Fiéis viraram instrumento para reconhecimento de milagre e beatificação de Irmã Dulce

bahia
26.05.2014, 09:14:00
Atualizado: 26.05.2014, 11:56:43

Fiéis viraram instrumento para reconhecimento de milagre e beatificação de Irmã Dulce

Por várias décadas, Irmã Dulce acordava diariamente às 5 horas da manhã e não tinha horário para dormir. Alimentava-se mal, sofria de enfisema pulmonar, doença crônica, na qual os tecidos dos pulmões são gradualmente destruídos.  Em 1934, chegou a ser operada da garganta, o que deixou seu tom de voz baixo pelo resto da vida.

Durante os períodos em que estava adoentada ou precisando de ajuda,  não abria mão da devoção a Santo Antônio. Além de não se alimentar direito, passou quase um mês apenas a colheradas de Coca-Cola.

Irmã Dulce, se estivesse viva, completaria hoje 100 anos



O fisioterapeuta Carlos José de Carvalho, em 1985,  foi trabalhar no hospital Santo Antônio. Coube a ele dar assistência respiratória à religiosa, que morreu em 13 de março de 1992 em decorrência do agravamento da enfisema pulmonar. Carlos lembra que Irmã Dulce acabava de tomar café e ia para a capela rezar, ia visitar os doentes. “A equipe médica, por causa do estado de saúde dela, proibia, mas mesmo assim ela ia”.

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Ele  acredita que a sobrevivência dela era mais que um milagre. “Com o estado de saúde que ela tinha,  ainda conseguia sair à noite com um motorista chamado “Cabeça”, numa Kombi velha, e circulava a cidade para pegar doentes debaixo das lajes e trazia para o hospital. Quando não tinha mais espaço, ela botava colchões para os doentes ficarem. Era melhor do que ficar na rua, aqui tinha medicamento, café. Eu cansei de me ajoelhar para atender paciente no colchão. Fazia isso com a maior felicidade do mundo”.

Os problemas respiratórios de Irmã Dulce não foram limitadores para ela cumprir uma promessa por quase três décadas. Sua irmã Dulcinha estava gravemente doente. Preocupada, Irmã Dulce fez uma promessa a Santo Antônio que, se ele curasse a irmã, ela dormiria sentada numa cadeira o resto da vida.

Com a graça alcançada, ela dormiu sentada na mesma cadeira até os últimos anos da vida quando teve que ficar internada na UTI. A funcionária pública Cláudia Cristiane Santos, então com 31 anos, gestava seu segundo filho quando, sem saber, virou o instrumento para o reconhecimento do milagre e a  beatificação de Irmã Dulce pela Igreja Católica.

Naquele dia  12 de janeiro de 2001,  na Casa de Saúde e Maternidade São José, na cidade de Itabaiana, no estado de Sergipe, Cláudia deu à luz o pequeno Gabriel, através de um parto normal, depois de um pré-natal feito com regularidade. Nenhuma anomalia havia sido identificada.

Mas, após o parto, as coisas começaram a mudar. “Está sangrando muito...  Meu Deus, ela está sangrando muito...”, observava o  obstetra Antônio Cardoso Moura ao identificar um quadro hemorrágico na paciente. Iniciou, então, três procedimentos cirúrgicos para conter o sangramento que durou 18 horas.

Diretora médica da maternidade na época do parto, a Irmã Augustinha Ferreira Santos estima que pelo menos 20 bolsas de hemoderivados foram usadas na paciente. “O sangue não fixava no corpo dela. Tecnicamente falando, a única esperança naquele momento era uma UTI, mas a maternidade não tinha”.

Distante 50 quilômetros da maternidade, em Aracaju, capital de Sergipe, o padre José Almí de Menezes – que já havia sido pároco da cidade de Malhador, onde Cláudia residia - atende uma ligação de sua irmã, na casa paroquial, relatando o sofrimento da funcionária pública. “Naquela hora, peguei uma foto de Irmã Dulce que eu tinha guardado comigo havia vários anos e comecei a rezar mentalizando a salvação daquela mulher que agonizava depois de ter dado o dom da vida ao seu segundo filho”, relembra o padre. Enquanto o padre clamava a intercessão divina, pelas mãos de Irmã Dulce, a hemorragia cessou. Chamada de miraculada, a pessoa que é objeto de um milagre, Cláudia, hoje com 45 anos, sequer conhecia a freira . “Nunca tinha ouvido falar nela”.

O caso dela foi investigado por uma junta médica e também pelo Vaticano que, ao reconhecer a cura milagrosa pela intercessão,  concedeu o título de beata com o nome de Bem-Aventurada Dulce dos Pobres.

*Trechos inéditos do livro Irmã Dulce: Os Milagres pela Fé, escrito por jornalista do CORREIO, sobre a vida da beata baiana


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