Jovem que foi linchado em São Caetano invadiu aniversário para matar convidado

salvador
10.08.2020, 19:10:00
Atualizado: 10.08.2020, 22:04:06
Marcas de tiro ainda são vistas no local; carro ficou danificado (Arisson Marinho/CORREIO)

Jovem que foi linchado em São Caetano invadiu aniversário para matar convidado

Segundo a PM, dos oito envolvidos no episódio, cinco registram passagem na polícia

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Uma nova versão surgiu para o tiroteio que deixou um morto e sete feridos no bairro de São Caetano na madruga desta segunda-feira (10). Moradores da Rua da Goméia contaram que a festa de paredão era em comemoração do aniversário de uma das pessoas baleadas. O autor dos disparos, Jodmarlei Jesus Lima, 19 anos, tinha como alvo o primo do aniversariante, mas foi impedido de matá-lo. Irritado, ele tentou se livrar de quem o continha e saiu atirando na multidão. Depois, o jovem tentou fugir, mas foi linchado pelas pessoas que estavam na festa. 

A festa de aniversário era de Vitor da Silva Conceição, que completou 20 anos  na data – ele foi socorrido com um ferimento provocado por arma branca e já teve alta. O primo dele, Alisson Silva Carmo Pires, 25, foi baleado na barriga e na costela, e passou por uma cirurgia. Ele está internado em estado grave na UTI do Hospital Geral do Estado (HGE), segundo parentes ouvidos pelo CORREIO. O outro morador do bairro, Leonardo Xavier Santos, 26, foi baleado na barriga e de raspão no braço direito. Ele está no HGE e o estado de saúde dele é estável, de acordo com familiares. 

Também no HGE estão Alesson Casais do Santos, 25; Igor Messreder Costa, 24; Camila Cruz de Sousa, 24; Phelipe Sena dos Santos, 21; e Alesson Casais dos Santos, 25 - não há informações sobre o estado de saúde deles. Já o autor dos disparos, Joadmarlei, chegou a ser socorrido ao HGE, mas não resistiu.  

Questionado sobre a nova versão do crime, o tenente-coronel Jamerson Queiroz, comandante da 9ª Companhia Independente da PM (CIPM/Pirajá), disse ao CORREIO que, por enquanto, desconhece, mas que o Serviço de Inteligência da unidade está atuando no local para avançar nas investigações.

Apesar disso, ele pontuou que dos oito envolvidos no episódio, cinco registram passagem na polícia. “Só Jodmarlei tinha quatro entradas por tráfico de drogas”, disse o comandante. “Com exceção de Vitor, Alesson e Phelipe, os demais já foram presos por crimes diversos”, declarou.  

Versão do crime
A famosa Rua da Goméia liga o bairro de São Caetano a outros bairros próximos ao Largo do Retiro, como Bom Juá e ao Calabetão. Festas do tipo paredão são comuns na rua e geralmente começam no início da tarde, por volta das 15h, quando alguns moradores começam a beber impulsionados pelo som do porta malas de um carro. Só que neste domingo foi diferente. Era de aniversário de um dos moradores populares na Goméia, Vítor.

A comemoração começou às 9h, com cerca de 20 pessoas da família do rapaz. Todos se divertiam e bebiam em frente à casa de um dos parentes. O som, até então, vinha de dentro do imóvel. Pouco depois das 16h, um carro chegou e potencializou a festa: com a mala aberta, pessoas e mais pessoas foram chegando. Por volta das 19h, ninguém mais conseguia subir e descer com facilidade.

“Aqui parecia que estávamos num dia de Carnaval na Avenida Sete de tanta gente. Carro não passava. As pessoas deixam os carros na ponta da ladeira e desciam, era o jeito. Vieram pessoas de outros bairros para cá”, contou um morador que preferiu ter seu nome mantido em sigilo.

Era por volta das 0h20 quando um homem chegou de moto no início da Rua da Goméia. Era Jodmarlei, que seguiu a pé à procura de Alisson. Segundo moradores, ele se aproximou do primo do aniversariante e teria apontado a arma. Na hora, Leonardo, que estava próximo, chegou a dominar Joadmarlei, agarrando-o por trás. “Foi questão de segundos”, contou um morador. 

Jodmarlei conseguiu se desvencilhar e começou a disparar contra multidão – nessa hora abriu um buraco da rua, pois as pessoas tentavam se proteger entre os carros, nos becos e casas. “Estava todo mundo contente, bebendo, aí de repente a gente escutou tiros, muitos tiros e uma correria. Peguei minha filha no braço e me joguei no chão junto com ela. Muita gente caiu na hora que correu. Teve gente também que se feriu”, contou uma moradora de 26 anos, mãe de uma menina de 9 anos. 

Ainda segundo alguns moradores, após os disparos, Joadmarlei correu, mas foi alcançado no início da rua. “Aí pegaram e deixaram ele naquele estado. Bateram, deram facada, deram tiro”, contou um morador. Perguntado sobre quem exatamente atacou o autor dos disparos, o morador respondeu: “Rapaz, difícil dizer. Foi muita gente para cima dele. Imagine que isso aqui antes parecia um Carnaval”. 

Os vestígios da madrugada violenta estavam nos buracos de tiros deixados nas portas, janelas e paredes das casas da Rua da Goméia. Os carros também foram atingidos - entre eles, de um Fiesta preto, estacionado a pouco metros do linchamento.  “As balas atravessaram os vidros e atingiram os bancos, sem falar na destruição do retrovisor. Um prejuízo acima de R$ 1 mil que vou ter agora”, contou o dono carro. 

Ainda no local copos de plásticos e latas de cerveja espalhados lembravam a festa que terminou em tragédia. Havia também uma faca no chão – não há informações se este era um dos objetos usados contra às vítimas.

Parentes
O CORREIO conversou com parentes das pessoas que foram feridas no episódio, entre elas a doméstica Diva Conceição, 58. Ela é tia de Alisson e Vítor. “Não sabemos o que aconteceu. Dormia quando escutei os tiros de minha casa e saí para ver o que estava acontecendo. Foi quando me informaram que meus sobrinhos tinham sido vítimas juntamente com as outras pessoas. Mas os dois são meninos do bem”, contou ela. 

O tio dos rapazes, Evanildo Carmo Pires, 52, disse que também não sabe o que aconteceu. “Não estava aqui na hora e por isso não posso falar”, declarou. 

A madrasta de Leonardo, a diarista Rita de Cássia de Jesus, 53, disse que o rapaz estava dentro de casa até às 18h. “Ele saiu antes de eu ir para a igreja. Estava sentado, quando alguém chamou para ir à festa. Mas eu também não sei o que aconteceu”, contou. 

(Arisson Marinho/CORREIO)
(Arisson Marinho/CORREIO)
(Arisson Marinho/CORREIO)
(Arisson Marinho/CORREIO)
(Arisson Marinho/CORREIO)
(Arisson Marinho/CORREIO)
(Arisson Marinho/CORREIO)

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