Gírias curiosas e engraçadas do baianês de 1900 e antigamente - Parte 1

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28.07.2019, 14:00:00
Atualizado: 28.07.2019, 14:18:08
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Gírias curiosas e engraçadas do baianês de 1900 e antigamente - Parte 1

Autor do Dicionário de Baianês (1991) não sabia da existência de A Gíria Baiana, livro de 1973: 'Bela surpresa!'; confira lista de termos antigos

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O Instagram me sinaliza que 332 semanas atrás eu estive num sebo no Centro do Rio de Janeiro bolinando uns livros velhos até me deparar com uma obra improvável: “A Gíria Baiana”, de um tal Alexandre Passos. Folheei ligeiro algumas poucas páginas e já constatei a curiosa descoberta: o tal “Gíria…” precedia, em ideia e conceito, o “Dicionário de Baianês”, best-seller e souvenir turístico do meu querido Nivaldo Lariú.

Minha descoberta, em 12 de março de 2013, diz respeito a algo lançado 40 anos antes, pelo qual paguei 15 “bagarotes” e editada/publicada lá no Rio mesmo, pela Livraria São José.

Mais interessante, claro, foi encontrar novos termos e expressões baianos (embora velhíssimos e em desuso) como “azular”, que queria dizer, na Bahia de 1900 e bolinha, “desaparecer de uma hora para outra. Sumir”. O verbete ainda vem com uso prático: “O noivo de Ritinha azulou, depois de formado”. Ou seja, “deu o zig”, em baianês corrente.

Há nele muitas palavras que perduram até hoje, mas chamou a atenção o charme de definição, como no caso de “bufa”, explicada como “ventosidade anal, sem estrépito”.

A Gíria Baiana é um dicionário de baianês (arcaico) lançado quase 20 anos antes do mais famoso (Foto de Roberto Abreu com produção de Fernanda Varela e bolsa de Carol Neves/CORREIO)

Entre as centenas de pérolas também é curioso observar como alguns termos mudaram sensivelmente o seu significado. É o exemplo de “broca”, que hoje é um tabefe, bofetada, tapão no pé do ouvido. Na época, não. “Mentira. ‘Firmino está contando uma broca’”, assim era usada.

Copio e colo trecho de um artigo sobre mudanças no dizer popular só pra reforçar o que é sabido: “a língua é viva, acompanha um povo ao longo dos tempos, expressando uma maneira de organizar o mundo em nomes e estruturas linguísticas, mudando e reinventando-se com as pessoas”. 

Lançado em 1991/1992, ou seja, 27/28 anos atrás, o "Dicionário de Baianês" também passou por suas mudanças “Já perdi a conta das atualizações, mas vou chutar umas 15 ou 20”, comenta Lariú, que segue em seu "trabalho de corno" de organizar o carnaval de jargões. 

“Continuo anotando sempre que escuto na rua ou os amigos me mandam. Mas espero o verbete se consolidar e ter o uso mais ou menos generalizado, pra não cair na lista da linguagem dos ‘guetos’ (surfistas, Pelô, internetês e outros). Dá trabalho, velho!”, comenta um dos autores mais lidos da Bahia -- são mais de 240 mil exemplares do dicionário, que tem viés mais voltado ao dialeto do Recôncavo.

“A Gíria Baiana”, porém, abre alas para registros mais longínquos, como “cachinringuengue”, que é uma “faca usada por pescadores lavouristas no Médio São Francisco”. Tem também “candango”, que é hoje é um gentílico informal de quem nasceu ou foi viver em Brasília mas que, no livro, além da definição já conhecida de que era o “nome com o qual os africanos designavam o português”, também aparece como “apelido dos passageiros do trem baiano (Bahia-Belo Horizonte-Rio e vice-versa)”. 

Confesso que não sei que trem era esse, mas vou pesquisar. Sobre Alexandre Passos, pesquisei, mas não achei quase nada. Vou deixar a tentativa de lançar umas linhas de sua biografia e obra -- que inclui outras coisas ‘locais’ como “Letras Baianas” (1941) e “A Nova Geração Intelectual da Bahia” (1943) -- na segunda de três partes (entremeadas por outros temas) da trilogia de gírias antigas.

