Leitura em trânsito: amantes do livro resistem no metrô

salvador
03.07.2022, 09:00:00
(Foto: Nilma Gonçalves/ CORREIO)

Leitura em trânsito: amantes do livro resistem no metrô

Passageiros dão a dica

“Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca”, escreveu o escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986). Para quem ama ler, o metrô de Salvador está mais para O Inferno de Dante Alighieri. Enquanto a moça não anuncia a estação de chegada, os usuários estão ligados em seus aparelhos de celular: o bate-papo no Whatsapp, as últimas notícias no portal, o bafão no Twitter, a foto mais recente da influencer no Instagram, o vídeo engraçado no Tik Tok… Livro que é bom, nada! 

De acordo com a última pesquisa ‘Retratos da Leitura no Brasil’ (2019), do Instituto Pró-Livro, em seu tempo livre o soteropolitano prefere usar a internet a ler. Ler, aliás, está em 11º lugar na lista, perdendo para assistir televisão, escutar música, reunir-se com os amigos, entre outras distrações. Diante desse cenário, é raro se deparar com alguém no metrô (ou em qualquer outro lugar, sejamos sinceros) ‘portando’ um livro.

Elieser César, de 61 anos, faz parte do fictício clube de leitores do metrô de Salvador. Amante dos clássicos, e já tendo ele próprio lançado 12 obras, o jornalista e escritor se surpreende com a cada vez maior escassez de pessoas interessadas na leitura no metrô e no ônibus. E faz questão de exaltar os livros impressos. Não que seja contra ler e-books no celular ou no Kindle, mas prefere a sensação que o objeto físico desperta: “Gosto da presença física do livro, para que eu possa grifar, que eu possa bater na capa e dizer ‘esse é muito bom!’. Até o cheiro do livro novo é bom”.

O jornalista Elieser Cézar prioriza o livro impresso (Foto: Marina Silva/ CORREIO)

Karina Santos, 21, prefere locais mais tranquilos e confortáveis, ainda assim, a estudante de Técnica de Enfermagem não se furta em ler no metrô. “O percurso que faço é de trinta minutos, mais ou menos, e sempre aproveito pra dar continuidade às minhas leituras, principalmente em dias corridos. Costumo ler também no ônibus, mas somente livro físico, por questão de segurança”.  A paixão de Karina pelos livros transbordou em uma página no Instagram, a ‘Um Livro Uma Resenha’ @umlivroumaresenha_ , onde dá dicas de leitura para os seguidores.

Para as viagens de metrô, Patricia Bssa, 37, tem sempre um livro na bolsa. A produtora de arte e cenografia costuma usar o transporte ao menos duas vezes por semana, quando sai de Salvador e vai visitar os pais em Buraquinho, Lauro de Freitas. No percurso, lê ficção do tipo afrofuturista. ‘Um Exu em Nova York’, de Cidinha da Silva, é sua mais recente companhia de deslocamento. “Gosto do misto de paisagem e leitura, a viagem se torna mais breve e prazerosa”, afirma.

Incentivo
Quem pega o metrô já se deparou com casinhas equipadas com livros. Elas fazem parte da Estação Leitura, espaço colaborativo que incentiva a troca de livros. Funciona assim: o passageiro pega um livro, e a contrapartida é deixar também para outras pessoas. Só vale livro literário e em bom estado de conservação. Os equipamentos estão espalhados pelas estações Campo da Pólvora, Pirajá, Rodoviária, Bairro da Paz, Aeroporto e Acesso Norte.

Também na Estação Acesso Norte fica a BiblioMetrô, inaugurada em 2019, que disponibiliza, de forma gratuita, cerca de mil títulos de diversos gêneros (técnicos, ciências sociais, fotografia, poesia, literatura infanto-juvenil, estrangeira e nacional). Mas é apenas para consulta, viu? Ou seja: você só pode ler no local - que tem ar-condicionado, dois computadores para acesso à internet e um cantinho de leitura.

Aninhada entre as almofadas, uma garota ruiva lia a edição atual de ‘Meu pé de laranja-lima’, clássico infanto-juvenil de 1968, escrito por José Mauro de Vasconcelos. Beatriz Souza do Nascimento, 18, tinha acabado de fazer provas de português e inglês no colégio e resolveu dar um tempo na BiblioMetrô. Depois da indicação de uma amiga, o lugar virou uma espécie de refúgio para a estudante. “Como hoje em dia os livros estão caros e aqui eles são gratuitos, resolvi ler aqui mesmo, ao invés de comprar”, entrega ela, que adora ganhar livros de fantasia, como os da série Harry Potter, de J. K. Rowling.

Apesar dos livros caros, nos dois últimos anos, o consumo aumentou. Segundo o Painel do Varejo de Livros no Brasil, o número de publicações vendidas em todo o país, em 2021, foi cerca de 30% maior do que em 2020. Em números reais, foram comercializadas 55 milhões de unidades no ano passado, que movimentaram R$2,28 bilhões.

Esse aumento ocorreu durante a pandemia, quando as pessoas foram obrigadas a ficar em casa e buscaram companhia nos livros. “Apesar de as livrarias terem ficado fechadas (e outras terem fechado definitivamente) grande parte desse período, houve um crescimento nos canais de marketplace (comércio eletrônico). No nosso caso, tivemos um aumento significativo nas vendas em nossa loja on-line, praticamente o triplo do que a gente vendia antes da pandemia”, garante Valéria Pergentino, sócia-diretora da Solisluna Editora.

Estação Leitura
Casinhas com livros espalhadas pelas estações Acesso Norte, Campo da Pólvora, Pirajá, Rodoviária, Bairro da Paz e Aeroporto

BiblioMetrô
Espaço para leitura gratuito e aberto ao público
Estação Acesso Norte
Funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e de 13h às 18h

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