Em relatório, organização aponta impactos da política de desinformação na pandemia

coronavírus
20.05.2021, 23:54:42
Atualizado: 21.05.2021, 00:05:56

Em relatório, organização aponta impactos da política de desinformação na pandemia

'ARTIGO 19' publica dados sobre excesso de informações, tanto verdadeiras quanto falsas e conflituosas, como prática de órgãos federais durante a pandemia de covid  

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A ARTIGO 19, organização da sociedade civil voltada à defesa da liberdade de expressão e da liberdade de informação, lançou nesta semana o relatório “Infodemia e a Covid-19 – A informação como instrumento contra os mitos“. O documento traz um diagnóstico sobre o cenário de transparência e garantia do direito de acesso à informação pública no Brasil. De acordo com a organização, os resultados alertam para a infodemia, termo utilizado para designar um excesso de informações, algumas verdadeiras e outras falsas, e conflituosas, como prática recorrente de órgãos do Governo Federal. O documento é gratuito e pode ser acessado através do site da organização, que é sediada em Londres, na Inglaterra.
 
Coordenadora do projeto, a professora de direito e advogada baiana Ana Gabriela Ferreira destaca que a busca por respostas usou a Lei de Acesso à Informação (LAI). "Fizemos os primeiros pedidos via Lei de Acesso à Informação para o relatório exatamente nos primeiros dias de crise em Manaus, por conta da falta de oxigênio, leitos e insumos, em janeiro. Foram 49 pedidos, acompanhados até o início de maio, dos quais selecionamos 20 para apresentar na pesquisa. Estes 20 têm relação direta com alguns eixos que continuam sendo objeto de desinformação política até hoje -  o chamado "kit covid", propagado pelas declarações públicas do presidente e do então ministro da saúde, que também foi incentivado no "TrateCov"", disse o Correio.
 
Segundo a ARTIGO 19, o material apresentado é fruto de documentos e informações solicitados junto ao Ministério da Saúde e comparados com dados disponibilizados em transparência ativa e declarações oficiais do órgão e da presidência.  O relatório realizou análises de informações sobre o “kit covid” e contratos referentes aos medicamentos indicados, além do aplicativo “Trate-COV”, pivô de polêmicas na CPI, além de solicitações e fornecimento de oxigênio e insumo à cidade de Manaus; da vacinação indígena e ribeirinha no Norte do país; e disponibilidade de comprovação científica dos métodos adotados oficialmente.
 
Para Ana Gabriela, o documento aponta a propagação de uma rede desinformação. "O que o relatório apontou é a existência de um grande sistema de desinformação propagado pelo governo federal, especialmente centrado na presidência da república e no MS, contrário a evidências científicas diversas, mesmo tendo acesso a elas. Há uma discrepância entre as informações consolidadas enviadas aos pedidos e as declarações públicas de Jair Bolsonaro e do ministério da saúde, ou ainda o uso de parte da informação verdadeira misturada à informação falsa, que caracterizam o que a OPAS e a ONU já traduziram como infodemia”, diz.

Para ela, o sistema impacta diretamente na forma que parte da população tem encarado a pandemia. “Isso tem tanto impacto que verificamos os efeitos na hesitação de determinados grupos em vacinar-se. Com isso, o Brasil tem enfrentado mais uma onda da COVID-19 e continua a haver alto grau de desinformação sobre o básico de segurança sanitária, como obrigatoriedade do uso de máscaras pff2, segurança das vacinas aplicadas, necessidade de isolamento social. ", critica a professora.

O relatório deu ênfase à análise do acesso e da conformidade da informação, dada a percepção da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) sobre os impactos da infodemia no número de mortes por COVID-19. Segundo dados da organização, 85% dos pedidos se enquadram neste cenário de falta de informação segura aliada à desinformação: 35% dos pedidos tiveram classificação de informação desonesta; 25% foram classificados como desinformação intencional; 20% como apagão e 5% como informação parcial. Somente 15% das informações analisadas foram consonantes. 

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