Hospitais em alerta: Bahia sofre com falta de medicamentos para intubação

coronavírus
20.03.2021, 11:00:00
Atualizado: 21.03.2021, 15:37:28
Armários dos hospitais têm mais espaços vazios do que remédios (Paula Fróes/CORREIO)

Hospitais em alerta: Bahia sofre com falta de medicamentos para intubação

Com aumento de internações, demanda e preço dos remédios dispararam, alegam profissionais

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O colapso da saúde na Bahia tem faltas de UTIs, oxigênio e, agora, medicamentos usados na intubação de pacientes. Essa é a realidade denunciada por profissionais da saúde e autoridades preocupadas com o esgotamento de insumos hospitalares. No Hospital de Campanha de Feira de Santana e no Hospital Santa Helena, de Camaçari, o estoque de medicamentos dura cerca de duas semanas. Em Salvador, segundo o prefeito Bruno Reis (DEM), a situação é mais grave: apenas 10 dias.  

"Todas as cidades do Brasil estão sofrendo com a falta de medicamentos. Nós estamos tentando adquirir, temos estoque para os próximos 10 dias, mas os fornecedores estão sem condições, nesse momento, de nos garantir a entrega", afirmou o prefeito, durante entrevista coletiva.

O diretor do Hospital de Campanha de Feira de Santana, Francisco Mota, explicou ao CORREIO que os medicamentos mais em falta são os sedativos e bloqueadores neuromusculares.  

“Tem alguns grupos em falta, como o bloqueador pancuronio e os sedativos midazolam e fentanil. Quando acaba, a gente faz substituição por outros. Temos estoque para mais duas semanas e, naturalmente, vamos reforçar os pedidos. Não é uma falta total, sem alternativa, mas o problema é que os mais usados estão começando a faltar. E, com o aumento de casos e de internação, a tendência é piorar”, aponta.  

Zorilmar Santana Teixeira, administradora e gestora da unidade de suporte ventilatório de Valéria e do gripário de Pau Miúdo, conta que a situação é preocupante, pois em situação aceitável, o estoque desses medicamentos tem que durar 30 dias, no mínimo. “Trabalhar com um prazo curto é sinal de insegurança. Os medicamentos que eu tenho dão para uma semana e temos que fazer reposição diariamente. Hoje mesmo eu fiz liberação de compra de 2 mil unidades de um determinado remédio, mas o fornecedor informou que não conseguirá entregar tudo”, lamenta.  

Ela revela que antes conseguia trabalhar com uma gama de fornecedores, mas hoje só duas empresas atendem e com preços altos. “Tem remédio que tá saindo por um valor 60% maior do que o normal”, diz. No Hospital Santa Helena, em Camaçari, a farmacêutica Dulce Maia também tem que lidar com aumento de preços que ela classifica como extraordinário. Teve medicamento que dobrou o valor nos últimos meses.  

“Em janeiro, a gente usou apenas 23 ampolas de um bloqueador neuromuscular. Em março, ainda no dia 16, foram 1.266 ampolas utilizadas. Hoje a gente não pode mais levar em conta o consumo médio mensal, pois a demanda por esses remédios aumentou muito”, relata. Esse crescimento tem relação com a quantidade de pacientes intubados nos leitos de UTIs. Em janeiro, o Santa Helena tinha apenas 10 leitos com média de 60% de ocupação. Em março, o número de leitos aumentos para 15 e, segundo a farmacêutica, sempre operam na capacidade máxima.  "Cresceu também o número de pacientes intubados e que permanecem mais tempo nessa condição", alerta. 

Estoque de medicamentos no gripário de Pau Miúdo
Estoque de medicamentos no gripário de Pau Miúdo (Paula Fróes/CORREIO)
Estoque de medicamentos no gripário de Pau Miúdo
Estoque de medicamentos no gripário de Pau Miúdo (Paula Fróes/CORREIO)
Estoque de medicamentos no gripário de Pau Miúdo
Estoque de medicamentos no gripário de Pau Miúdo (Paula Fróes/CORREIO)
Estoque de medicamentos no gripário de Pau Miúdo
Estoque de medicamentos no gripário de Pau Miúdo (Paula Fróes/CORREIO)
Estoque de medicamentos no gripário de Pau Miúdo
Estoque de medicamentos no gripário de Pau Miúdo (Paula Fróes/CORREIO)
Estoque de medicamentos no gripário de Pau Miúdo
Estoque de medicamentos no gripário de Pau Miúdo (Paula Fróes/CORREIO)

Problema   
Para lidar com esse problema, o governador Rui Costa pediu à Procuradoria Geral do Estado da Bahia (PGE-BA) para que acione o Supremo Tribunal Federal (STF), com o objetivo de que o Governo Federal providencie, o mais rápido possível, os medicamentos que não são mais encontrados no mercado nacional. “Não é possível, não é aceitável que a gente adote no Brasil um salve-se quem puder, que os laboratórios e representantes ganhem um dinheiro astronômico chantageando cinco mil prefeitos e 27 governadores para dar o medicamento a quem der mais [dinheiro]. A tragédia pode ser ainda maior nos próximos dias”, disse em entrevista à TV Bahia.   

