Edson Cordeiro canta o fado no Teatro Castro Alves

Vida
17.05.2017, 06:07:00

Edson Cordeiro canta o fado no Teatro Castro Alves

Cantor revelado nos anos 90 vive hoje na Alemanha e gravou disco dedicado ao gênero português
Edson Cordeiro, com os músicos Wallace Oliveira e Sérgio Borges, em Fado Tropical
(foto: Jerônimo Gomes/Divulgação)


Quando despontou no Brasil, no início dos anos 90, Edson Cordeiro, com seu timbre de contratenor, foi apontado como uma das grandes vozes de sua geração.

Seu primeiro álbum, que levava seu nome, foi lançado em 1992. Nele, o cantor mostrava a versatilidade de sua voz: Edson interpretava ópera (A Rainha da Noite, de Mozart), pop (Kiss, de Prince), MPB (Baioque, de Chico Buarque) e um blues brasileiro com roupagem rock'n'roll (Down em Mim, de Cazuza). 

Nos três discos seguintes, manteve forte ligação com a música brasileira, cantando de Adoniran Barbosa a José Miguel Wisnik. Continuou também próximo da música erudita, gravando Händel e cânticos religiosos. 

Em 1998, surpreendeu ao gravar Clubbing, dedicado apenas à  música eletrônica, com versões de clássicos do gênero como I Will Survive e It's Raining Men. Nos anos 2000, foi morar na Alemanha e lançou alguns discos, distribuídos exclusivamente na Europa, com repertório novamente diversificado, passando pela ópera e pelo choro.

Afastado da mídia nacional, embora venha ao Brasil com frequência, Edson está de volta com Fado, disco dedicado exclusivamente ao gênero de origem portuguesa. 

Nessa sexta, às 20h, no Teatro Castro Alves, o cantor traz a Salvador a turnê Fado Tropical, que mistura as canções do novo trabalho com músicas que marcaram a carreira do cantor paulista, que completou 50 anos em fevereiro.

A família do cantor veio de Portugal no século XIX e, para ele, cantar a música portuguesa é uma forma de resgatar sua ancestralidade. “Estou cantando aquilo que faz parte de mim e estava adormecido. Para mim, cantar fado é como encontrar um parente distante”, diz, emocionado.

Colônia portuguesa
Edson se lembra de, ainda criança, assistir na TV ao programa Caravela da Saudade, dedicado à colônia portuguesa: “Foi lá que ouvi a voz de Amália Rodrigues, que me converteu definitivamente ao fado”, lembra-se. 

Da portuguesa, morta em 1999, aos 70 anos, o cantor interpreta no disco a canção Estranha Forma da Vida, parceria dela com Alfredo Rodrigo Duarte. Há ainda outras que foram consagradas na voz de Amália, como Foi Deus (Alberto Janes) e Barco Negro (David Mourão Ferreira/Matheus Nunes).

E, para dar um tom brasileiro, há também Fado Tropical, de Chico Buarque, música que batiza o show que será apresentado em Salvador. Edson optou por fazer pequenas mudanças em relação à versão original: “Mandei esta gravação de Fado Tropical para Chico Buarque dizer se aprovava, porque fiz algumas mudanças, adaptando para a forma portuguesa. Por exemplo, em vez de ‘deságuam’, falo ‘desaguam’, como os portugueses costumam falar. Fiquei muito feliz com a aprovação dele”.

Chama a atenção o sotaque português em todas as músicas, bem trabalhado por Edson, sem soar caricatural. “Quando interpreto ópera ou  um canto lírico de origem italiana, busco me aproximar da forma como os italianos cantam. Faço o mesmo em francês e por que não fazer isso com o português? Acho que o sotaque traz o tempero que faltaria. Além disso, é uma forma de homenagear uma escola de interpretação”, justifica o cantor.

Para Edson, o Brasil deveria ser mais receptivo à música portuguesa: “A nossa música é muito bem recebida pelos portugueses, embora seja  quase ‘imposta’ a eles. Por outro lado, o Brasil resiste à música de Portugal. Mas nós falamos a mesma língua e, além disso, a poesia do fado é arrebatadora. Portanto, perdemos os brasileiros, que criamos essa resistência”, lamenta.

Salvador
Na turnê brasileira, Edson se apresenta com os fadistas nacionais Wallace Oliveira (guitarra portuguesa) e Sérgio Borges (violão). “Nós usamos a sonoridade do fado também para músicas brasileiras, como Coração Vagabundo, de Caetano Veloso, e Disseram que Voltei Americanizada, que se tornou conhecida na voz de por Carmen Miranda. Tem também Lovesong, balada blues do The Cure”.

Exclusivamente para Salvador, o cantor prepara uma surpresa: a participação de um grupo de percussão local, cujo nome é mantido em segredo. “A participação deles é para dar o tom ‘tropical’, que está no título do show”, diz.

O show que chega a Salvador já foi apresentado na Alemanha e na Áustria e foi muito recebido por lá, segundo Edson, apesar da estranheza que o idioma poderia causar aos germânicos. “Cantei para uma plateia formada por mais de 95% de alemães e eles gostaram muito. Antes de cantar algumas músicas, apenas falo um pouco sobre o que ela significa”, diz o cantor.

Edson vive na Alemanha, desde 2007, mas suas primeiras apresentações na Europa aconteceram em 1994, depois que um empresário musical alemão assistiu a um show dele no Rio de Janeiro. O mesmo agente trabalhava com outros músicos brasileiros, como Djavan, Olodum e Daniela Mercury. 

O escritório buscava representantes da world music, que estava em alta. Embora Edson tivesse um som mais “urbano”, como ele mesmo diz, ainda assim ele foi contratado e começou a se apresentar em território europeu.

Na Alemanha
As portas do velho continente começaram a se abrir e as apresentações ocorreram com frequência cada vez maior. Em 2007, Edson decidiu viver em Berlim, capital da Alemanha. “Adoro o país e hoje dificilmente me readaptaria ao Brasil. Mas faço questão de vir pelo menos três vezes por ano aqui”. Hoje, ele vive em Lübeck, cidade de 200 mil habitantes, onde nasceu Thomas Mann (1875-1955), autor do clássico A Montanha Mágica.

O cantor vive há sete anos com o marido, Oliver Bieber, que é ilustrador de livros infantis e também assume o papel de empresário de Edson. Preocupado com os direitos dos homossexuais, o cantor faz questão de se envolver nas discussões sobre o assunto.

Diz que não se envolve em questões político-partidárias, mas não abre mão de discutir direitos humanos: “Não me envolvo em debates sobre direita ou esquerda, mas sinto necessidade de conversar com as pessoas sobre os direitos dos homossexuais e sobre as diversas formas de preconceito. Esta é a minha política”, diz, categórico.

Na Alemanha, observa, não costuma ser vítima de preconceito, mas em países como a Rússia “é melhor você não ir, se é homossexual”, afirma. “Na Chechênia (região da Rússia), há um campo de concentração para homossexuais”, conta, indignado.

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