Mais Real que o rei: conheça a história do empresário que desbancou o Capelinha

salvador
30.06.2019, 07:00:00
(Mauro Akin Nassor/CORREIO)

Mais Real que o rei: conheça a história do empresário que desbancou o Capelinha

Sem nada, Tuca criou marca de picolés, que chega a produzir 30 mil unidades por dia

O empresário Natanael Couto, o Tuca, sai abrindo os freezers abarrotados de picolés na sede da sua fábrica, no bairro de São Cristóvão. Em poucos minutos desembala dezenas de sorvetes no palito e oferece à nossa equipe. É a sanha de mostrar a qualidade do produto. “Aqui, ó! Prova o de pitanga. Tem de milho verde também. Esse é de coco, o nosso campeão de vendas. O de amendoim é segundo lugar. Tome! Prove! Esse aqui é novidade: jabuticaba”. 

A essa altura, de bocas cheias e línguas dormentes, repórter, fotógrafo e motorista apenas comprovaram o que Salvador inteira já sabe: o picolé Real é delicioso. O que pouca gente conhece é o que levou a Real a se tornar líder de mercado e, na alta estação, produzir 30 mil picolés por dia. Uma história que ganha ainda mais sabor quando se conhece a trajetória de Tuca.

Para começar, o próprio não tem vergonha alguma de dizer que já vendeu seu picolé como se fosse o famoso Capelinha. “Ah, teve a época em que qualquer picolé era Capelinha, né? Comigo não era diferente”. Naquele tempo, a Real produzia clandestinamente em uma micro fábrica, na Baixa do Fiscal. “Era tudo improvisado. Naquela época se vendia muito picolé, mas ninguém ganhava dinheiro porque era um produto ruim e barato. E todo mundo era clandestino”. 

Tuca na sua fábrica (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

Antes de conseguir abrir o próprio negócio, Tuca trabalhou na fábrica de picolés da tia, no Largo do Tanque. Ganhava meio salário mínimo. Em 1989, veio de um povoado de Ubaíra, Centro-Sul da Bahia, em busca de emprego. Perdeu o pai aos 7 anos e tinha que trabalhar para ajudar no sustento da mãe, que ficou no interior. Foi obrigado a abandonar os estudos na antiga 4ª série. Por um ano, dormiu de favor na casa da irmã do padrasto, em Campinas de Pirajá. 

Ali, chegava a ter que jogar fora as fezes que os moradores deixavam nos penicos: “Como morava de favor, as pessoas se sentiam no direito de pedir essas coisas. Você pensa que eu via aquilo como humilhação? Aquilo me deu mais forças para tomar um rumo na vida”. Aos 14 anos, Tuca também chegou a dormir no tapete da casa do irmão, no IAPI, de quem passou a ser funcionário em outra fábrica de picolés na Baixa do Fiscal. Ganhava um salário. 

Com esse dinheiro, jamais conseguiria abrir a própria fábrica, como já sonhava. Mas, aproveitou que um vizinho entrou em falência. Usou o espaço e o maquinário por um ano e, com a pequena margem de lucro (tinha que dar 50% para o proprietário), criou a Real, em referência ao plano real que surgia naquele ano. Mas, ainda produzia clandestinamente até 1998, quando foi oficialmente registrada.

Imitação
A grande virada veio entre 2000 e 2002, quando, imagine, o CORREIO fez uma reportagem justamente tratando do mercado de picolés em Salvador. A fábrica de Tuca foi colocada na matéria como imitação do Capelinha. “Pirataria gelada”, estampou o jornal, com a foto de Tuca. Aí a ficha caiu. “Pensei: ‘Ah, não. Preciso criar minha própria identidade, me diferenciar’”. Tuca absorve críticas muito bem. Ser diminuído, diz ele, é importantíssimo para depois ser exaltado. 

“Rapaz, aquela matéria, que parecia algo negativo pra mim, na verdade me deu uma força incrível. Agradeço muito por ela”, diz. Recomeçou do zero. Reduziu o número de funcionários, melhorou a qualidade e diversificou os sabores, além de ter mudado o formato do picolé. Deu uma nova cara à Real. Até os palitos se tornaram personalizados, com os nomes impressos. Aí as vendas explodiram.

