da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia (AFA), Leonel Monteiro, destacou a importância histórica do 2 de Fevereiro. No ano passado, o Município transformou a Festa de Iemanjá em Patrimônio Cultural de Salvador.  

“Temos um legado cultural e religioso que nossos ancestrais africanos nos deixaram. Essa tradição vem de uma cultura muito forte e que encontra nos terreiros de candomblé um território onde ela pode ser perpetuada, e onde esses saberes e fazeres ancestrais podem ser passados por gerações. No ato de levar e arriar os presentes são entoados cânticos e rezas que vão sendo perpetuados”, afirmou.

Confira o que mudou:

  • O presente desse ano será mais modesto, sem grandes estruturas como acontece todos os anos;
  • Não haverá exposição, o presente será depositado no mar assim que chegar ao Rio Vermelho;
  • Esse ano, a entrega do presente será às 8h, e não às 15h como acontece tradicionalmente;
  • Todos os depósitos de bebidas do Rio Vermelho não poderão funcionar no dia 2 de fevereiro;
  • Bares e restaurantes terão que passar o dia fechados, e só poderão abrir a partir das 19h;
  • Food truck e comércio informal estará proibido;
  • A suspensão de venda de bebidas alcoólicas vale também para as lojas de conveniências dos postos de combustível;
  • O acesso as praias do Rio Vermelho e da Paciência estará fechado até a região do Restaurante Sukiyaki, nos dias 1º e 2;
  • Padarias, lanchonete, mercados e afins estão autorizados a funcionar;
  • Esse ano, o trânsito de veículos estará liberado, sem barreiras da Transalvador;

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