Escritor João José Reis fala sobre escravidão contemporânea

variedades
09.09.2017, 06:15:00
Atualizado: 09.09.2017, 09:07:45
João José Reis (divulgação)

Escritor João José Reis fala sobre escravidão contemporânea

Referência para os estudos da história da escravidão e vencedor do prêmio Machado de Assis, escritor falou com o CORREIO

Referência para os estudos da história da escravidão no século XIX e vencedor, este ano, do prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras (ABL) pelo conjunto da obra, o historiador baiano João José Reis, 65 anos, está engajado em dois novos livros.

Um vai tratar de um cativo trazido da África que virou comerciante rico; e o outro, em estágio mais avançado, é sobre o arrocho fiscal a trabalhadores africanos no século XIX, ainda sem data para o lançamento. “Pretendo produzir muito ainda”, disse ele em entrevista ao CORREIO, por e-mail.

Autor de livros como A Morte é uma Festa e Rebelião Escrava no Brasil: a História do Levante dos Malês em 1835 (ambos pela Companhia das Letras), Reis é formado em História pela Universidade Católica do Salvador, tem mestrado e doutorado pela Universidade de Minnesota e diversos pós- doutorados, que incluem a Universidade de Londres, o Center for Advanced Studies in the Behavioral Sciences, da Universidade Stanford, e o National Humanities Center.

Bastante aplaudido durante a última edição, em julho, da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde participou da mesa Fora de Série, com a escritora cearense Ana Miranda, ele afirmou querer sua identidade reconhecida como historiador, e não como romancista.

Com o livro A Morte é uma Festa, João Reis venceu o prêmio Jabuti em 1992. O trabalho  trata, de maneira detalhada, sobre o levante que terminou na destruição do recém-inaugurado cemitério do Campo Santo, em Salvador, em 1836. Se você nunca ouviu falar no episódio que ficou conhecido como Revolta da Cemiterada, a leitura do livro é obrigatória.

Nesta entrevista, ele fala sobre a escravidão contemporânea, os novos projetos e sobre a Universidade Federal da Bahia (Ufba), onde ingressou em 1979 como professor. Confira:

O senhor foi bastante aplaudido na mesa Fora de Série, na última Flip, quando falou da necessidade de reparação e ao citar a escravidão contemporânea. O que Salvador, que é uma cidade negra, oferece em termos de reparação cultural ou reparação desse passado escravagista? O que deveria oferecer?

A cultura negra há algum tempo vem sendo considerada como o que há de mais típico da “baianidade”. Mas isso coexiste com o racismo, a desigualdade, a falta de infraestrutura em comunidades predominantemente negras, com a violência policial e intracomunitária de que é principal vítima a juventude negra etc. Acontece em todo o Brasil, a propósito: 77% das vítimas de homicídio são negras, enquanto a população negra é cerca de 51%, uma considerável desvantagem de 26%! Mesmo na área da cultura, há sinais sombrios: penso no candomblé, alvo constante da intolerância e da violência religiosas, e vejo pouco ser feito quanto a isto pelas autoridades constituídas. Caberiam uma campanha de esclarecimento e uma política de investigação sistemática e punição desses crimes.

Há uma naturalização da posição que se espera ver ocupada por eles e elas na sociedade, apesar de um modesto movimento de ascensão social nas últimas duas décadas, que as políticas da desigualdade deverão barrar.

O livro do ator Lázaro Ramos, que também esteve na Flip, trata de questões como a diferença de abordagem da polícia a brancos e pretos (Na Minha Pele). No Diário Íntimo, Lima Barreto fala sobre ser confundido com um contínuo. Que paralelo poderia ser feito entre o racismo vivido por Lima, homenageado no evento , e o que ocorre hoje?

A resposta já está na pergunta. Os negros continuam a ser discriminados pela polícia - mesmo por policiais também negros - nas abordagens de rua e continuam a ser identificados como trabalhadores em ocupações de menor prestígio. A velha história do “lugar do negro”. Há uma naturalização da posição que se espera ver ocupada por eles e elas na sociedade, apesar de um modesto movimento de ascensão social nas últimas duas décadas, que as políticas da desigualdade deverão barrar.

O ranking Times Higher Education (THE) de 2017 não incluiu a Ufba entre as 81 melhores universidades da América Latina (a Unicamp está à frente da USP). Houve, ainda, recentemente, cortes nos recursos destinados à universidade. Não precisaríamos falar de ranking, há algo errado com a Ufba ou com o seu financiamento?

