Isolamento? Orla, Dique e bairros populares lotam no primeiro dia do feriadão

salvador
25.05.2020, 18:49:00
Atualizado: 25.05.2020, 19:20:28
Fim de linha da Boca do Rio estava lotado (Daniel Aloisio/CORREIO)

Isolamento? Orla, Dique e bairros populares lotam no primeiro dia do feriadão

Filas em frente às agências da Caixa também foram observadas em Salvador

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Após levar o pai numa consulta médica na região da Barra, na manhã dessa segunda-feira (25), o educador físico Tadeu (nome fictício) sentiu uma “tentação irresistível” de voltar a se exercitar ao ar livre. “Juro que essa foi a primeira vez desde o começo da quarentena”, disse. Nos tempos vagos, ele faz lives no Instagram para ensinar seus seguidores a fazerem exercícios em casa e evitar exposição. “Sei que serei massacrado se eles descobrirem”, confessou.  

(Foto: Daniel Aloisio/CORREIO)

Já o trio de amigos João Sena, 53, Amadeu Coutinho, 81, e Mario Faustino, 73, decidiram ir para uma praça do bairro de Cosme de Farias para conversar. O local é o mesmo onde foi realizado o mutirão de testes rápidos para a covid-19 no bairro. “Ficar em casa da cama para o sofá deixa o joelho doendo”, brincou Faustino, que já é aposentado. O trio garante que não tem saído todo dia, mas classifica como difícil cumprir o isolamento à risca. “Só saímos umas duas ou três vezes na semana”, disse Amadeu.  

Esses quatros soteropolitanos são apenas alguns dos que resolveram viver a cidade no primeiro dia oficial de feriadão em Salvador. No entanto, a antecipação da comemoração desses dias festivos não tem o intuito de fazer com que as pessoas saiam de casa ou viagem, pelo contrário. O objetivo é aumentar o isolamento social, já que pessoas poderão deixar de ir ao trabalho e estabelecimentos ficarão fechados, fazendo com que o avanço da doença diminua na cidade.   

(Foto: Daniel Aloisio/CORREIO)

“Essa quarentena deixou todos os dias parecidos com feriado. Para mim, hoje é um dia normal, como qualquer outro”, disse o autônomo Leonardo Souza, 37, que caminhava sem máscara no Dique do Tororó, ao lado do amigo e também autônomo, Marcio Nunes, 41. Ambos moram no Barbalho e decidiram se exercitar no ponto turístico de Salvador.  

“A máscara incomoda quando eu corro, por isso eu a deixo no carro. Como aqui é um lugar aberto, eu não fico preocupado”, disse Leonardo. “Normalmente, a gente se exercita em casa mesmo, mas hoje resolvemos vir para o Dique. Não teve um motivo especial, não foi por ser feriado. Acho que foi uma coincidência”, disse Marcio.  

Não é farra 
O CORREIO passou por diversos locais da cidade para conferir a movimentação das pessoas nessa manhã de segunda-feira. Na orla da cidade, da Barra até Itapuã, dezenas de pessoas se exercitavam no calçadão. Também era possível ver, mesmo com a proibição, pessoas entrarem na praia e irem até o mar, principalmente na região de Itapuã. Alguns surfistas aproveitaram o bom tempo para praticar o esporte. Também tinha gente jogando dominó e passeando com seus animais de estimação.  

“Nossa cadela não faz suas necessidades dentro de casa. Ela precisa sair para a rua. A gente une isso à nossa vontade de se exercitar”, disse um casal que não quis se identificar. Eles conversaram com a reportagem logo após encontrar duas amigas que corriam no calçadão da praia da Barra. “Elas faziam academia comigo. Temos feito exercícios em casa, mas não é a mesma coisa”, disse uma das entrevistadas.  

(Foto: Daniel Aloisio/CORREIO)

Também foi possível encontrar diversos ciclistas na orla da cidade. Alguns utilizavam roupas de trabalho e mochila, o que indicam que estavam utilizando a bicicleta como meio de transporte. Outros, no entanto, vestiam roupas características da atividade física. Esse é o caso do publicitário Mauricio Cunha, 41, que pedala 25 quilômetros por dia, mesmo em tempos de pandemia. 

“Se eu sentisse que isso é algo que eu devesse mesmo me preocupar, eu estaria em casa. Mas tenho uma desconfiança de que os números podem não ser verdadeiros. A gente tem uma desconfiança do governo, não é?”, disse. Ele usava máscara, “mas apenas por ser obrigação. Eu não acho que em local aberto seja uma necessidade”, confessou. 

Segundo o último balanço do Ministério da Saúde, divulgado no domingo (24), o Brasil tem 22.666 mortos e 363.211 casos de coronavírus. Já a Bahia tem 477 mortes e 14.204, segundo os dados da Secretaria de Saúde do estado (Sesab). Na manhã dessa segunda, o prefeito ACM Neto afirmou que a ocupação dos leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) está em 86%.  

Em coletiva de imprensa, o prefeito de Salvador demonstrou esperança de que as medidas de isolamento surjam efeito na taxa de transmissão do coronavírus em Salvador.

“Estamos acompanhando o número de pessoas circulando pela cidade. Hoje, no pico da manhã, registramos uma redução de circulação de 40% se comparado às segundas-feiras de pandemia. Queremos mais, precisamos de mais”, disse. 

Essencial 
Apesar da interdição das praias, os pescadores têm acesso liberado para garantir o sustento da família. Na região do Rio Vermelho, alguns profissionais trabalhavam na beira do mar. Entre o bairro e a Pituba, dezenas de pessoas atuavam na requalificação da orla. Todos observados usavam máscara. As obras em locais a céu aberto continuam permitidas.  

Já no final de linha da Boca do Rio, vários feirantes, comerciantes e moradores lotavam o espaço por volta das 11h da manhã. Alguns disseram que iam trabalhar até 13h, por ser feriado, enquanto outros alegaram que não tinham hora para terminar. “Vamos ver como vai estar a movimentação”, disse a comerciante Érica Veloso, 23, que trabalha numa loja de roupas do bairro de menos de 200 metros quadrados. Estabelecimentos como esse ainda podem funcionar na cidade.  

(Foto: Daniel Aloisio/CORREIO)

“Se só saísse para rua quem realmente precisasse sair, eu ficaria menos preocupada. Mas reparo que tem muita gente saindo para bater perna. Penso que já está na hora de ter uma punição para essas pessoas”, disse Érica.  

Na Avenida Dorival Caymmi, o comércio da região estava mais tímido, por volta das 12h. O fluxo de carros também era menor em comparação com a própria Boca do Rio e Cosme de Farias, esse último está com medidas de isolamento mais restritivas. Na Avenida Paralela, também às 12h, o fluxo de carros também chamou atenção.   

Nesta segunda, o feriado antecipado foi o do dia 2 de julho, Independência da Bahia. Na terça (26), será comemorado o São João, que normalmente ocorre no dia 24 de junho, enquanto a quarta-feira será do feriado de 8 de dezembro, Dia de Nossa Senhora da Conceição da Praia.  

Caixa 
Autorizada a funcionar exclusivamente para o pagamento de benefícios referentes à pandemia, algumas agências da Caixa Econômica Federal tiveram filas nessa manhã de segunda-feira (25), como as agências de Periperi e Vasco da Gama. O CORREIO também observou movimentação nas lotéricas da Boca do Rio e Itapuã.  

(Foto: Daniel Aloisio/CORREIO)

O músico Ramon Correia, 19, escolheu a agência da Vasco da Gama para sacar ainda a primeira parcela do auxilio emergencial. “O dinheiro foi liberado só agora e como eu moro perto, resolvi vir hoje, não por ser feriado. Para mim e muita gente do meu bairro, o Engenho Velho da Federação, hoje é um dia normal”, disse. 

Embora tivesse que esperar do lado de fora da agência, Ramon utilizou uma das cadeiras fornecidas pela Prefeitura de Salvador, através da Guarda Municipal. O mesmo aconteceu nas outras agências que registraram movimento. As lotéricas não têm esse benefício. 

Confira o que pode funcionar nessa semana:  

Terça e quarta (feriadão): O funcionamento da Prefeitura nos feriados antecipados será limitado aos órgãos encarregados de atividades relacionadas ao enfrentamento da pandemia ou aos que já atuam normalmente nessas datas.  

Já em relação às atividades comerciais, só podem abrir aquelas que tradicionalmente funcionam em feriados e desde que não estejam impedidas por medidas restritivas, a exemplo dos shoppings, que continuam fechados. Excepcionalmente, a Prefeitura autorizou a abertura das agências da Caixa Econômica Federal exclusivamente para o pagamento de benefícios referentes à pandemia. 

Quinta e sexta (essencial): Toda e qualquer atividades econômica, formal e informal, fica suspensa na cidade, com exceção das classificadas como essenciais, a exemplo de supermercados, farmácias, agências bancárias, lotéricas, repartições públicas, cartórios e estabelecimentos que estejam atuando em regime de delivery (não sendo permitida a retirada de produtos no local).  

Também estão autorizados a funcionar estruturas de saúde de urgência e emergência, serviços de imagem radiológica, atendimento de tratamentos contínuos, a exemplo de oncologia, hemoterapia e hemodiálise, laboratório de análises clínicas, estabelecimentos que forneçam insumos hospitalares e clínicas veterinárias.  

Os estabelecimentos que não tiveram suas atividades suspensas deverão observar as regras de uso de máscaras, higiene e limitação de público já em vigor. Haverá fiscalização por parte da força-tarefa liderada pela Secretaria de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur).

* Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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