Dia de Finados: a arte de não estragar a festa da vida

salvador
02.11.2018, 14:49:00

Dia de Finados: a arte de não estragar a festa da vida

Parentes e amigos vão a cemitérios e tentam encarar com serenidade a morte

Os 65 anos de Edinaldo estão guardados num jazigo da quadra nove, no Cemitério Campo Santo, na Federação. A esposa por quase cinco décadas, Maria José, levava na mão um papel de identificação com seis números. São eles que a guiaram até o jazigo. São eles a prova de que a morte é, também, a celebração da vida. “Não somos nada. Quando vemos um túmulo, temos essa certeza. Uma certeza serena”, acredita a aposentada.

Dona Maria homenageia o marido e a vida: "Não somos nada"
Dona Maria homenageia o marido e a vida: "Não somos nada" ((Foto: Fernanda Lima))
José Batista faz a síntese do Dia de Finados: “Visitar um cemitério é encarar a morte”.
José Batista faz a síntese do Dia de Finados: “Visitar um cemitério é encarar a morte”. ((Foto: Fernanda Lima))
Ângela visita o jazigo do irmão, César
Ângela visita o jazigo do irmão, César

Dona Maria foi uma das centenas de pessoas que, neste Dia de Finados, celebrado nesta sexta-feira (2), foram relembrar entes queridos. Trazia consigo uma certeza defendida por dom Murilo Krieger, arcebispo de Salvador e primaz do Brasil. “O Dia de Finados vem de uma necessidade de gestos concretos. É necessário saber da grandeza da vida, para pensar na morte”. O arcebispo acabava de sair de uma celebração na Capela do cemitério, quando também comentou os recentes casos de violência política.

“Não estraguem a festa da vida. Ela é muito bela, muito importante, e é um dom de Deus”.

 

A lição tem sido aprendida por Dona Maria desde julho, quando o companheiro de vida faleceu após ter um ataque cardíaco. “A saudade é grande, mas sempre me faz pensar na minha própria vida”, diz ela. Muito próxima ao jazigo, estava Ângela Victal, 65. Sentada numa escada, relembrou do dia da morte do irmão César, a quem foi homenagear. Justamente no dia da partida, naquele 7 de novembro de 2017, ele faria 74 anos.

Na primeira visita ao cemitério no Dia de Finados, a professora dividiu: “É uma saudade boa. Nos últimos anos, ele já estava mais solitário, mas sempre foi uma pessoa alegre. Agora, é um momento de lembrar de viver”. A morte se tornou um aprendizado para a vida. É como pensa também o aposentado José Batista, 84. Antes de entrar no corredor dos jazigos da quadra 9, contou à reportagem:

“Visitar um cemitério é encarar a morte”

Ele, particularmente, foi ao Campo Santo nesta sexta sem que houvesse qualquer parente ali enterrado. “Gosto de vir às missas e de ver também como nenhuma arrogância vale de nada”. É uma serenidade conquistada com os anos de vida, de experiência. “Mas todo mundo não morre? Não é da vida, o morrer?”, respondeu rapidamente a dona de casa Irenildes Viana, 53. Lá, homenageou a mãe e o sobrinho. “Uma celebração de homenagem ao espírito”. 

O ajudante Ronaldo Santana está no Campo Santo há 13 anos. Perto das dores do outro, aprendeu que o Dia de Finados é, sim, o dia do simbolismo da vida. Da finitude da vida, principalmente. Ele ri ao ser perguntado como encara a morte, apressado em meio a pedidos dos visitantes do dia. “A vida está aí, comemoremos”,

Pétalas de lembrança, música para a vida 
O Quarteto das Vozes cantava "Stand By Me" e o aposentado Jair Braga, 66, estalava os dedos ao ritmo da música. "Bonito demais!", exclamava o ex-técnico químico do Polo Industrial de Camaçari. Todos os dias, faz do Cemitério Jardim da Saudade, onde se apresentou o coral, o local de seus exercícios.

É lá, em meio às lembranças dos que já partiram, que cumpre sua rotina de caminhadas. Antes de qualquer olhar de estranheza, Jair rebate: "Eu só sei que eu acho tudo isso muito bonito".

                                                                Jair: o aposentado que caminha no Cemitério Jardim de Saudade e vê a beleza da morte (Foto: Fernanda Lima/CORREIO)

O aposentado vê beleza na morte e explica o porquê. "Se não houver morte é porque não houve vida... Não sei, só sei que acho bonito", tenta definir. Poucas horas antes, por volta das 10h30, o Cemitério, localizado em Brotas, teve uma chuva de pétalas em celebração do Dia de Finados. Outro momento está reservado para as 15h, quando haverá uma revoada de balões. Neles, mensagens escritas pelos visitantes do dia. Uma mensagem de saudade. 

As irmãs Dantas acompanharam o dia de homenagens em frente ao palco improvisado em um dos jardins do Cemitério. Marilene, Maria Auxliadora e Ubiraci estavam ali para o dia de homenagens. Sem, necessariamente, existir um homenageado enterrado no Cemitério. Um cunhado de Maria Auxiliadora, 61 até foi cremado no local, mas as três foram ao cemitério por um motivo maior.

"É uma forma de ver o caminho de todos. É um momento que cobre tudo", opinou Ubiraci Dantas, 68.

O centro das celebrações da vida estava sobre um jazigo mais à frente, um dos primeiros do Cemitério. É o túmulo de Raul Seixas, já tradicional ponto de encontro de seus fãs no Dia de Finados. Por exemplo, o funcionário público Durval Filho comparece ali há 29 anos, ou seja, desde a morte do Maluco Beleza.

“Aqui é o centro das celebrações da vida. Aqui a gente fica até mandarem a gente embora, por causa do álcool. Para ficar tranquilo, né?"

Ele, próprio, no entanto, preferiu seguir as explicações: "Mas, assim, eu não quero ir embora da terra agora não, quero ficar aqui". Um grupo de 10 fãs rodeou o túmulo e começou a cantar "Meu amigo Pedro". Ao que eles cantavam o trecho "Tudo acaba onde começou", Durval brincava: "Tá vendo?". "Que a vida é séria e a guerra é dura [...]Todos os caminhos são iguais", como escreveu Raul.

*Com supervisão da editora Mariana Rios

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