É falso que Exército tenha apreendido madeira ilegal ligada a ONGs e MST

brasil
08.10.2020, 17:26:25

É falso que Exército tenha apreendido madeira ilegal ligada a ONGs e MST

O Exército informou que não há registros de nenhuma apreensão de madeira recente nas condições descritas pelas publicações verificadas pelo Comprova. Algumas postagens usaram uma foto que mostra caminhões carregados de toras de madeira. A imagem, no entanto, é de 2015

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  • Conteúdo verificado: Publicações no Twitter e no Facebook afirmam que madeira ilegal apreendida no Pará pelo Exército seria de fundador de uma ONG ligada à proteção ambiental na Amazônia, que também teria envolvimento com o MST no estado.

É falso que o fundador de uma ONG ligada à proteção ambiental na região amazônica seria dono de um carregamento ilegal de madeira apreendido em ação do Exército no Pará. As afirmações circulam em uma série de postagens virais no Twitter e no Facebook. As publicações afirmam ainda que a entidade estaria ligada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST-PA).

Não há evidências de que uma apreensão do tipo tenha sido feita na região nas últimas semanas, e nem o Comprova encontrou qualquer ligação recente entre o MST ou ONGs ambientais com o desmatamento ilegal na região.

O Exército informou que divulga suas operações no site oficial e não há registros de nenhuma apreensão de madeira recente nas condições descritas pelas publicações verificadas pelo Comprova. O MST também nega qualquer ligação com madeireiras.

Como verificamos?
Entramos em contato com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e com o Exército, que são diretamente mencionados nas publicações, para saber a veracidade das alegações. Consultamos os sites oficiais do Exército, do governo federal e do Ministério da Defesa, além de reportagens publicadas neste ano sobre a ação dos militares na região da Amazônia.

Além disso, para checar a origem da imagem que circulou em outras postagens sobre o mesmo conteúdo, usamos a ferramenta de busca reversa de imagens do Google, que resultou em uma foto com a logo da “Máfia da Tora” — que foi, então, localizada nas redes sociais.

Também entramos em contato com o usuário que fez a postagem no Twitter, @Gabriel08819060, por meio de mensagem direta na rede social, mas, até a publicação desta checagem, não tivemos resposta.

Verificação
Foto de toras de madeira é antiga

O mesmo conteúdo circulou no Facebook. Na rede social, a alegação falsa sobre a apreensão de madeira pelo Exército foi compartilhada em algumas postagens com uma foto que mostra caminhões carregados de toras de madeira. A imagem, no entanto, é de 2015 e foi reproduzida em outras postagens nos anos posteriores.

O Comprova usou a ferramenta de busca reversa de imagem do Google para encontrar fotos semelhantes publicadas antes de 2020. Em um dos resultados, aparece a inscrição “Máfia da Tora”. Encontramos uma página de Facebook de mesmo nome, que publicou a mesma foto em novembro de 2017.

O site E-Farsas, que também investigou a origem da fotografia, encontrou uma postagem na mesma página ainda mais antiga, de janeiro de 2016. O post atribui o registro ao leitor Alessandro Antoniazzi, durante festejo da padroeira da cidade de Cláudia, no Mato Grosso.

A reportagem do E-Farsas conversou com Antoniazzi, que é cantor. Ele confirmou que fez a foto em 2015, e que as toras mostradas na imagem foram presenteadas à paróquia Nossa Senhora da Glória por madeireiras da região. O Comprova entrou em contato com Alessandro e com a igreja de Cláudia, mas não obteve retorno.

Operação Verde Brasil 2
O Exército, de fato, tem atuado no combate ao desmatamento ilegal e aos incêndios na região da Amazônia Legal. A “Operação Verde Brasil 2” foi iniciada no dia 11 de maio, e é encabeçada pelo Conselho Nacional da Amazônia, chefiado pelo vice-presidente Hamilton Mourão, e formada por onze outras organizações, como o Ibama e o Instituto Chico Mendes (ICMBio). A ação vai até o dia 11 de novembro.

Desde o início das atividades, a força-tarefa resultou na apreensão de 28,7 mil metros cúbicos de madeira, com a realização de mais de 26 mil inspeções navais e terrestres e 712 apreensões.

