Douglas: 'Eu pretendo ser candidato, mas não da forma que está'

e.c. bahia
20.09.2017, 11:50:00
Ídolo do Bahia, Douglas observa o cenário antes de decidir se será candidato à presidência do clube (Marina Silva / CORREIO)

Douglas: 'Eu pretendo ser candidato, mas não da forma que está'

Ídolo do Bahia, o craque do hepta cobra unidade em torno do clube e alguém que entenda de futebol gerindo o time

Douglas da Silva Franklin, mas basta Douglas, dispensa apresentação ao torcedor tricolor. No entanto, não custa reforçar: ele é heptacampeão baiano e, na opinião de muitos, o melhor jogador que já vestiu a camisa do Bahia. De passagem por Salvador, o ídolo de 68 anos visitou a Rede Bahia na manhã de terça-feira (19) e, obviamente, o CORREIO não deixou passar a oportunidade de conversar com o ex-craque, que cogita se lançar candidato à presidência do clube nas eleições marcadas para dezembro. “Eu tenho vontade de melhorar meu time. Vejo que um clube tem que ter estabilidade, e o Bahia não tem essa estabilidade que precisa ter. Mas da forma que está aí eu não gostaria, porque acho que o Bahia é um inteiro, e não um partido”, analisa. Confira o papo:

Você acompanhou o Bahia na eleição passada de longe, marcando presença. Dessa vez está apoiando algum candidato? Ou pretende ser candidato?
Eu pretendo. Tenho vontade de melhorar meu time. Vejo que um clube tem que ter estabilidade, e o Bahia não tem essa estabilidade que precisa ter. É uma gangorra, sobe e desce. Eu não gostaria de culpar fulano, sicrano, beltrano, acho que a gente tem que pensar o Bahia. Menos vaidade, mais clube, que é mais amor, paixão, e esquecer as vaidades pessoais. Estou conversando, mas da forma que está aí eu não gostaria, porque acho que o Bahia é um inteiro, e não um partido. Eu não gostaria que houvesse isso dentro do time que me deu a segunda vida.

Nota da redação: Douglas se refere ao fato de ter vindo jogar no Bahia, em 1972, após estar acertado para trocar o Santos pelo América-RJ, inclusive com passagem comprada. O avião que o levaria de São Paulo para o Rio de Janeiro bateu no Pico da Maria Comprida, em Petrópolis-RJ, e todos os passageiros morreram.

Ter tantos partidos acaba prejudicando depois da eleição também?
Eu sou muito franco, a torcida pode não gostar, algumas pessoas podem não gostar. Mas eu acho que as pessoas que têm que mexer no futebol é quem entende de futebol. Não é quem estuda, é quem entende. Porque o estudo no futebol é balela, isso é conversa fiada. Você tem que entender, saber, vivenciar. É o dia a dia, ter participado, então fica muito mais fácil pra você lidar com os atletas, com o treinador. Geralmente quem participa da presidência, na realidade, não entende de futebol. Ele pode saber a grosso modo, mas ou é um grande administrador ou uma pessoa poderosa ou um grupo partidário que põe uma pessoa ali. Poderia acontecer isso sim, aí você dividiria. Ele tocaria o clube com gestão e daria a outra presidência a quem entende de futebol.

Esta talvez seja a crítica predominante à diretoria atual, elogiada por estar arrumando o clube, mas pecando no futebol.
A todas, a todas. Eu não vejo o Bahia há muito tempo ter uma estabilidade. Porque estabilidade é ter cinco, seis, oito anos naquele nível. Não é que você tenha que ser campeão. Ser campeão as pessoas pensam que é difícil. Não, não é difícil. Você injeta dinheiro, gasta, faz uma equipe, mas é para um ano só. E eu acho que gestão não é isso. É você ter uma estabilidade, principalmente no time, porque o que move o clube é o time. Se o time não estiver bem a torcida larga, o sócio não paga. É por aí mais ou menos. E a gente tem que conversar, esquecer essa vaidade: “ah, eu sou conselheiro do Bahia”. Os conselheiros falam das gestões passadas, mas confirmam coisas e avaliam coisas... Foram contra a compra de Dias d’Ávila, mas hoje avaliam pagar Dias d´Ávila, hipotecar alguma coisa para pagar Dias d’Ávila, eu não entendo. Nada contra a cidade, pelo amor de Deus, mas não é o que o atleta pensa. Eles querem morar em Salvador, querem jogar no Bahia. Eu acho que tem mudar uma série de coisas, é difícil. Teve uma pessoa que falou que é utopia. Não, não é utopia, você tem que dar um passo pra frente, tem que ter um começo.

