Faltou grana: 85% dos baianos não viajaram para lugar nenhum em 2021

bahia
07.07.2022, 05:30:00
Visitantes no Pelourinho: Bahia ocupa terceiro lugar como principal destino dos turistas brasileiros (Marina Silva/CORREIO)

Faltou grana: 85% dos baianos não viajaram para lugar nenhum em 2021

Pesquisa do IBGE mostra que viagens para a Bahia caíram 33%, mas o estado ainda é o terceiro principal destino escolhido por visitantes no país

Perda de renda e restrições de circulação por conta da pandemia da covid-19 fizeram com que baianos tirassem as viagens da lista de prioridades em 2021. No ano passado, ninguém viajou em quase nove de cada 10 domicílios baianos, o que representa 85,4% de todas as residências pesquisadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A quantidade de pessoas que não viajaram para nenhuma outra cidade aumentou 8,1 pontos percentuais em comparação com 2019. 

Assim como ocorreu em todo o país, a falta de dinheiro foi o principal motivo para que os baianos ficassem em casa. A justificativa foi dada por moradores de 31,4% do total de 1,3 milhão de residências onde não houveram viagens. A questão da renda figura em primeiro lugar desde que a pesquisa sobre turismo nacional em domicílios começou a ser feita, em 2019. Na segunda posição, aparece a não necessidade de viajar (31%). 

Para o professor de economia Raimundo Sousa, a pandemia não impactou nas viagens somente por conta do receio de contágio da doença, mas também por fatores econômicos. “Existem fatores próximos de nós, como a inflação, que faz com que as pessoas tenham perda do poder aquisitivo. Também tem o desemprego, que vem se agravando desde o início da pandemia e impacta em menores salários”, explica. 

Passagens aéreas mais caras por conta dos combustíveis também ajudam a explicar os motivos para que as pessoas tenham viajado menos em 2019. Segundo o IBGE, nos últimos 12 meses finalizados em maio, os bilhetes registraram alta de 141% em Salvador e Região Metropolitana. Apesar da pesquisa não abranger viagens internacionais, Raimundo Sousa afirma que o real desvalorizado também implica em diminuição do turismo para o exterior. 

“O câmbio desvalorizado acaba encarecendo as passagens e os custos de hospedagem, o que acaba influenciando”, diz. 

Ainda segundo os resultados da pesquisa, o motivo “outros” para não viajar foi o que mais ganhou importância no estado. A razão saltou de 2% para 20,7% entre 2019 e o ano passado. Para a supervisora de disseminação de informações do IBGE, Mariana Viveiros, essa resposta abrange as diversas razões ligadas à pandemia. 

“Tanto em 2020 como em 2021, apareceram bastante nas respostas os motivos relacionados à necessidade de isolamento social. Isso não significa que a pessoa esteve doente, mas que estava mantendo o distanciamento social por causa da pandemia”, explica. 

Planos interrompidos por conta do coronavírus fizeram com que a estudante Ana Clara Ribeiro, 21, e a família perdessem passagens para a cidade de Ushuaia, na Argentina. Ela lembra que iria viajar com o pai e o irmão em julho de 2019, mas um imprevisto no aeroporto fez com que eles fossem impedidos de embarcar para o destino conhecido como “fim do mundo”. 

“Como a viagem é dentro do Mercosul, é preciso estar com a identidade ou passaporte, só que não nos atentamos a isso. O passaporte do meu pai tinha acabado de vencer e ele estava só com a carteira de motorista e, por isso, não conseguimos viajar”, relembra Ana Clara. 

De início eles não achavam que sairiam no prejuízo, pois poderiam usar créditos para fazer outra viagem dentro de um ano. Mas aí veio a pandemia. “Resolvemos viajar no meio de 2020 porque queríamos ir na mesma época para ver a neve e fazer a mesma programação. Só que com a pandemia não deu certo. Tentamos entrar em contato com a empresa para tentar um acordo, mas não conseguimos”, conta. No final das contas, a família não viaja a turismo desde 2017 e ainda teve um prejuízo de cerca de R$6 mil. 

