Falta de público e de políticos marca Lavagem do Bonfim na Colina Sagrada

salvador
14.01.2021, 17:10:00
Atualizado: 14.01.2021, 17:39:13
Colina Sagrada ficou deserta (Nara Gentil/ CORREIO)

Falta de público e de políticos marca Lavagem do Bonfim na Colina Sagrada

Igreja foi isolada e somente membros da irmandade e da imprensa tiveram acesso

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“Gloria a ti neste dia de glória”, afirma o primeiro verso do Hino ao Senhor do Bonfim. E que dia mais atípico esse 14 de janeiro de 2021. A Colina Sagrada ficou deserta, a igreja sem fiéis, e até os políticos aderiram ao movimento ‘Quem tem fé fica em casa’ e manifestaram a devoção apenas pelas redes sociais.

Incrédulos, os santos observavam os bancos vazios da Basílica Santuário Nosso Senhor do Bonfim na primeira missa. Com as portas fechadas, o silêncio dentro do templo era ensurdecedor. Quando a celebração começou, às 7h20, apenas o padre e devotos da irmandade participaram, cenário bastante diferente do tumulto que se forma na festa tradicional. Dois fiéis assistiram do início ao fim a missa mais disputada do ano.

Era Cristóvão Britto e o filho dele, Bruno. Eles chegaram antes da missa começar, acompanharam toda a celebração e aguardaram pela imagem até o meio-dia. Pai e filho sentaram no primeiro banco e agradeceram pela saúde, pela graças alcançadas ao longo da vida, e pelos 73 anos que Cristóvão estava completando nesta quinta-feira.

“A vinda à Basílica é sempre motivo de muita alegria, porque aqui eu encontrei respostas para problemas, muitas vezes problemas de saúde, e hoje mais especialmente por ser meu aniversário”, contou. Ele é membro do conselho fiscal da Irmandade da Devoção do Senhor Bom Jesus do Bonfim, e disse que já teve pelo menos duas graças atendidas pelo santo.

Enquanto isso, o padre João de Deus ia destacando a importância da fé para superar grandes obstáculos, como a pandemia. A missa estava sendo transmitida pelas redes sociais da Arquidiocese, e alcançou 25 mil visualizações no YouTube e teve outros 300 espectadores simultâneos no Instagram. Para muitos fiéis, no entanto, o alcance dos pedidos foi além e repercutiu pelos mares e campos baianos.

Acesso
Do lado de fora, o perímetro entorno da Colina Sagrada estava fechado. Pórticos montados no pé do morro e controlados por guardas municipais e outros servidores públicos impediam o acesso do público às duas ladeiras que levam à igreja para evitar aglomerações. Sem querer arredar o pé muitos fiéis ficaram, mas para fugir do sol se abrigaram nas sombras das árvores no gramado.

Na parte de cima da Colina Sagrada, em frente à mansão da misericórdia, moradores que conseguiam se aproximar manifestaram a fé com orações de pé à frente da grade coberta de fitinhas ou de joelhos nos degraus do templo. Eles contaram que pediram pela graça divina, por justiça e por concórdia.

A praça estava vazia. O silêncio era tamanho que dava para ouvir o farfalhar do vento na copa das árvores, que só era interrompido pela passagem de som dos técnicos que preparavam o equipamento para o momento alto da festa. Um cenário que não lembrava em nada a agonia tradicional da Lavagem do Bonfim, quando é difícil encontrar um amigo em meio à multidão que se aperta para assistir a celebração.

A região estava tão vazia que a sensação era de que havia dois policiais militares para cada cidadão. Até que às 10h50 a imagem apontou na esquina, depois de sair da igreja da Vitória e de percorrer diversas ruas e pontos históricos de Salvador, ela subiu vagarosamente a colina. Houve um princípio de aglomeração na hora de passar pelos pórticos, mas logo Senhor do Bonfim surgiu radiante no carro dos bombeiros e seguiu até o interior da Basílica.

O reitor do templo, padre Edson Menezes, contou que viu no caminho muitas demonstrações de fé e que ficou emocionado com a devoção do povo. Ele disse que a festa ajuda a alimentar a confiança no santo. “É importante porque renova a nossa fé, a nossa esperança, e nos enche de coragem para enfrentar esse vírus que é invisível, mas é letal. O Senhor do Bonfim vai ao nosso encontro, ao encontro do povo para mostrar que ele tem poder, e que com ele nós venceremos”, afirmou.