As universidades públicas brasileiras estão em crise financeira, não de capacidade ou criatividade. Nosso capital humano é imenso. O que já era deficiente, a falta de grana, piorou muito com o atual governo ilegítimo e impopular. A pesquisa está sendo afetada, estão nos planos do planalto uma carreira mais emperrada e salários congelados. O trabalho acadêmico, enfim, está cada vez mais acossado. A UFBA tem até navegado bem nessas águas agitadas, procurando administrar com inteligência e eficiência o pouco recurso disponível. Agora mesmo conseguiu contratar cerca de 70 professores visitantes simultaneamente, algo inédito. Mas diante das dificuldades enfrentadas nos dias que correm, fazer boa figura em rankings internacionais é a menor das preocupações.

Há um aspecto em que a UFBA e outras universidades poderiam avançar: a contratação de mais docentes negros

A despeito de já possuir grandes pesquisadores e cursos com nota máxima do MEC, o que transformaria a Ufba em um centro de excelência capaz de contribuir para mudanças de comportamento (como o combate ao racismo) e melhorias na educação?

A UFBA já é um centro de excelência nesses assuntos! O combate ao racismo e outros comportamentos odientos, bem como a luta pela educação gratuita de qualidade, fazem parte das preocupações de numerosos pesquisadores nos mais diversos departamentos e grupos de pesquisa da UFBA. E a universidade dialoga o tempo todo tanto com os governos, quanto com os movimentos sociais. Não somos um corpo isolado da sociedade. Mas há um aspecto em que a UFBA e outras universidades poderiam avançar: a contratação de mais docentes negros. Não me pergunte como isso deve ser feito, mas o problema de subrepresentação é real. Há modelos fora do Brasil de contratação diversificada que poderiam inspirar uma discussão.

O senhor vem trabalhando em mais uma pesquisa sobre um negro que viveu na Bahia. Como anda a realização do projeto? Quando pretende publicá-lo?

Vai demorar ainda um pouco. Trata-se de um personagem complexo, trazido da África como cativo, aqui virou comerciante e prosperou a ponto de tornar-se um homem rico. Uma exceção que confirma a regra da pouca mobilidade no interior da escravidão. A pesquisa já está quase terminada e o livro já ultrapassou cem páginas. Mas o projeto mais avançado e que está prestes a ser concluído é um livro sobre arrocho fiscal aos trabalhadores africanos em Salvador no século XIX. Os carregadores e sobretudo os vendedores ambulantes eram, como hoje, perseguidos, multados, suas mercadorias confiscadas. O livro conta, entre outras coisas, a luta desses africanos escravizados e forros contra os fiscais municipais e os policiais provinciais. O tempo da escravidão parece não querer passar, não é mesmo?

Vivemos  a era das políticas públicas da desigualdade, não de reparação

Em uma entrevista recente, o senhor disse que é preciso mais políticas públicas, além das cotas raciais, para diminuir as desigualdades contemporâneas. O que falta exatamente?

Isso era o que estava pensando naquele dia. Infelizmente, o problema hoje é mais defender o que ainda existe e tentar recuperar o que está sendo velozmente perdido. As cotas têm dado certo e já convenceu até órgãos conservadores da mídia, como a revista Veja. Mas no passo conservador trilhado agora pelo Brasil, elas logo se tornarão alvo de Brasília. O governo já quer introduzir o ensino pago nas universidades. O combate às cotas não é novo e vem de grupos poderosos. O partido DEM, por exemplo, impetrou junto ao STF uma ADI (Ação Direta de Inconstitucionalidade) contra as cotas em 2009. Perdeu a causa no ano passado. O mesmo DEM entrou com uma ADI em 2012 contra a titulação das terras ocupadas por quilombolas. O STF vem adiando uma decisão a esse respeito. A nova reforma do ensino eliminou a obrigatoriedade de uma disciplina sobre história e cultura africanas e afro-brasileiras. Aliás, reformas como a trabalhista, a lei de terceirização, todo o chamado ajuste fiscal, entre outras medidas recentes, que precarizam o trabalho e as condições de vida, atingem em cheio as populações mais carentes, entre as quais estão muito bem representados os negros. Vivemos a era das políticas públicas da desigualdade, não de reparação.

Que balanço o senhor faria da sua obra? O que mais pretende concretizar?

Não parei pra fazer balanço de minha obra. Não me cabe fazê-lo, não lhe parece? Posso dizer que é obra inacabada porque pretendo produzir muito ainda. Tenho na gaveta centenas de páginas inéditas e pesquisa já feita para escrever até a próxima encarnação.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas