Eduardo Athayde: China investe na sede da Amazônia Azul

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04.05.2017, 04:36:00

Eduardo Athayde: China investe na sede da Amazônia Azul


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Quando a Associação Comercial da Bahia, com dois séculos de serviços ininterruptos prestados à comunidade baiana, declarou a Baía de Todos os Santos (BTS) como Sede da Amazônia Azul [glo.bo/2pS6jrB], durante o I Fórum Internacional sobre Gestão de Baías, promovido em parceria com o Pacto Global, da ONU, em 2014, conselheiros da Embaixada da China estavam presentes.

Durante o evento, com o salão nobre da ACB lotado, representantes dos governos estadual e municipais, empresários, academia e sociedade civil, lançaram a Carta da Bahia, pedindo ao governo federal que oficializasse a declaração através de decreto, visando atrair para a BTS investimentos internacionais da rica economia do mar - foco dos chineses - e estratégico para o país e para a Bahia, que tem o mais extenso litoral entre os estados brasileiros.

Berço da civilização brasileira e maior baía tropical do mundo, a BTS é o ponto central dos 4,5 milhões de km² do território molhado nacional, contíguo à costa, batizado pela Marinha [goo.gl/Mkjltv] como Amazônia Azul. Suas 200 milhas de largura são reconhecidas pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), assinada por 160 países, inclusive a China. Visando garantir governança nova à BTS, ora travada pelo emaranhado de leis e burocracias, a ACB propôs a criação da Agência de Gestão da BTS [goo.gl/3KlCGs], seguindo os exitosos exemplos das agências de outras baías do mundo.

Abraçado pela Federação das Indústrias (Fieb), Federação do Comércio (Fecomercio), Associação Baiana de Imprensa (ABI) e associações de classe, como forma de alavancar governanças novas, o movimento ganhou força. Em 2015, a Desenbahia iniciou estudos para um Fundo de Desenvolvimento da BTS [goo.gl/BnxBjJ]. Em 2016, a BTS passou a integrar o The Most Beautiful Bays of the World Club [world-bays.com], sediado em Paris, que congrega as principais baías do mundo, inclusive chinesas, com agendas que vão da preservação a investimentos. Movendo-se com a sabedoria de uma civilização de cinco milênios, a China aproxima-se silenciosamente do Brasil. Com 1,3 bilhão de habitantes, 1/5 da população da Terra e segunda maior economia do mundo, com US$ 13 trilhões de PIB, crescendo a 6,5% ao ano, age com a força de um gigante governado por um regime central, formado por um único partido de 66 milhões de membros.

Atentas, as universidades do povo da China pesquisam as amazônias brasileiras, os potenciais hídricos e energéticos renováveis, marítimos, minerais, agrícolas e ambientais. Já identificaram o posicionamento geoestratégico central da BTS na Amazônia Azul e estão cientes das carências de infraestrutura, das dificuldades financeiras locais; e,  mais, conhecem o robusto mercado interno brasileiro, uma das dez maiores economias globais habitada por um povo hospitaleiro e de cultura pacífica.

Dentro desse cenário, a pontesalvadorilhadeitaparica.ba.gov.br volta ao debate no contexto do plano de desenvolvimento da área de influência socioeconômica da BTS, como equipamento para ajudar a reequilibrar a marcante desigualdade local. Enquanto 75% do PIB estadual de 50 bilhões de dólares está concentrado na Região Metropolitana de Salvador e Recôncavo Norte, as regiões do Recôncavo Sul e Baixo Sul movimentam, contrastantemente,  1,5% do total. Um crescimento desordenado e insustentável que, obviamente, precisa ser corrigido.

Se os investimentos sino-baianos planejados forem concretizados, a nova imagem de sede da Amazônia Azul - uma forte identidade facilmente detectável no concorrido ambiente internacional de negócios - poderá ser usada pela China para mostrar seus novos parceiros para o mundo. Ponto para a Bahia.

Signatários do Acordo de Paris, legalmente vinculante, Brasil e China estão comprometidos com regras para aplicação de recursos financeiros, dentre elas o Plano de Manejo e Zoneamento Ecológico-Econômico da BTS, exigidos por lei, condição indispensável para qualquer investimento na área.

* Eduardo Athayde é diretor do WWI-Worldwatch Institute.  
eduathayde@gmail.com

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