O Comprova entrou em contato, via assessoria de imprensa, com o Exército, que informou que “as operações realizadas pelo Exército Brasileiro, bem como os resultados obtidos, são os divulgados no site da Força”.

Na busca, no site oficial, pelos conteúdos relacionados à operaçãoestão listadas algumas ações conjuntas no Pará, ligadas ao combate à extração ilegal de madeira, mas não há menção à suposta origem relacionada ao MST ou a ONGs de preservação ambiental, já que o Exército não divulga esse tipo de informação. O Comprova perguntou especificamente sobre as alegações feitas no tuíte e nos posts verificados, mas a assessoria de imprensa não nos forneceu detalhes do tipo.

Postagens acusam, sem provas, marido de Marina Silva

A alegação falsa sobre a apreensão de madeiras pelo Exército também foi compartilhada em postagens com acusações ao marido da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, Fábio Vaz de Lima. Os posts reciclam um boato de que Lima seria “um dos maiores desmatadores da Amazônia”.

Em 2018, o site Aos Fatos mostrou que a acusação distorcia uma investigação do Tribunal de Contas da União (TCU). O Comprova checou, no mesmo ano, um boato semelhante.

Fábio é um dos fundadores do Grupo de Trabalho amazônico (GTA). Esse grupo era ligado a uma ONG chamada Fase, que, em 2003, recebeu do Ibama a doação de 5,7 mil toras de mogno ilegais apreendidas na Amazônia. A investigação do TCU ocorreu porque havia divergências entre o valor atribuído às madeiras e o valor real.

Marina explicou que o marido deixou o GTA em 1999 para trabalhar no governo do Acre.

MST nega envolvimento
Procurado pelo Comprova, o MST disse não ter qualquer ligação com madeireiras. “Desde a semana passada temos sido alvo de uma série de informações falsas que têm circulado deliberadamente na internet”, comunicou o movimento.

De fato, o MST tem sido acusado nas redes sociais de envolvimento com as queimadas na Amazônia e no Pantanal. O Comprova desmentiu uma postagem que afirmava que um dos fundadores do movimento, João Pedro Stédile, estaria sendo investigado pela Polícia Federal por envolvimento em queimadas. Não há registro que tal investigação exista.

Na contramão das acusações e “como resposta ao desmatamento”, a organização afirma que está encabeçando uma campanha nacional de plantio de árvores.

Por que investigamos?
Em sua terceira fase, o Comprova verifica postagens suspeitas que tenham viralizado nas redes sociais que tenham ligação com políticas públicas do governo federal ou com a pandemia do novo coronavírus.

O tuíte analisado aqui teve mais de 16,9 mil interações desde o dia 5 de outubro. A informação falsa foi reproduzida em postagens no Facebook, onde ganhou mais de 1,3 mil compartilhamentos.

A preservação da floresta amazônica é um dos maiores desafios para o governo — um estudo publicado na revista Science Advance indica que, se o desmatamento atingir 20% da bacia Amazônica, atingiremos um ponto irreversível de savanização do bioma. Atualmente, 17% da floresta já foi desmatada.

Os sites Aos FatosE-Farsas e Lupa também publicaram verificações semelhantes.

O Comprova já checou vários conteúdos relacionados à Amazônia, a ONGs e ao MST. Na semana passada, mostramos que não havia provas de que o MST tivesse relação com as queimadas na Amazônia ou no Pantanal. Outros exemplos incluem uma verificação sobre um vídeo lançado pela Associação de Criadores do Pará que afirma que a Amazônia não está queimando e outra sobre postagem que afirmam que indígenas prenderam em flagrante integrantes de ONGs que seriam incendiários.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

*Esta checagem foi postada originalmente pelo Projeto Comprova, uma coalizão formada por 29 veículos de mídia, incluindo o CORREIO, a fim de identificar e enfraquecer as sofisticadas técnicas de manipulação e disseminação de conteúdo enganoso que surgem em sites, aplicativos de mensagens e redes sociais. Esta investigação foi conduzida por jornalistas da BandNews FM e Estadão, e validada, através do processo de crosscheck, por sete veículos: Gaúcha ZH, O Povo, Jornal do Commércio, Folha, CORREIO, Poder 360 e piauí.

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