Mas, era muito trabalho e ainda não tanto dinheiro: “Teve um Réveillon que todos os três funcionários me deixaram na mão. Como eu precisaria ter o produto para vender no dia 1º, passei a noite sozinho na fábrica. Trabalhei um dia e meio seguido sem descansar. Mas, garanti o picolé na rua”.  

(Mauro Akin Nassor/CORREIO)
(Mauro Akin Nassor/CORREIO)
(Mauro Akin Nassor/CORREIO)
(Mauro Akin Nassor/CORREIO)
(Mauro Akin Nassor/CORREIO)
(Mauro Akin Nassor/CORREIO)
(Mauro Akin Nassor/CORREIO)

A fábrica da Baixa do Fiscal ficou pequena. A Real se transferiu para São Cristóvão. Hoje, o homem que dormiu no tapete e passou o Réveillon sozinho trabalhando não parou de crescer mais e tem 22 funcionários. No final de 2017, resolveu dar uma nova guinada nos negócios. Comprou o Solar Amado Bahia, na Ribeira. 

Abandonado, o casarão foi arrematado por R$ 1,5 milhão em um leilão para pagar a dívida de um funcionário do colégio que funcionou no imóvel. Tuca ainda botou mais R$ 700 mil para reformar o casarão, que é tombado pelo Iphan. Abriu o Museu do Sorvete, um espaço cultural que conta também com uma sorveteria.

Curiosa foi a ousadia de se instalar justamente em um local que já tem um concorrente forte: a Sorveteria da Ribeira. “Tem público pra todo mundo”. 

Mais recentemente, Tuca tentou comprar a marca Capelinha. “Eles me pediram R$ 1 milhão. Eu recuei e fortaleci a minha marca”. São poucos os picoleteiros que vendem os picolés da Real no isopor. Com o mercado agressivo, com picolés sendo vendidos por R$ 1 e até R$ 0,50, ele aposta na distribuição de freezers em diversos estabelecimentos. 

“Se for vender no esquema tradicional não consegue manter a qualidade. Nosso picolé já chega no estabelecimento a R$ 1,40. No consumidor chega a R$ 1,80. A gente tem um público diferente e que aceita esse produto”, afirma.

Tuca tem duas máquinas picoleteiras que produz 4 mil picolés por hora cada uma. Em dois caminhões, distribui por toda Salvador, Camaçari, Praia do Forte e Candeias. “Minha capacidade, se cada máquina produzir por cinco horas sem parar, é produzir 40 mil picolés por dia”. Perdeu as contas de quantos distribuidores tem.

Como o produto é diferenciado, ele teve de adaptar o maquinário ao tipo de picolé. A máquina que envaza os picolés na forma foi modificada para que pedaços de frutas e amendoim pudessem passar. De olho no mercado, a Real criou os picolés zero lactose e zero açúcar. Também botou na praça paletas e mini paletas. “Assim que a Monterrey entrou no mercado, vimos que era um bom negócio. Mas, um negócio sazonal, quando o povo compra por ser novidade. Sabíamos que iria estabilizar. Mesmo assim, tem uma boa saída. Chegamos a vender 2 ou 3 mil paletas em um dia”.

Quem abastece Salvador de picolés
Sorvetes Real: Vende entre 15 mil e 20 mil picolés por dia. Mas, tem capacidade para produzir 40 mil
Eduardo Fábrica de Sorvete:  Não forneceu os números
Doce Verão:  Vende cerca de 8 mil picolés por dia
Sorvetes Capelinha: Não forneceu os números  
Sorvetes Realeza:  Vende 5 mil picolés por dia 
Sorveteria Bomnocô:  Vende entre 2 mil e 5 mil picolés por dia

Como é feito o picolé
Preparação - Primeiro é preparado o caldo de cada sabor em um grande recipiente
Separação - No caso dos picolés de frutas, as frutas são despolpadas e esse insumo é separado. No caso dos picolés ao leite, eles passam por um processo de pasteurização
Pesagem - Tudo vai para a balança para que cada produto saia milimetricamente igual ao outro
Congelamento - Os caldos são  colocados nas formas e congelados 
Desenforme - As formas cheias são mergulhadas em água fervente para que o desenforme saia perfeito
Embalagem - Os picolés prontos são colocados na esteira para serem embalados automaticamente


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