Eles dizem 'não'! Quando os homens não querem transar

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26.05.2019, 05:00:00
Atualizado: 26.05.2019, 13:58:01
(Ilustração: Morgana Miranda)

Eles dizem 'não'! Quando os homens não querem transar

Na contramão do machismo, homens começam a se sentir à vontade para recusar sexo

Os motivos podem ser os mais variados. Desde problemas físicos, passando por efeitos colaterais de alguns medicamentos até a baixa hormonal, estresse ou simples ausência de atração pela parceira fixa ou eventual. Assim como acontece com as mulheres, sempre houve motivos e situações para que homens dissessem ‘não’ ao sexo. Só que, se a negativa feminina é socialmente relacionada a um determinado conceito de “dignidade”, em relação aos homens é outro papo. 

A definição tradicional de masculinidade é bem clara e, entre outras coisas, nos diz que homem que é homem sempre quer transar. No entanto, esta é uma premissa que cada vez menos eles se esforçam para cumprir, o que surge como uma das facetas da “nova masculinidade” que, finalmente, desponta no horizonte. Novos tempos, outras posturas e questões. Mas, afinal, o que tem provocado essa mudança no comportamento masculino? Onde isso vai dar? E como as mulheres estão lidando com os “nãos”? 

Homem ‘pegador’
Jorge Mahaprabhu é terapeuta corporal tântrico e trabalha, desde 2012, com as esquinas da sexualidade. Para ele, existe um crescente movimento por parte de homens que estão percebendo o quanto o machismo também é prejudicial para eles próprios.

“Nesse movimento, passamos a questionar algumas posturas que são ‘esperadas’ (e até cobradas) dos homens, como a de ser ‘o pegador’ e não se negar a fazer sexo com a mulher. Sinto que o movimento feminista balança fortemente a estrutura do homem machista, tira ele do espaço de conforto e o convida a refletir sobre o seu papel na sociedade”, comenta.

Para o terapeuta, o homem também está sendo convidado a  abandonar a ideia de que basta ter um pênis ereto para que a relação seja um sucesso.

“O empoderamento feminino convida o homem a despertar sexualmente também, a sair da ilusão de que sabe tudo sobre sexo. Além disso, traz a possibilidade de sustentar a escolha de não ir para uma relação sexual onde não existe o desejo, o interesse real”,  diz Mahaprabhu.

Ele disse ‘não’
Foi no exercício desse direito legítimo que o publicitário baiano Marcos - ele pediu para usar um nome fictício -, de 38 anos, se deu mal. Usuário de aplicativos de relacionamento, criou um problemão ao dispensar uma moça do Tinder: “Rolou um match e, no mesmo dia que conversamos, ela me chamou pra casa dela. Foi a única vez que isso rolou comigo. Ela falou que tínhamos amigos em comum, que ela já me sacava do Rio Vermelho e tal. Então, eu fui. Cheguei com cerveja e ficamos na sala conversando, bebendo. Só que não me senti atraído por ela, não tive vontade de fazer nada. Daí, ficamos conversando um tempo e eu decidi ir embora, o que ela achou ruim. Ficou brava mesmo, dizendo que achava que a gente ia transar e tal, e daí fui me saindo, dizendo que não tava a fim, que não tinha surgido vontade. Ela me acusou de gastar o tempo dela à toa, algo assim. Daí, eu pedi desculpas, fui embora, e não nos falamos mais”.

Ou seja, ao mesmo tempo em que mulheres fazem campanhas do tipo “não é não” e exigem o respeito aos seus corpos e escolhas, talvez também precisem aprender a lidar com o fato de não serem, obrigatoriamente, desejadas. Espécie de “efeito colateral” do mais recente movimento feminista e parece que, para esse efeito, nem todas estão preparadas:

“Como vivemos em uma sociedade ainda machista, o ‘não’ do homem para o sexo pode ser visto de forma deturpada por parte das mulheres. Se essa mulher não estiver com sua autoestima elevada, pode tomar o ‘problema’ para ela ou mesmo questionar a virilidade ou orientação sexual do homem”, diz Mahaprabhu. 

Mudanças
Sim, teremos que nos acostumar. Até porque casos como o de Marcos estão longe de ser raridade. Ricardo Galvão, 47, jornalista, é mais um dos que se sentem aliviados com esse “relaxamento” das regras de masculinidade. 

Casado e pai de quatro, lembra de quando frequentava as boates de Salvador e comemora a diferença entre os tempos: “Desde sempre, foi incumbida ao homem a missão de ser conquistador, seja com emprego, salário, até ganhar uma mulher. Acontece que muitos homens hoje vão numa balada com os amigos simplesmente com a intenção de se divertir e sem a ‘obrigação’ de ficar com alguém, se não quiser. O homem contemporâneo tem deixado, aos poucos, essa necessidade de provar que é pegador. Ele namora quando quer, sem pressão e sem ter que provar nada”.

A tranquilidade para dizer “não” aponta para uma espécie de “revolução sexual masculina” que começa a se desenhar. Abrir mão do lugar do “macho sempre a postos” parece ser um movimento de libertação, um primeiro passo numa estrada onde ainda há muito a caminhar. 

Mas Ricardo tem algumas ressalvas:

“Infelizmente, o machismo ainda é dominante, especialmente o machismo tóxico, que muitos homens nem percebem que têm. Para a grande maioria dos homens, ele tem a obrigação de ser sempre ativo na relação. A postura de passividade, de se entregar para a mulher, de sentir prazer com uma massagem tântrica, por exemplo, onde a entrega é total, ainda não é palpável para muitos”. 

O jornalista defende que o homem pode comandar uma nova revolução sexual: “Acho que a revolução pode acontecer a partir daí, do movimento do homem de olhar para si e dizer ‘hoje, eu não quero sexo com minha companheira porque não tô a fim’. Ser mecânico para provar para outra pessoa que não ‘nega fogo’ é ridículo. Se for pra fazer sexo por fazer, nem sozinho vale”.


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