Você falou que quer ser candidato, mas não nesse modelo com tanta disputa de partidos”, digamos assim. Enxerga isso como cenário possível já para dezembro?
Se as pessoas gostarem do clube, sim. Aí você vai ver se gostam do clube. A finalidade é o clube, o que o Bahia tem de poderoso é a torcida. A torcida é apaixonada, é vibrante e quer resultados, lógico. Mas esses resultados de você ter um clube em um estágio bem nivelado, com uma sequência boa, leva um tempinho, uns dois anos mais ou menos. Agora tem que conciliar as partes. Eu não acredito em oposição num time de futebol. Tem oposição? Então você não gosta do clube. Eu não posso ser contra o gestor que procura fazer o bem. Aí “ah eu não vou ajudar fulano porque eu não sou da chapa dele, eu sou contra ele”, então você é contra o clube.

A oposição de deveria ficar restrita à campanha, não é?
Sim, na campanha, mas depois apoiar, pôr suas ideias, ajudar com ideias. Eu estou disposto a isso, eu quero isso, gostaria que fosse assim. E vou tentar, vou lutar.

Como você avalia a gestão de Marcelo Sant’Ana?
Muitos altos e baixos, e ele foi uma das vítimas também. Um rapaz íntegro, é estudado, tentou fazer. A maioria deles tenta, mas no decorrer do caminho acontecem muitas coisas que sozinho... o Bahia é muito grande para ter um presidente só. Veja só: o presidente pensa em publicidade, ele pensa em aglutinar sócios, em crescer em patrimônio, mas a coisa mais difícil é o futebol. Como é que ele vai pensar no futebol, vai conversar com o treinador, vai conversar com o jogador? Porque o presidente é do futebol. E como ele não entende é muito difícil. Eu não culpo as pessoas. Ele é bem intencionado, creio eu que sim, até que me provem o contrário.

Se Marcelo Sant'Ana sair candidato à reeleição, ele terá seu apoio?
Não sei. Estou conversando com as pessoas, não sei ainda. Não vi o que seria eu. Tenho vontade (de sair candidato), mas com outra estrutura. Com a que está aí eu não arriscaria sair candidato. Acho que as melhores pessoas que torcem pro Bahia, que têm identificação com o clube, elas têm que estar em cada setor. Não interessa de onde é, oposição ou situação. Se você é o melhor de publicidade, você seria o meu publicitário. Se você fosse melhor administrando financeiramente, você seria meu administrador financeiro. E por aí adiante. Eu penso assim.

Mudando um pouco de assunto, está lembrado que o aniversário do hepta está perto? Dia 28 de setembro.
É, 38 anos, né? 28 de setembro é a data que a minha mãe faz aniversário, por isso eu não esqueço. Poderia ser feita uma festa, alguma coisa assim. Eu gostaria de fazer também, uma ideia que estou dando para o futuro presidente, o dia do atleta profissional do Bahia. Você tentaria trazer com empresas, tudo em um dia, as pessoas que participaram do Bahia. Aí poderia ter homenagem a quem viesse, uma carteirinha, alguma coisa, lembrança. Alguns clubes já fazem isso. Um reconhecimento de serviços prestados pelo que você fez por esse clube, e traria o atleta atual e o ex-atleta. Eu tenho que falar do Santos porque o Santos é um clube que faz isso daí e é um clube estável. Você não vê uma instabilidade no Santos, vai cair, vai subir, ele está sempre disputando campeonatos. O que uma torcida quer é estar sempre na disputa. Não quer estar rezando, tendo que ir de joelho à Igreja do Bonfim. É uma brincadeira, desculpa, mas a maioria das vezes é realidade.

Você citou o Santos. Até hoje a gente vê Pepe, Clodoaldo, Zito faleceu há pouco tempo, mas frequentava também, e outros ex-atletas no clube...
Pepe, Clodoaldo, Coutinho. E trabalham dentro do clube. Porque veja só, é identidade. Hoje é muito difícil o garoto ter um espelho, se basear em algum jogador, porque a grande maioria dos jogadores da seleção brasileira joga fora (do país). Você tem que ter um espelho, e o espelho são esses ídolos do clube. Você pôr um Beijoca para trabalhar lá dentro. Eu acho que relações públicas de um clube são vários jogadores, não pode ter um só. Às vezes você pode gostar de mim e não gostar do outro. Tem vários jogadores que podem servir como referência, servir como carro-chefe para pedir torcedor, para fazer propaganda. E tem muitos jogadores: o pessoal do hepta, o pessoal de outras épocas, tem o pessoal campeão brasileiro.

Tem o próprio Preto Casagrande. Tudo bem que agora em uma função perigosa para um ídolo.
Eu acho que não foi uma boa para Preto. Porque ele estava trabalhando sim, juntamente com outro treinador, estava ali. Mas acho que ele teria que se preparar um pouquinho mais para ser o treinador de uma equipe que tem uma torcida apaixonante, vibrante, que morre pelo time. Agora o Bahia está vivo na competição, e o conselho que eu dou é que tentem alguma força para melhorar o time porque jogar a segunda divisão é muito ruim para o Bahia e para a torcida. Mas tem como sair disso daí. É só parar, pensar, usar muita conversa com os atletas e incutir na cabeça deles que eles são responsáveis, sim, e têm que tirar o Bahia dessa situação. Nós não estamos pedindo muito para eles, isso tem que acontecer. E eu vejo o Bahia com time para sair disso. O Bahia tem time. Agora só estando lá dentro você pode saber o que pode acontecer.

