Dos 21 primeiros contaminados de Lençóis, 18 são funcionários da prefeitura

coronavírus
09.07.2020, 05:43:00
Atualizado: 10.07.2020, 11:09:00
(Ronaldo Silva/Agecom)

Dos 21 primeiros contaminados de Lençóis, 18 são funcionários da prefeitura

Cidade da Chapada Diamantina ficou até 5 de julho sem registrar infectados

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Até o último domingo (5), Lençóis não tinha um caso de coronavírus. Um dia depois, na segunda, a cidade teve o primeiro registro da doença. Já na terça-feira, no boletim epidemiológico divulgado pelo município, o número saltou para 21 casos, o que corresponde a um aumento percentual de 2.000%. Dos contaminados, 18 são servidores da prefeitura, incluindo o prefeito da cidade, Marcos Airton (PRB), conhecido como Marcão, e sua filha, que é a secretária de administração.  

“É bom que todos os servidores estão assintomáticos, pois somos pessoas preparadas e tranquilas. Vamos saber viver o isolamento e conduzir a situação, para logo depois cuidarmos dos demais”, disse o prefeito. O primeiro caso registrado, no do dia 6 de julho, na segunda-feira, foi do filho de uma das servidoras da prefeitura. Não se sabe como ele foi contaminado.  

“Quando ele procurou o serviço de saúde, já tinha sintomas há mais de cinco dias da doença. Com esse prazo, é desaconselhado o teste RT-PCR, o realizado pelo Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen).  Por isso, aguardamos mais uns dias para fazer o teste rápido, que positivou”, explicou Gisela Andrade, coordenadora das ações de enfrentamento e combate ao covid-19.  

Com o resultado, a vigilância epidemiológica do município iniciou o processo de testagem nos familiares do contaminado. Irmão, pai e mãe, que é a servidora municipal, positivaram. Depois, os funcionários da prefeitura que tiveram o contato com a funcionária começaram a ser testados e 18 receberam o diagnóstico da doença.

“Realizamos a desinfecção de toda a sede da prefeitura e ainda estamos nesse processo de testagem dos funcionários, para que aqueles que negativarem consigam voltar ao trabalho que é essencial”, disse Gisela. O prefeito Marcão explicou que a servidora contaminada trabalha no setor de licitação, que se relaciona com outros órgãos do município. Por isso, os servidores contaminados fazem parte de diversos setores da prefeitura.  

Marcão disse ainda que muito dos servidores já estavam trabalhando em home office, mas alguns ainda frequentavam a prefeitura. Todos os contaminados estão em casa, isolados, e são monitorados pela vigilância epidemiológica. Apenas o primeiro caso do município apresentou sintomas da doença. Os outros 20 são assintomáticos, inclusive o do prefeito.  

Sem casos 
Segundo o boletim dessa terça-feira (8) divulgado pela Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab), apenas 24 cidades do estado não têm casos de coronavírus. Nesse boletim, Lençóis tem apenas seis casos. Esse número menor é devido ao tempo que o sistema estadual leva para fazer todos os registros. Com pouco mais de 11 mil habitantes, Lençóis fica localizada na Chapada Diamantina, no centro-leste baiano, a mais de 400 quilômetros de distância de Salvador.  

O município conseguiu ficar sem casos de coronavírus até o dia 5 de julho. “A cidade só tem uma única entrada de carro, pela BA-850. Fizemos uma barreira de 24h desde 21 de março. Lá monitoramos quem entra como se fosse um pedágio”, disse o prefeito Marcão.  

Gisela Andrade, do combate de ações, disse que teve até pessoas que não são da cidade e tentaram passar pela barreira para alugar alguma casa e passar a quarentena no município, devido ao seu potencial turístico. “Não deixamos entrar. Alguns poucos são agressivos nas palavras, mas a maioria entende. Tentamos ser o mais educado possível, pois queremos receber esses turistas depois”, explicou.   

O problema para a cidade, segundo Gisela, é a população flutuante de Lençóis. “Tem gente que possui, por exemplo, uma segunda residência que fica aqui. A gente não pode proibir esses que têm comprovante de residência de entrar, por exemplo”, disse. Só no período do São João, segundo o prefeito Marcão, cerca de 100 pessoas entraram na cidade, mesmo sem a realização de festas públicas.  

Quem passa pela barreira tem que ficar em isolamento e é monitorado pela vigilância epidemiológica. “Durante a pandemia, a gente recebeu denúncias de aglomeração ou festas em casa das pessoas, aniversários. No dia do São João, isso não aconteceu. Mas um pouco depois, voltamos a receber queixas. No início do isolamento, a população aceitou e seguiu mais as orientações. Por ficarmos sem casos confirmados, percebemos que as pessoas foram tranquilizando, abrindo exceções”, disse Gisela.  

Liliane da Silva Sodré, dona da pousada Villa Almm, localizada na cidade, confirmou o relaxamento. “Eu não tenho saído de casa. Só o meu marido vai para a rua, usando a máscara. Ele relata que tem pessoas que ainda não a usam”, reclamou. Com os 21 casos nos últimos dois dias, Liliane disse que a população ficou assustada. “Temos medos por ser uma cidade pequena”, afirmou.  

Por mais que a barreira funcionasse 24 horas por dia e não permitisse a entrada de turistas, o prefeito Marcão disse que alguns cidadãos continuavam a transitar para Seabra, a cidade vizinha de 44 mil habitantes e 25 casos de coronavírus confirmados, segundo o boletim da Sesab. Esse trânsito, para ele, pode ter levado o vírus ao município.  

Turismo clandestino  
Outro problema que Lençóis tem encarado é o turismo clandestino. “Estavam entrando turistas pela serra da cidade. Para inibir, há cerca de 40 dias, colocamos brigadistas para interromper esse fluxo. As trilhas da cidade estão bloqueadas”, diz Marcão.  

O setor turístico tem importância considerável na economia da cidade. A dona da pousada Villa Almm descreveu o seu sofrimento. “Estamos parados, sem receber clientes e sobrevivendo do auxílio emergencial para comer. As contas estão atrasadas”, afirma. Ela entende a importância das medidas de isolamento, mas se preocupa mesmo com a possibilidade de redução no auxílio do Governo Federal. “Se não fosse esse valor atual, estaríamos passando fome”, complementa.  

Em nota, a prefeitura de Lençóis lembrou que “o Parque Nacional da Chapada Diamantina e os parques e balneários municipais estão fechados por tempo indeterminado; os alvarás estão suspensos para serviços e atrativos turísticos e que as suspensões de contrato de trabalho, demissões, auxílio emergencial e reinvenção dos moradores têm mantido a economia de Lençóis neste período, mesmo com grande impacto nas arrecadações”.  

A prefeitura também destacou que a população tem demonstrado uma grande empatia, realizado campanhas solidárias, e que empresas privadas têm apoiado os cidadãos, como a empresa de cartões Elo, que destinou mais de R$ 120 mil em cartões pré-pagos para moradores.  

Para a volta das atividades turísticas, a prefeitura destacou que o trade planeja a retomada de suas atividades com muita cautela. Estão sendo feitas discussões no Conselho Municipal de Turismo e empresas estão aderindo ao selo "Turismo Responsável" do Ministério do Turismo. A reabertura deve ser conjunta com os outros municípios da Chapada, mas sem datas definidas.  

* Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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