'Frases de Mainha - a Peça' e a divertida relação de uma mãe tipicamente soteropolitana e seu filho eternamente adolescente

textão
26.11.2017, 16:18:38
Atualizado: 27.11.2017, 05:27:08

'Frases de Mainha - a Peça' e a divertida relação de uma mãe tipicamente soteropolitana e seu filho eternamente adolescente

Silvia Maria Nascimento*

Thiago Almasy e Sulivã Bispo em cena como Junior e Mainha no Teatro Eva Herz (Foto: Erick Paz/Div) 

Há cerca de três anos, no Facebook, surgiu uma fanpage em que os administradores pediam aos seguidores que enviassem frases que ouviram de suas mães ao longo da vida. Foi um post muito interessante e engraçado de pessoas compartilhando frases em comum comprovando o que todo mundo diz: "mãe é tudo igual, só muda de endereço".

O resultado do trabalho de captação de frases e posts na fanpage, após algum tempo, veio em forma de uma webssérie no Youtube que claro, como não poderia deixar de ser pelo tema, ganhou imediatamente os internautas. Em cenários reais, os personagens Mainha e "Júnio" (como a pronúncia em bom baianês, embora o nome correto seja Junior), e os cíclicos Keylane, Meire, Cíntia (a vizinha fofoqueira), entre outros, começaram a mostrar o jeito de ser de uma família tipicamente soteropolitana.

"Mainha" e seu gestual: quem nunca viu a mãe se bolir toda pra enfatizar uma repreensão?

A aceitação foi tanta - há vídeos com quatro milhões de visualizações - que os idealizadores do canal decidiram por um voo mais alto: tiraram os personagens da telinha dos smartphones e notebooks, e os trouxeram para a vida real com "Frases de Mainha - a Peça", em cartaz neste mês de novembro no Teatro Eva Herz (Livraria Cultura, no Salvador Shopping). O sucesso se repetiu: o espetáculo estreou com ingressos esgotados, o mesmo acontecendo com as duas sessões extras que foram abertas a pedido dos fãs.

Para vocês terem uma ideia, saí da peça às 18 horas, na primeira matinê extra, no último sábado, 18, e vim fazer este post após conferir no site de vendas que ainda haviam dois lugares disponíveis para o próximo sábado, 25. Ao terminar o texto, quando fui printar de novo a tela, os lugares haviam sumido.

Final de espetáculo: olha a selfie! (Foto: Silvianasci/salvadoremumdia)

Bom, fui assistir à peça esperando um apanhado do que já conhecia dos episódios da internet (aqui), em esquetes curtos e muitas piadas. Surpresa. Com direção de Tiago Romero, os dois personagens passeiam no palco a vida típica de uma mãe solteira, negra, baiana, com seu filho pós-adolescente, fazendo a plateia rir do início ao fim, passando por alguns poucos mas expressivos momentos de emoção (porque cada piada vai fazer o espectador lembrar de, pelo menos, alguma coisa de sua vida em família com sua mãe). Não sei vocês, mas me vi repetindo toda hora "é assim mesmo", porque a relação mãe/filho está toda lá.

O humor surpreende porque não se vale, como é usual em vídeos da internet, da depreciação da pessoa e de forma alguma da relação mãe/filho. Ao contrário, está implícita a realidade de boa parte das famílias brasileiras cujo chefe é a mulher, que se vira pra criar sua prole muitas vezes sozinha. Mainha, também, não é uma mulher qualquer: tipicamente baiana, no gestual, movimentos, no vestir e no palavreado (há um vídeo que dá a tradução da maioria dos termos usados como "espótico", "intiorgo", entre outros - procure na fanpage que acha, aproveite e vá revendo alguns vídeos pra se familiarizar, se ainda não conhece), mas dona de si, que trabalha, tem seu carro, vai à academia, viaja, presenteia o filho com smartphone de última geração, em suma, a mulher empoderada.

Prepare-se para rir muito e se emocionar também. É um espetáculo pra todas as idades sem susto, uma peça muito divertida, com belos cenários, figurinos (Mainha é elegante no estilo dela) e trilha sonora. O Teatro Eva Herz, de pequeno porte, permite uma interação mais próxima com o palco, sem perda para o espetáculo. Sulivã Bispo, na pele de Mainha, embora bem pouco, consegue interagir com 'cacos' às intervenções da plateia, que conhecedora da história da webssérie não hesita em se meter na conversa de mãe e filho, levando, claro, "aquela olhada' que só Mainha sabe dar na hora de repreender. Nada que perturbe o andamento do espetáculo.

