‘Fábrica de filhotes’: o que o caso dos shih tzus revela e como você é responsável por isso

bahia
03.09.2020, 05:42:00
Atualizado: 03.09.2020, 09:47:47

‘Fábrica de filhotes’: o que o caso dos shih tzus revela e como você é responsável por isso

Comprar animais sem saber a procedência pode financiar crueldade que levou 66 filhotes a serem apreendidos nesse final de semana

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Uma ‘fábrica de filhotes’ pode estar por trás do cenário de terror que quatro agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) encontraram, na última sexta-feira (28), em um carro que saiu de Goiânia (GO) com, pelo menos, 69 filhotes e uma cadela adulta da raça shih tzu. Os animais eram vítimas de maus-tratos e tinham o destino de serem vendidos em petshops de Salvador, Petrolina e Recife.  

“Para ter essa quantidade de filhotes na mesma idade, deve ter mais de 50 fêmeas reproduzindo. Tem que descobrir onde está a origem desses animais. O grande problema está lá. O pet shop tem seu erro por comprar num lugar irregular, mas se não acabar com esse início, o problema vai persistir”, alertou o professor Rodrigo Bittencourt, da Escola de Medicina Veterinária da UFBA e da diretoria executiva do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado da Bahia (CRMV BA).   

Fábrica ou indústria de filhotes são os termos utilizados para denominar os criadouros ilegais de animais domésticos de raça, onde os animais adultos vivem em condições insalubres e são forçados a reproduzir no limite de suas forças, para dar lucro. Os filhotes são vendidos pela internet ou em pet shops. Foi assim em Diadema, na região do ABC paulista, em 2015, onde policiais e agentes da prefeitura encontraram num cortiço 146 cães de raças diversas criados no local. 

Não há uma estimativa oficial da quantidade de criadouros ilegais, ou mesmo de investigações sobre o assunto. No entanto, ativistas da causa animal sustentam que o problema mora na capital baiana. “Recebemos relatos dessa prática. Tem gente que cria os animais em lajes, bota a fêmea pra reproduzir todo cio e os filhotes são vendidos pela internet”, disse Patruska Barreiro, fundadora de uma ONG que leva seu nome que acolheu parte dos filhotes de shih tzu apreendidos pela PRF.  

Com a visibilidade que o caso ganhou e com o aumento da procura dos filhotes para adoção - só nessa segunda-feira (31), foram mais de 20 mil mensagens enviadas para o celular da ONG, 80% delas sobre a adoção -, Patruska afirma que aumentou o número de anúncios em sites de busca. E quem compra esses animais financia a prática.  

“As pessoas que compram baratinho podem financiar o crime. Ela vai adquirir um animal que conseguiu sobreviver para tantos outros que morreram no caminho por causa dos maus-tratos", afirmou a ativista.  

Patruska (direita) e a vetrinária (esquerda) seguram os filhotes de shih tzu (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Investigação 
O promotor de justiça Áviner Santos, da comarca de Itaberaba, disse que o MPBA instaurou um procedimento para investigar a possível fábrica de filhotes que exista em Goiânia. No entanto, ele não pode passar informações sobre a investigação, já que ela ainda está em curso. “Vamos tentar descobrir se há uma associação criminosa, inclusive com a participação, ou não, dos petshops que realizaram as compras”, afirmou.  

À Polícia Rodoviária Federal (PRF), o motorista afirmou que receberia R$ 100 por cada filhote transportado. Ele usava um veículo alugado e disse ter o costume de realizar essa viagem, pelo menos, duas vezes por mês. Ele chegou a ser detido, mas foi liberado “O motorista também apresentou um atestado sanitário de trânsito de cães e gatos e o MPBA requereu que o Conselho de Medicina Veterinária investigasse esse documento e a médica veterinária que o assinou”, disse o promotor.  

Segundo o professor da UFBA Rodrigo Bittencourt, uma das soluções para evitar o problema é que seja criada uma legislação que obrigue os criadouros de animais a serem registrados num conselho da categoria, que investigasse sua atuação. “Eles não se registram para não pagar impostos. Preferem funcionar à margem e isso cria uma situação de maus-tratos, crimes ambientais. As cadelas ficam em locais com pequeno espaço, sem nenhum cuidado e o que vale é o filhote”, disse. 

Adotar, ao invés de comprar animais, ou fazer uma compra consciente também é uma opção apresentada pelo médico veterinário. “Só vale adquirir um animal que você tenha certeza da sua procedência legal”, disse. E caso você conheça algum lugar que abrigue animais nessa situação, o caminho é denunciar.  

“Se for uma empresa registrada e legalizada, a denúncia pode ser feita no próprio conselho, que pode investigar. Mas se for um informal, é caso de polícia. Será feito um termo circunstanciado, caso a pessoa queira aparecer. Se não, ela faz uma denúncia anônima, liga para o 181. É importante apresentar provas, se possível. Foto, endereço, para facilitar o trabalho dos agentes”, explicou Bittencourt. 

Em nota, a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), disse que apoia o comércio de animais de estimação oriundos de criadouros legais e mantenedores de boas práticas. A entidade entende ser imprescindível a criação desses animais em ambientes adequados, e de acordo com normas sanitárias e de bem-estar. “Sem dúvida, precisamos acabar com atividades clandestinas e com os maus tratos aos animais. No entanto, isso acontecerá com produtos de qualidade, fiscalização, certificação de criadores, manual de boas práticas e ferramentas”, disseram.  

Bom exemplo 
O casal formado pelo administrador de empresas Denison Santos e a nutricionista Isabel Cardoso largaram o emprego para viverem da criação de animais, em sua casa. “Tudo começou há oito anos, quando adquirimos um pug para ajudar minha esposa num problema de depressão. Hoje vivemos exclusivamente deles e para eles”, explicou Denison.  

Isabel e Denison cuidam dos pugs com se fossem da família (Foto: arquivo pessoal)

Eles fundaram o canil Bella Dogs Pugs, que funciona no Imbuí e tem 27 cães, a maioria pugs. Eles não fazem parte do Conselho de Medicina Veterinária, já que não há essa obrigação legal, mas são filiados ao Clube Baiano de Cinofilia (CBC). “Sempre que faço um cruzamento, comunico para eles. De forma empírica, nós fazemos uma seleção para gerar a pureza da raça. Os filhotes são vendidos e continuamos os acompanhando. Nosso objetivo final não é a venda e sim o melhoramento genético da raça”, explicaram.  

Para Denison, a criação dos animais precisa ser disciplinada, mas é importante educar as pessoas sobre a causa animal. “Nesse mundo consumista, elas querem as coisas de qualquer jeito, mas não se preocupam de onde vem, o estado de sofrimento que o pet passou. Elas querem pagar menos, independente do estado de saúde”, afirmou.  

O canil Bella Dogs Pugs não vende seus aniamis pela internet ou petshops. “A maioria das compras feitas são por indicação de veterinários ou de pessoas que conhecem nosso trabalho”, afirmaram. Lá, um valor de um pug pode variar entre R$ 2,5 mil e R$ 5 mil. “Na internet, é possível encontrar o animal por até R$ 700”, disse. Nesses casos, não costuma haver garantia de pureza da raça do animal comprado, o que é dado através do pedigree, uma certidão de nascimento que atesta que o animal tem antepassados unicamente da sua raça. 

Para conhecer o trabalho desenvolvido pela instituição, procure o Instagram @belladogspugs.  

* Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas