Gatos são envenenados e mutilados no Engenho Velho de Brotas

salvador
06.08.2020, 10:00:00
Conjunto Habitacional abriga 100 gatos ((Arisson Marinho/CORREIO))

Gatos são envenenados e mutilados no Engenho Velho de Brotas

Mais de 100 animais foram atacados em conjunto habitacional

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De maio para cá, os 100 gatos abrigados pelo grupo de proteção do Conjunto Habitacional Reitor Edgar Santos, localizado no Engenho Velho de Brotas, têm sofrido ataques constantes realizados com envenenamentos e agressões. Durante esse período, 11 felinos foram alvos dos ataques, sete deles morreram e quatro sobreviveram graças ao socorro imediato dos protetores que cuidam dos bichos. O grupo de proteção responsável pelos animais, que é formado por vinte moradores do conjunto, já registrou boletim de ocorrência e pede ajuda da administração do local e da Secretaria de Segurança Pública.

Os animais, que são alimentados e recebem tratamento veterinário, vivem na praça do Edgar Santos. Lá, recebem cuidados quando são encontrados após um abandono e são direcionados para adoções responsáveis. O espaço é uma espécie de casa de acolhimento para os bichos enquanto interessados em adoções não aparecem. Durante os quatro anos em que o grupo cuida dos animais, os ataques existiam, mas eram raros e intercalados por um grande período de tempo, coisa que mudou desde o mês de maio.

"Já aconteceram alguns ataques durante o tempo que a gente cuida desses animais. Mas nada parecido com que vem acontecendo agora. Desde o começo de maio, isso tem sido mais constante. Já cheguei a achar dois animais mortos no mesmo dia. É assustador", afirma Thays Marques, 34 anos, integrante do grupo de proteção, que não sabe dizer quem pode estar por trás da articulação dos constantes envenenamentos e mutilações.

Gatos são alvos de envenenamentos e agressões (Arisson Marinho/CORREIO)

Maria Helena Marques, 70, que é aposentada e também faz parte do grupo de proteção, conta que o sentimento é de tristeza com a incidência de crimes contra a vida dos animais. "É devastador ver uma coisa dessas acontecendo com os bichinhos. Muito triste mesmo. A última gata morreu nos meus braços enquanto tentávamos prestar socorro. A gente quis salvá-la, mas ela não resistiu porque a quantidade de droga que deram pra ela foi enorme. Dói só de pensar", relata Helena, que abriga 18 gatos dentro do seu apartamento.

Outros moradores também externam a chateação com os casos de envenenamento e mutilação dos animais. Nelson Maia, 85, é aposentado e dá comida todos os dias pela manhã e pela tarde. A primeira refeição dos gatos é dada por ele já às 4h30, hora em que ele levanta. Sobre as mortes, o aposentado afirmou que é doloroso saber que esse tipo de coisa acontece. "Muita gente não gosta. Alguns têm muita raiva dos bichos. É triste porque isso acontecia antigamente de forma tímida. Agora, estão fazendo essas atrocidades semanalmente com eles", lamenta.

Horário dos crimes

A principal suspeita do grupo é que as ações aconteçam durante a noite, quando não há segurança no local e as pessoas estão fora das áreas comuns situadas dentro do conjunto. Cristiane Passos, 50, autônoma e integrante do grupo, diz que os criminosos operam a noite por conta da falta de fiscalização da área. "Eu acredito que os ataques têm acontecido durante a noite porque não podemos ficar saindo e observando já que é perigoso e o conjunto não tem nenhum tipo de segurança e controle. Aqui é tudo desordenado. Não tem ronda pra oferecer segurança e ficamos de mãos atadas para lutar contra isso", conta.

