Equinos e bovinos no Carnaval

nelson cadena
13.02.2020, 10:04:03
Atualizado: 13.02.2020, 10:19:52

Equinos e bovinos no Carnaval


Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.


Limpar o cocô de centenas de equinos, asininos e bovinos que desfilavam na rua puxando carros alegóricos, ou conduzindo as guardas de honra e seus arautos e as guardas mirins, era tarefa penosa para o departamento de limpeza pública da cidade. Clubes como o Cruz Vermelha, Fantoches e Inocentes incorporavam no seu cortejo entre 50 e 80 animais, cada um, a depender do tema-enredo. Outros clubes menores também dependiam dos animais, era impossível fazer andar um carro alegórico sem bois ou cavalos. O cocô de rua pode ter sido uma das motivações, além da boa educação, para o público acompanhar os desfiles sem invadir o espaço dos préstitos.

Os animais precisavam se alimentar, beber água e dormir. Fornecedores os traziam da área rural e do subúrbio, para locação por uma semana, montavam a infraestrutura na Praça Marechal Deodoro, que já era um ponto de cocho e cama equina durante a Lavagem do Bonfim. Lavar os cavalos, pentear e “escovar” as crinas, azeitar as ferraduras e vesti-los com luxuosos mantos bordados, com filetes dourados, essa era tarefa de uma comissão específica. Os blocos contavam com responsáveis para essas atividades. No Fantoches, Arlindo Fragoso e Francisco Cunha cuidavam das alegorias; Frederico Albertazzi da música e da contratação das charangas e Dona Celestina Maria dos Santos “do luzimento do cortejo”.

Durante meses, costureiras confeccionavam o grosso das fantasias - as importadas eram para os figurantes mais representativos do enredo - guardavam segredo e evitavam falar com estranhos. Mesmo assim, vazava para os concorrentes, o que ocorria, não apenas no atelier de costura, mas, no galpão onde eram montados os carros. Difícil manter o segredo do tema enredo com tanta gente envolvida, inclusive jornalistas que faziam parte das comissões dos clubes e desfilavam, senão eles, seus filhos e filhas, montados a cavalo, ou como figurantes nos carros alegóricos.

O que fez a fama do Cruz Vermelha, Fantoches da Euterpe e do Inocentes em Progresso, pondo-os em destaque sobre as demais agremiações, não foi apenas o luxo, mas a quantidade de carros e, consequentemente, a riqueza conceitual do enredo. Contar uma história com dois ou três carros de ideias era uma coisa, contar com dez a doze carros era outra. Para cobrir os custos de um préstito tão dispendioso, os clubes realizavam vários bailes pré-carnavalescos, e corriam entre os associados e gente do comércio os livros de ouro, onde os contribuintes assinavam constando o valor ofertado.

Para que o público entendesse o enredo, os clubes distribuíam cartilhas e publicavam nos jornais o tema, a ordem dos carros, o significado dos personagens e das alegorias; quem não lia os jornais e não tinha base cultural para entender enredos que se baseavam em fatos da história universal ficava a ver navios. Daí o sucesso dos blocos menores que priorizavam os carros de críticas com referências ao cotidiano dos baianos e da política e cuja dramatização tornava mais fácil o entendimento. Entre 1895 e 1905 o Carnaval contou com outra categoria de clubes, os blocos de africanos. Alguns desfilavam com poucos figurantes, outros como a Embaixada Africana com vários carros alegóricos e enredos que nos remetiam à história das monarquias do continente com seus símbolos e crenças.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas
Correio.play
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/patroa-ajudou-crianca-que-caiu-de-predio-a-entrar-no-elevador/
Miguel, de 5 anos, morreu; petição que pede justiça tem mais de 77 mil assinaturas
Ler Mais
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/morre-aos-85-anos-atriz-maria-alice-vergueiro-do-meme-tapa-na-pantera/
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/manifestantes-ateiam-fogo-em-onibus-na-paralela-veja-video/
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/rodamos-na-nova-versao-da-ranger-a-storm/
Em vídeo, jornalista automotivo analisa a cabine dupla diesel
Ler Mais
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/idoso-de-81-anos-e-o-100o-paciente-com-covid-19-a-ter-alta-no-hospital-portugues/
Unidade comemorou liberação do homem, que deu entrada há seis dias com 50% do pulmão comprometido
Ler Mais
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/depois-de-um-susto-targino-se-prepara-para-cantar/
Músico sofreu grave acidente de carro, mas escapou ileso e agora se prepara para fazer lives
Ler Mais
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/sao-joao-sera-comemorado-com-maratona-de-lives-promovidas-pelo-correio/
Serão seis apresentações de bandas e cantores durante o projeto, que arrecadará doações
Ler Mais
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/junho-chegou-correio-promove-lives-para-comemorar-o-sao-joao/
Apresentações acontecem sempre às sextas e sábados de junho, às 19h
Ler Mais