Quem também não sabia que a obra existia era o próprio Lariú. “Pra mim é uma bela surpresa esse achado! O Dicionário de Baianês é de 1991, e essa coletânea foi feita em 1973, um ano depois que cheguei à Bahia. Algumas expressões inclusive eu não conheço, e provavelmente entraram em desuso. Mas tudo isso só prova que a criatividade baiana sempre chamou a atenção de quem teve o privilégio de ter sido adotado por essa terra, como eu”, comenta o autor, que por descuido geográfico nasceu no Rio.

Nesta primeira leva de termos desconhecidos (para mim) e que estão em “A Gíria Baiana” (obra de 101 páginas), vamos apenas até a letra D, de jeans. 

A

  • Abaixo do rabo do cachorro, loc. O que se julga importante e está aquém do que se pensa. O que é, por despeito, relegado a plano inferior.
  • Abrir o chambre, loc. Contar particularidades próprias ou alheias, levianamente. Em alguns lugares: fugir.
  • Água suja, loc. Confusão, em consequência de intrigas e leviandades.
  • A leite de pato, loc. Sem proveito. Gratuitamente.
  • Asilado, adj. O que mora de favor.
  • Até aí, morreu o Nevex, loc. Nada de novo foi dito.
  • Até José chegar, loc. Falou até José chegar, isto é, falou muito. Demora em pagar o que deve, sem dar satisfação ao credor.

B

  • Babaquara, adj. Velho senil metido a conquistador. [Hoje: “perigoso”, de perigueto+idoso].
  • Bagarotes, s. m. plur. Dinheiro.
  • Balão, s. m. Mentira. Boato. “Alfredo contou ou soltou um balão, mas não pegou”. [Hoje: “Ninguém comeu sua pilha”].
  • Banhar-se em água de rosas, loc. Ter razão e vê-la confirmada pelos fatos, em opinião emitida. 
  • Bater a passarinha, loc. Indiferença. “Não me bate a passarinha o que acontecer”, isto é, “pouco me incomodo”. Em sentido afirmativo: morrer.
  • Bem belo!, loc. Expressão de espanto. “Viu o que você fez? Bem belo!” [Hoje: “Bonito, hein!” ou “Viu, sacana!”]
  • Boceta, s. f. Caixinha de guardar rapé. Tabaqueira. [Hoje: “xereca”]
  • Branco da Bahia, loc. Elemento das três raças esquecido da miscigenação.
  • Bredo, s. m. Namoro ligeiro. Flerte. [Hoje: pegação rápida ou frete].
  • Broca, s. f. Mentira. “Firmino está contando uma broca”.
  • Bufa, s.f. Ventosidade anal, sem estrépito.

C

  • Cabra sarado, adj. Decidido. [Hoje: bombado da Academia de Pavão]
  • Cagafumo, s. m. Baile de última classe. 
  • Cair na politana, loc. Apanhar na casa dos pais ou responsáveis.
  • Caixa de catarro, loc. Pulmões.
  • Capinar, v. Esmiuçar a vida alheia.
  • Carne virada, loc. Moça namoradeira e volúvel.
  • Casa de Gonçalo, loc. Lugar de confusão; ninguém se entende. [Hoje: Congresso Nacional].
  • Chibante, adj. Valente. Elegante.
  • Chochô forrado de abacate, loc. Resposta a menino perguntador, em demasia. Não tem significação especial.
  • Chocolateira, s. f. Nádegas. “O atrevido levou um pontapé na chocolateira”. 
  • Chupa caldo, loc. Bajulador. Intrigente. 
  • Chupar uma barata, loc. Expressão de confiança do interlocutor na certeza da sua opinião. “Chuparei uma barata, se Onofre fugir ao compromisso”.
  • Churupitar, v. Maneira pela qual pessoa mal educada sorve a sopa.

D

  • Dar um doce, loc. Duvidar de alguém ou de algum fato. “Darei um doce, se Osires vier”.
  • Das arábias, loc. Terrível. “Lili é das arábias”.
  • Decurião, adj. O melhor aluno da antiga escola primária.
  • De fancaria, loc. De mentira. Mistificador. Poeta de fancaria: falso poeta.
  • Dente de coelho, loc. Mistério na apuração de um fato. “Há dente de coelho na elucidação da fuga do preso”.
  • Dez réis de mel coado, loc. A moeda de dez réis, décima parte do real e metade de um vintém, circulou até 1910. O mel coado não tem valor.
  • Dia santo, loc. Rasgão ou buraco na meia. [Hoje: feriado].
  • Dinheiro de pagode, loc. Muito dinheiro.
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