O presidente do Conselho de Farmácia do Estado da Bahia (CRF-BA), Álan Brito, confirmou o problema enfrentado no estado, o aumento de preço e disse que esse é um desfio enfrentado no mundo todo. “As matérias primas são estrangeiras, gerando uma concorrência mundial, o que dificulta o processo. Os laboratórios produzem aqui, mas a matéria prima vem de fora. O aumento do dólar faz crescer o preço. Mas dentro do país, existem pessoas que especulam. Os preços são regulados pela Anvisa. Como está na escassez, o pessoal compra mais caro mesmo”, explicou.  

Álan também destacou que esses medicamentos em falta são usados somente para fins medicinais e não são encontrados em farmácias. “É um problema enfrentado na linha hospitalar. São laboratórios que vendem tanto para distribuidor como para o consumidor final, os centros de saúde. Só que essa linha de sedativos tem poucos fabricantes e ninguém esperava esse consumo todo. Talvez o país nem tenha uma estrutura de fabricação para toda a demanda necessária”, relata.   

O CORREIO procurou a Associação de Hospitais e Serviços de Saúde do Estado da Bahia (AHSEB) para comentar o assunto, mas não obteve retorno até o fechamento do texto.   

E se acabar?  
Até o momento, nenhum hospital baiano apontou a escassez completa de todos os medicamentos sedativos e bloqueadores neuromusculares. Quando um remédio acaba, ele pode ser substituído por outro. É o caso, por exemplo, do que acontece no sistema de saúde municipal de Salvador, que não possui mais o bloqueador Rocuronio, mas ainda tem o suxametônio. Sergio Jezler, médico intensivista e professor da Rede UniFTC, acredita que podemos ficar sem os medicamentos modernos, os mais utilizados, mas é improvável que cheguemos num quadro de ficar sem nenhum medicamento para intubação, já que existem os mais antigos, que estão em desuso e podem ser utilizados em último caso.  

“O cenário de haver droga nenhuma disponível é improvável, pois existem drogas antigas que podem ser usadas. O problema é que os medicamentos menos modernos são usados em último caso, pois quanto mais antiga a medicação, mais risco de efeito colateral”, explica.  

O que não pode, segundo o médico, é intubar o paciente sem utilizar qualquer sedativo ou bloqueador neuromuscular. O primeiro serve para reduzir a consciência e induzir o coma no doente. O segundo tem a função de paralisar o músculo e tirar a capacidade do paciente de respirar sozinho. Só assim ocorre a intubação e a respiração mecânica.  

“Toda vez que a gente tem um paciente gravemente acometido no ponto de vista pulmonar, ele não consegue respirar sozinho e precisa ser intubado. Passa um tubo dentro da traqueia e ele é ventilado através de um respirador. Para manter isso, os medicamentos também são importantes. Se não, o efeito passa, ele acorda e não consegue suportar o tubo na garganta. Aí a dor é enorme e a ventilação não funciona”, explica o médico intensivista do Samu, Uenderson Araújo Barbosa.  

Na quinta-feira (18), ele viveu o que considera o pior dia de trabalho na pandemia e teve que intubar um paciente de 40 anos dentro da própria ambulância do Samu. “Ele estava muito mal, a saturação não passava de 40%. Tentamos aumentar o suporte de oxigênio, fazer uma leve sedação, mas nada funcionava. Ele piorava na nossa frente. Precisamos intubar, mas em 20 minutos ele teve uma parada cardíaca e não resistiu. Ele segurava a pulseira que a esposa tinha dado, não deixava a gente tirar da mão dele e ver o paciente assim morrendo assim é muito doloroso, uma situação surreal. Em dois anos de medicina intensiva, nunca passou isso pela minha cabeça”.

Após publicação da reportagem, o Hospital Santa Helena enviou uma nota de esclarecimento sobre o tema. Confira na íntegra: 

O Hospital Santa Helena, atento ao possível crescimento no número de casos de infecção por COVID-19 no Brasil, percebeu a necessidade de reestruturar algumas áreas do hospital e ampliou o número de leitos para tratamento da COVID-19;

Para atender a demanda da nova estrutura (aumento no número de leitos), foi necessário aumentar em aproximadamente 50%, a quantidade de medicamentos armazenados em estoque;

Atualmente, o departamento de logística do Hospital Santa Helena, mantém estoque de medicamentos para aproximadamente 39 dias; foi concluído na última sexta-feira, 19 de março de 2021, reposição de estoque (compra) para mais 28 dias considerando o consumo atual.

Diante das dificuldades encontradas, o departamento de logística do hospital, está adotando como medida preventiva, o monitoramento diário dos níveis de estoque, estreitamento do relacionamento com os laboratórios e fornecedores - buscando garantir melhores oportunidades de preços e negociação na compra dos medicamentos.   

Além disso, o hospital conta com o apoio técnico dos farmacêuticos para padronização de itens substitutos (em caso de uma possível falta) e acompanhamento individual da farmácia clínica para garantir o tratamento diário a todos os pacientes internados.

O Hospital Santa Helena reforça todo o seu compromisso e dedicação com o município de Camaçari no enfrentamento a COVID-19.

* Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro. 

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