Thays concorda com Cristiane e revela que havia uma ronda de segurança no conjunto durante a noite, mas deixou de acontecer. "Há algum tempo tinha um segurança que ficava apitando e rodava o conjunto todo checando se as pessoas estavam seguras. Hoje não temos mais isso. A taxa que nós pagamos era pra ser direcionada para ações de segurança não só para os animais, mas para nós também. Aqui dentro já rolou assalto e outras coisas que não deixam as pessoas se sentirem seguras", declara a bacharel em direito. No conjunto, cada apartamento paga uma taxa no valor de R$ 30 para a administração, que é responsável pela limpeza e segurança do local.

Ivan, 39, que é responsável pela administração do conjunto e não quis revelar seu sobrenome, afirma que não é a falta de segurança que tem permitido o ataque aos animais no espaço. "O que mata os gatos não é a falta de segurança do local. No conjunto, durante a noite, tem sempre dois porteiros: um na guarita e outro que circula para vigiar a área. Os animais morrem por conta de doença, por ação de cachorros ou por entrar em caixas de luz. São vários os fatores que as pessoas escondem na hora de falar sobre isso", argumenta.

O administrador afirma que vai investigar a possibilidade de envenenamento, mas que o que precisa ser corrigido é a forma como o grupo lida com os gatos. "É claro que, se tiver alguém envenenando e mutilando, a gente vai descobrir. Mas é preciso entender que não há estrutura no local para tantos gatos. Só alimentação não resolve. Os animais precisam de abrigo e isso é responsabilidade dos cuidadores. Eles não têm isso lá.", completa.

Administração nega que ataques aconteçam por falta de segurança (Arisson Marinho/CORREIO)

Reação do grupo 

Em resposta ao crescimento dos ataques nos últimos três meses, o grupo de proteção registrou um boletim de ocorrência na 6° Delegacia Territorial da Polícia Civil (PC) no dia 2 de julho para tentar descobrir os autores dos crimes. A reportagem do CORREIO procurou a PC, que respondeu aos questionamentos sobre o caso e as investigações por meio de nota. "A 6ª DT/Brotas investiga uma denúncia de envenenamento de animais no Conjunto Habitacional Edgard Santos, ocorrida no início de julho. A unidade aguarda a solicitante e laudo médico veterinário para prosseguir com a apuração do caso", informa.

Os protetores também procuraram a Secretaria de Segurança Pública (SSP) para solicitar ajuda. Para a Secretaria, foi protocolado, por meio da vereadora Ana Rita Tavares (PT), um pedido de instalação de câmeras de seguranças em toda área do conjunto para amedrontar os criminosos e oferecer mais tranquilidade para os residentes. A SSP informou que também está investigando os crimes citados pelos solicitantes e que avaliará a viabilidade de um processo de instalação das câmeras de segurança.

Além das solicitações e do possível processo, o grupo tenta agilizar a realização de adoções responsáveis para retirar os animais do conjunto já que entendem que a área se tornou um ambiente arriscado para os gatos viverem.

Acolhimento de longa data

O conjunto é refúgio para os gatos há quatro anos. No local, além da alimentação e do carinho dos 20 voluntários do grupo, eles recebem atendimento veterinário. Todos os animais contam com cuidados básicos, curativos em ferimentos e vacinas a partir do momento que chegam na praça do conjunto que se transformou em um lar temporário para eles.

Apesar de não ser o lugar ideal para abrigar os animais, o grupo entende que o conjunto é um lugar de transição e que possibilita que eles não fiquem em situação de completo abandono enquanto o grupo procura por interessados em realizar a adoção responsável. É o que defende Thays: "Estamos cientes que não é o lugar perfeito, mas é a maneira que conseguimos fazer com que eles não passem fome e tenham assistência veterinária enquanto procuramos pessoas dispostas a oferecer um lá para os animais", explica.

Como adotar: o grupo de proteção trabalha para tornar o processo de intermediação entre os gatos e os interessados em adoção ainda mais bem sucedido. Para conhecer os gatinhos, você pode acessar o perfil das proteroras no Instagram, que está como @catsciaprotecao. Se você quiser adotar algum, o número para contato é o (71) 99100-1615. No processo de adoção responsável, o grupo entrevista os interessados e se certifica se estes têm um ambiente seguro para cuidar dos animais

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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