Receita
Viajar implica em gastos dos mais diversos tipos. De hospedagens à alimentação, passando por transporte e passagens. Mas quem veio para a Bahia no ano passado economizou, se comparado com o que foi gasto pelos turistas em 2020. O recuo de 7,6% representou perda de R$90,1 milhões.

Mesmo assim, os valores que os viajantes gastaram no estado nos dois primeiros anos da pandemia foi o segundo mais alto do país, perdendo apenas para São Paulo. Foram mais de R$2,2 bilhões de reais injetados nos diversos setores que formam o turismo. Entre 2020 e 2021, a cada R$10 gastos com turismo no país, R$1 ficou no estado. 

Também durante o período, a Bahia ocupou o terceiro lugar como principal destino dos turistas brasileiros, ficando atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais. Para o secretário de Turismo do estado, Maurício Bacellar, isso indica que o setor está tão aquecido como no pré-pandemia. No entanto, as viagens que tiveram o estado como destino final caíram 33,6% nos últimos dois anos. 

“A pesquisa comprova o que temos medido no nosso observatório de dados, que a atividade turística da Bahia hoje é equivalente a 2019, ano anterior à pandemia. Isso prova que o plano de retomada de turismo está alcançando seu objetivo de atrair pessoas”, afirma Maurício Bacellar. 

Apesar dos percalços  impostos pela disseminação da covid-19 nos últimos dois anos, o vice-presidente da Associação Brasileira das Agências de Viagens (Abav-BA), Jorge Pinto, também enxerga com bons olhos a retomada do setor. “Nós continuamos mantendo o terceiro lugar como destino nacional, o que é explicado pela divulgação que foi feita da Bahia como um lugar seguro na questão da saúde”, diz.   

Viagens para tratamento de saúde foram impulsionadas na pandemia
A professora Suelly Caldas, 59, levou a sério o isolamento social durante os momentos mais árduos da pandemia. Tomava cuidados ao sair de casa e deixou as viagens de lado por um tempo. Mas, quando menos esperava, o diagnóstico de um nódulo na adrenal exigiu que ela viajasse para São Paulo para se submeter a uma cirurgia robótica de retirada. O caso foi em setembro do ano passado. 

“Uma coisa é fazer uma cirurgia em casa e perto da família, a outra é ter que viajar. Ainda tinha a questão da covid-19 e o medo do contágio, mas graças a Deus no final deu tudo certo”, relembra. Felizmente, a cirurgia foi um sucesso e Suelly voltou para casa após ficar 20 dias em recuperação. 

Apesar do procedimento que a professora passou não ter sido consequência da pandemia, a pesquisa divulgada pelo IBGE aponta que dentre as viagens para fins pessoais realizadas pelos baianos em 2021, o motivo mais citado foi tratamento ou consulta médica. Viagens desse tipo foram citadas em 35,7% dos domicílios com viagens realizadas, o que representa 269 mil casas. 

O número demonstra um aumento de 7,5 pontos percentuais em relação às viagens por conta da saúde feitas em 2019. A supervisora do IBGE, Mariana Viveiros, explica que grande parte dessas locomoções são feitas dentro do próprio estado da Bahia, devido a forma com que o sistema de saúde é organizado por aqui. 

“Desde antes da pandemia, as viagens para tratamentos de saúde já eram mais importantes na Bahia do que no Brasil como um todo. O estado possui polos que atraem a população para os tratamentos, o que ficou mais evidente durante a pandemia”, explica. Salvador e Região Metropolitana, Vitória da Conquista e Feira de Santana são alguns dos locais que atraem pessoas nesse sentido, segundo Mariana. 

*Com a  orientação da subchefe de reportagem Monique Lôbo.

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