Até porque houve muitas trocas de treinador, jogadores se machucaram, outros caíram muito de rendimento.
Uma coisa que eu sou contra é você não permanecer um certo tempo com um treinador. Porque veja só: nós estamos em três pessoas aqui, cada uma tem um pensamento de como jogar futebol. Então você não está fazendo bem pro clube, está fazendo mal. Eu penso uma forma de jogar o Bahia com os mesmos jogadores. Você pensa uma outra forma de jogar com os mesmos jogadores. E ela (a repórter fotográfica Marina Silva) pensa uma forma de jogar com os mesmos jogadores. Você não padroniza uma forma de jogo e tem que padronizar, sim. Fica até muito mais fácil para encaixar os jogadores e encaixar o jogador oriundo da base para o profissional.

O que de certa forma a diretoria imaginou que havia conseguido com Guto Ferreira, mas ele pediu demissão no início do Brasileirão para ir treinar o Internacional.
Pode até ser, mas houve muitas contratações que mudaram, né? Porque cada treinador vem e traz três ou quatro jogadores, porque é a forma dele. Um traz três jogadores e joga de uma forma. Outro, de outra forma. É muito difícil aí você encaixar. Para encaixar isso só tem um meio: falo pela experiência que eu tenho, pela vivência e por subir duas vezes o Barretos (time que vai disputar a 3ª divisão paulista em 2018) como treinador e tirar três vezes de cair, lá em São Paulo. Para encaixar um time tem que ter uma mentalidade única. Não pode ficar contratando vários jogadores de uma forma assim, sem pensar bem o que você quer de time, de filosofia de jogo. Fica difícil. Mas acho que o Bahia tem chance, sim, de sair dessa. É só ter uma proposta de jogo, ir pra cima e sai sim.

Uma coisa me chamou atenção quando falamos de Preto. Você também é ídolo do clube e pretende ser presidente. Será que é uma boa para você?
Não, eu estou vendo. Eu não garanti. Eu estou vendo, estou pensando e, da forma que está, eu não queria.

Você coloca na balança esse fator?
Não. Eu me coloco na função de ter sido jogador e ter conhecimento do futebol. Porque eu vou dirigir um clube de futebol. Gestão financeira, se você perguntar: você entende profundamente de finanças? Não. O que eu ia fazer? Pôr um grande administrador lá e pronto. Qual é o problema?

Até porque o presidente não precisa ser a pessoa que mais entende, mas precisa saber montar uma boa equipe.
Sim. Saber montar uma boa equipe e deixar o futebol para quem entende de futebol. Como é que um presidente que não entende de futebol... Como é que Marcelo (Sant’Ana), desculpe Marcelo, não tenho nada pessoal contra você. Como é que você vai conversar com um atleta profissional de futebol ou com um treinador de futebol? Perguntar por que ele está chutando assim, por que ele está fazendo isso, por que está marcando assim? Isso que eu acharia que o clube deveria ter duas gestões: a de futebol e a de administrar o clube. O time seria (administrado por) uma outra equipe.

Curioso que um clube de futebol hoje ganhou tantas vertentes que, às vezes, parece que o futebol é visto como apenas mais uma.
E não é. A maior importância de um clube é o time, não é? Eu acho que, por exemplo, o clube só tem continuidade se o time vai bem. Se o time não vai bem, o clube cai. Se o time vai bem, o clube sobe. Todo mundo aí tem basquete, vôlei, futsal, uma série de outros esportes, mas quem carrega um clube de futebol é o time.

Jorginho, ex-técnico do Bahia, deu uma entrevista recente e citou que, na Alemanha, é comum que ex-jogadores continuem exercendo funções no clube. Aqui no Brasil não é tanto. Por quê?
É o que te falei agora há pouco. Porque são grupos políticos ou grupos de pessoas poderosas financeiramente que administram. Você vê o caso do Palmeiras: “ah vamos ser campeões? Vamos”. Injetaram dinheiro e foram campeões. Agora e a continuidade, teve? Não. Porque injetaram pra ser.

[Nos instantes finais da entrevista, a repórter fotográfica Marina Silva pede a palavra]: Eu queria fazer uma foto em outro local porque o fundo aqui tem muito vermelho e preto. Pode ser?
Não, vermelho e preto não. Pelo amor de Deus. Pode sim. Aqui está bom? Ainda bem que eu vim com uma camisa preta e branca (risos).
 

Douglas sem o fundo vermelho e preto: "pelo amor de Deus" (Foto: Marina Silva / CORREIO)

Douglas sem o fundo vermelho e preto: "pelo amor de Deus" (Foto: Marina Silva / CORREIO)


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