Antes de continuar a leitura, dá uma olhada no city tour do "Frases de Mainha":

Mas por que um blog de turismo recomenda a peça? Em primeiro lugar, porque é um blog de lazer e cultura também. Em segundo, porque entre os vídeos da webssérie, há alguns em que os personagens passeiam pela cidade (você vai ver pontos turísticos, lugares típicos como a feira de São Joaquim, praias, shoppings) e pela Bahia. Em terceiro, por que a peça é um mergulho cultural em uma família tipicamente soteropolitana. Posso garantir: é daquele jeito mesmo!

Sulivã Bispo, como Mainha, encarna com perfeição a mulher baiana bem resolvida - quer dizer, não em relação ao filho, do qual não larga de jeito nenhum - que cria sozinha a prole, trabalha, dona de si e de sua casa, sogra bem típica, mãe, mais ainda. Tiago Almasy encarna o eterno adolescente ("já passei dos 20 anos, Mainha") acomodado, que quer sair, mas não sai da barra da saia da mãe de jeito nenhum. Em algum momento você se verá ou verá seus filhos neles.

Conheça os criadores do "Frases de Mainha

No ano passado, no Dia da Consciência Negra, a equipe do "Frases de Mainha" fez este vídeo para o site A Tarde, resumindo o objetivo do projeto. Veja e conheça a equipe:

O canal do Youtube e a fanpage Frases de Mainha, com os atores Sulivã Bispo (Mainha) e Thiago Almasy (Júnior), tem produção de conteúdo e gestão de Erick Paz e Caio Cezar Oliveira.

Erick e Caio, os criadores

O designer e videomaker Erick Paz e o Relações-Públicas Caio Cezar Oliveira são baianos, nascidos em Salvador, e sócios em uma empresa de comunicação integrada. O projeto começou de uma brincadeira de Caio que, com saudade da mãe que estava viajando, passou a postar, a partir do dia 22 de fevereiro de 2015, em seu próprio perfil do Facebook, frases ditas por ela, divertindo os amigos que curtiam e compartilhavam a brincadeira.

"Usamos a musa inspiradora da página, que é Carla Swamy (mãe de Caio). O primeiro post tem uma foto dela", explica Erick. Das postagens de Caio, surgiu a ideia de criar uma fanpage própria. "Começamos só pelo Facebook, depois Instagram e por último o Youtube. O sucesso da página aconteceu depois de cinco meses ainda só com as frases, que chegavam do Brasil todo", conta. Ao criar os textos, também se inspiravam em Lucimary Sousa, mãe de Erick, procurando evitar situações e uso de termos que tanto ela quanto Carla não pudessem ouvir nem gostassem.

O nome "Frases de Mainha" foi escolhido por ser bem nordestino e por falar diretamente com os filhos e as mães. "Depois de quase um ano só vivendo de frases e enquetes, eu e Caio tivemos a ideia dos videos". Com roteiro pronto, chamaram o ator, Thiago Almasy, que, por sua vez, "deu a ideia de chamar Sulivã (Bispo), que era a cara da Mainha que queríamos".

De acordo com Erick, a resposta do público sempre foi muito positiva, de gente de várias partes do Brasil e brasileiros que vivem no exterior. Há vídeos que alcançaram a marca de quatro milhões de visualizações. Os textos saem de forma coletiva, mas alguns episódios ficaram por conta de Thiago apenas, com os demais adaptando com improvisos e surpresas na hora da gravação.

Sobre a personagem Mainha, ele define: "é meio camaleão. Ela se adapta de acordo com o que vai vivendo com o filho, mas, não deixa de lado sua independência. Ela trabalha e não é pouco!" Já o Junior... somos todos nós, que já aprontamos muito e ainda continuamos aprontando com as nossas mães".

Finalmente, a pergunta que não quer calar: qual o verdadeiro nome de Mainha? "Quando fiz o primeiro roteiro, só coloquei Mainha. Mas, depois, num consenso, decidimos deixar o nome dela assim mesmo, por se caracterizar como toda e qualquer mãe do mundo".

Agora que terminou, como aqui falamos de turismo, um pouco da Feira de São Joaquim com Mainha e Junior

*Silvia Maria Nascimento é jornalista, pós-graduada em Gestão da Marca e Comunicação Estratégica pela Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Texto originalmente publicado aqui

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