Ele encerrou o evento com uma benção dentro da igreja, transmitida através da internet, quebrando a tradição de fazer esse ato na praça em frente ao templo. Antes, o padre fez um minuto de silêncio pelas vítimas do novo coronavírus, e no final deu três vivas a Senhor do Bonfim. 

Fique em casa
Para evitar a disseminação do novo coronavírus, muitos políticos pediram que o povo aderisse à campanha ‘Quem tem fé fica em casa’, e deram o exemplo. Eles não apareceram. Foi a quebra de uma tradição, porque além de ser uma manifestação de fé, a festa é vista também como um termômetro para os gestores, é o momento em que eles testam a popularidade. Agora, essa análise terá que ficar para 2022.

Esse seria o primeiro Bonfim de Bruno Reis (DEM) como prefeito. Ele avisou um dia antes da festa que em respeito às vítimas da covid-19 e ao restante da população não compareceria, mas fez uma postagem nas redes sociais pela manhã em que aparece tomando banho de folha de uma baiana na porta da Basílica.

“Na última Lavagem do Bonfim, fiz uma oração agradecendo por todas as bênçãos concedidas e pedi força para enfrentar as missões que viriam. Não imaginava que os desafios seriam tão grandes, mas agradeço a Deus por ter me dado sabedoria para saber enfrentá-los. Hoje, resgato a energia desse dia, no momento dessa foto, para renovar minha fé. Confio na proteção de nosso Senhor do Bonfim e sigo minhas orações para que nos livre de todos os males”, escreveu. 

O governador Rui Costa (PT) fez uma publicação parecida. “Quem tem fé fica em casa! Uma hora dessas eu já estaria na Igreja da Conceição da Praia, me preparando para caminhar até a Colina Sagrada, na Lavagem do Bonfim. Por causa da pandemia, na festa deste ano, quem tem fé fica em casa e vai apenas em pensamento!”, disse. Ele agradeceu pela saúde, família, e trabalho, e pediu bênçãos para os baianos. 

O ex-prefeito de Salvador e presidente do partido Democratas, ACM Neto, também usou as redes para manifestar devoção. “Hoje, o meu coração está na Colina Sagrada. Sinto falta da energia da multidão, da caminhada até a Igreja e daquele banho de folha que renova a alma. Mas sigo com a mesma fé e devoção em Nosso Senhor do Bonfim, agradecendo pelas bênçãos e pedindo que ele nos guie e nos proteja sempre!”, afirmou.

Pouco depois de a imagem chegar à Basílica surgiu a notícia de que o Ministério da Saúde finalmente definiu uma data para a vacinação dos brasileiros contra o novo coronavírus. Em Salvador, ela vai começar no dia 20 de janeiro. Foi o bastante para muitos fiéis associarem a iniciativa como uma ação de Senhor do Bonfim e reafirmarem que ele é a sentinela avançada e a guarda imortal da Bahia.

As homenagens continuam à tarde com uma missa às 17h.

Confira a programação:

Sexta-feira (15)

19h – 8ª noite da novena

Homenagem aos profissionais e trabalhadores da área da saúde

Subtema: Confiando na proteção do Senhor do Bonfim, prosseguiremos acreditando no poder da oração e na atuação da ciência (Mt 21,22).

Sábado (16)

8h às 17h - Drive Thru Solidário para recolher alimentos não perecíveis, material de limpeza e higiene. Local de entrega: Sede do Projeto Bom Samaritano.

19h -  9ª noite da novena

Homenagem aos trabalhadores da área de segurança pública e privada.

Subtema: Confiando na proteção do Senhor do Bonfim, prosseguiremos experimentando a sua infinita misericórdia

Domingo (17) - Dia da Festa

5h –  Alvorada  -  Apenas repique dos sinos (não haverá alvorada por respeito e atenção aos doentes internados nos hospitais próximos à Colina Sagrada).

Horário das Missas: 5h40, 7h30, 9h, 10h30, 15h.

10h30min - Missa Solene presidida pelo Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Cardeal Dom Sergio da Rocha, que, ao final da Celebração Eucarística dará a Bênção Apostólica com Indulgência Plenária.

15h – Saída da imagem peregrina do Senhor do Bonfim, em carro aberto, da Basílica para percorrer as ruas da Cidade Baixa e ser homenageada ao passar pelas portas das Igrejas católicas que compõem a Forania 4, região de Itapagipe (Nossa Senhora da Penha da França, Nossa Senhora da Boa Viagem, Nossa Senhora da Piedade, Nossa Senhora dos Mares e São Jorge).

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