Fraude nas loterias desviou R$ 60 milhões; Edílson Capetinha é investigado

salvador
11.09.2015, 06:23:00
Atualizado: 11.09.2015, 07:48:48

Fraude nas loterias desviou R$ 60 milhões; Edílson Capetinha é investigado

O ex-jogador é suspeito de utilizar sua conta bancária para movimentar valores no esquema

O ex-jogador Edílson da Silva Ferreira, o Capetinha, 44 anos,  é acusado pela Polícia Federal (PF) de integrar uma organização criminosa que fraudou o pagamento de prêmios das loterias da Caixa Econômica Federal.

O ex-jogador da Seleção Brasileira é suspeito de utilizar sua conta bancária para movimentar valores referentes a um esquema que, segundo estimativa da PF, teria desviado aproximadamente R$ 60 milhões em pouco mais de um ano.

O ex-atleta nega participação na falcatrua. Ontem, a PF deflagrou uma operação na Bahia, Goiás, Sergipe, São Paulo e Paraná, além do Distrito Federal, para desarticular a quadrilha.

Em Salvador e Lauro de Freitas, a Operação Desventura cumpriu três mandados de prisão temporária, um de prisão preventiva, seis mandados de busca e apreensão e oito conduções coercitivas.

Três dos mandados de prisão foram cumpridos em Salvador, onde também foram apreendidos cinco carros de luxo, supostamente adquiridos com dinheiro do esquema - um Hyundai Vera Cruz com placa de Sergipe, um Fiat Freemont, um Ford Fusion, um Audi A5 e uma Mitsubishi L200 (ver ao lado).  

Os presos na Bahia foram levados para a Cadeia Pública, no Complexo da Mata Escura, ainda ontem. Já as pessoas conduzidas sob coerção prestaram depoimento na sede da Polícia Federal, no Comércio, e foram liberadas em seguida.


Modus operandi
O esquema realizava a validação de bilhetes premiados falsos referentes a prêmios não sacados pelos verdadeiros ganhadores, com a ajuda de gerentes da Caixa e servidores federais com acesso a informações privilegiadas em Brasília. Os servidores sabiam, por exemplo, onde estavam os bilhetes premiados ainda não sacados, restando oito dias para que perdessem a validade. A partir daí, manobravam para forjar um novo cartão.

Agentes chegam à sede da PF, em Salvador, com material apreendido (Foto: Marina Silva)

Era aí que entravam os gerentes, que através das suas senhas, disponibilizavam o pagamento dos prêmios, auxiliados por correntistas que têm grande movimentação financeira. Eles eram o elo entre os servidores e os gerentes.

Edílson teria entrado em contato com dois gerentes, segundo a PF. Ao CORREIO, o advogado do ex-atleta, Thiago Phileto, informou que o ex-atleta “está tranquilo” e que não tem envolvimento com o esquema. “Parece que tem uma pessoa que tentou se aproximar dele e está envolvida na investigação. Não é parente nem namorada”, adiantou Phileto.

O ex-atleta estava em Juazeiro e voltou a Salvador, ontem, mas não foi encontrado para comentar o assunto. Mandados de busca e apreensão foram cumpridos na casa dele, no Horto Florestal. “Eles entraram, foram muito educados. Pegaram uns HDs e foram embora”, confirmou o advogado.

Ele negou que  Eduardo Pereira dos Santos, preso em Lauro de Freitas por suposta participação na fraude, seja parente de Edílson. De acordo com o delegado Thiago Sena, da Superintendência da PF em Salvador, 50 agentes da Bahia participaram da operação. Os mandados de prisão foram cumpridos em Piatã, Retiro e Tancredo Neves.

Morte de integrante
Em entrevista coletiva na manhã de ontem, em Goiânia (GO), a PF revelou que, além do recrutamento de gerentes da Caixa, a quadrilha também se utilizava de hackers e programas maliciosos na internet para roubo de senhas.

Ao todo, os 250 agentes foram às ruas com o objetivo de cumprir 54 mandados judiciais - cinco de prisão preventiva, oito de prisão temporária, 22 conduções coercitivas e 19 de busca e apreensão. Os envolvidos na fraude vão responder pelos crimes de organização criminosa, estelionato qualificado, tráfico de influência, corrupção ativa e passiva, falsificação de documento público, evasão de divisas.

Durante as investigações, um dos integrantes da quadrilha chegou a ser preso durante as investigações, ao tentar aliciar um gerente da Caixa para sacar um prêmio de R$ 3 milhões. Alguns dias após ter sido liberado pela polícia, ele foi executado. As circunstâncias do crime ainda estão sendo investigadas.

Cinco carros de luxo, adquiridos com dinheiro da fraude e apreendidos durante operação, no pátio da PF
(Foto: Marina Silva)

Além disto, a investigação também identificou a atuação de um doleiro na quadrilha, fraude na utilização de financiamentos do BNDES e do Construcard, além da liberação irregular de gravame de veículos. 

Os valores dos prêmios da Mega-Sena, Loteca, Lotofácil, Lotogol, Quina, Lotomania, Dupla-Sena e Timemania não sacados seriam destinados ao Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Somente em 2014, R$ 270,5 milhões em prêmios deixaram de ser resgatados por ganhadores de loteria da Caixa.

Ainda de acordo com a PF, a investigação conta com o apoio do Setor de Segurança Bancária Nacional da Caixa. Em nota, a instituição informou que abrirá processos disciplinares para investigar internamente as responsabilidades e o envolvimento dos empregados do banco. Ontem, oito servidores com acesso a informações privilegiadas prestaram depoimento.

Outras diabruras: pensão, folia, CNH, tiro para o alto...
Apesar de ser um jogador consagrado, com participação na campanha do pentacampeonato mundial da Seleção Brasileira, em 2002, e do Mundial de clubes com o Corinthians, em 2000, Edílson Capetinha deu algumas pisadas de bola fora de campo. Em alguns dos casos acabou sendo, inclusive, detido pela polícia, como em 2012 e 2014. No rol de polêmicas, também constam um cartão amarelo dos organizadores do Carnaval de Salvador e outro vermelho, quando agrediu um jornalista e teve de pagar uma indenização. 

Uma das detenções em questão ocorreu em março do ano passado: o empresário e ex-atleta, que também atuou por Bahia e Vitória, foi detido em cumprimento a dois mandados de prisão em aberto expedidos pela Justiça do Distrito Federal. A prisão foi feita enquanto o Capeta passava pela Avenida Garibaldi. 

Após dois dias preso no Complexo dos Barris, quitou as dívidas de pensão - com a ajuda de parentes e amigos - e foi liberado.

Um ano antes, Edílson se envolveu em outra polêmica, e acabou sendo investigado pelo Ministério Público (MPE). A ex-mulher e sócia dele no bloco Bróder, a empresária Ivana Solon acusou o ex-atleta de vender duas vezes um lugar na fila do Carnaval. A confusão, que envolveu a cantora Claudia Leitte e o grupo Timbalada, que compraram a mesma vaga, rendeu uma suspensão ao bloco.

Outra confusão foi registrada dez anos antes, quando ele atuava pelo Vitória: o Capetinha disparou um tiro para o alto, na concentração. Depois, pediu desculpas e classificou a atitude como “brincadeira de mau gosto”.
 
Por fim, em 2013, durante uma pelada, agrediu o jornalista Rogaciano Medeiros, e aceitou pagar uma indenização de R$ 6 mil para se livrar do processo.


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