Mais sustentável: economia circular traz oportunidades para empreendedores

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29.03.2021, 06:00:00

Mais sustentável: economia circular traz oportunidades para empreendedores

Modelo é baseado na eliminação de resíduos; manutenção dos produtos e materiais em uso; e regeneração dos sistemas naturais

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Há quem pense que os produtos devem seguir a linha extrair, produzir e desperdiçar, afinal, é isso que ocorre na maioria das vezes. Mas os recursos da Terra são finitos, então, é preciso adotar uma abordagem que inclua a ampliação do uso dos materiais, a regeneração dos sistemas naturais e a eliminação de resíduos e poluição na cadeia produtiva. É aí que surge a economia circular, que, além de ser um passo no caminho da sustentabilidade, também traz oportunidades para empreendedores.

Em Salvador, o cenário de adesão à economia circular é favorável, analisa a gestora social, doutoranda em Ambiente e Sociedade pela Unicamp e Analista do Sebrae Bahia, Andreia Barbosa. Além do engajamento da prefeitura, do governo do estado e do legislativo municipal da capital na temática, a cidade também é beneficiada por integrar a rede C40 CITIES e a Fundação Ellen MacArthur.

“No atual cenário de Salvador, a economia circular ganha força. Estamos antenados com as tendências globais. Nossa cidade adere a essa pauta com muita veemência. Nos próximos anos, existe uma tendência positiva para desenvolver a economia circular na capital”, afirma Barbosa. Em 2019, por exemplo, a Prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Municipal de Sustentabilidade, Inovação e Resiliência (Secis), lançou o Desafio Salvador Resiliente – Economia Circular, que fomentou soluções capazes de fortalecer a resiliência na capital com foco nesse novo modelo econômico.

Gerente de Cidades para a América Latina da Fundação Ellen MacArthur, Mike Oliveira, acredita que Salvador tem um compromisso com o fomento de novos modelos de negócios circulares (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

A Fundação Ellen MacArthur tem atuado em parceria com a prefeitura para fortalecer a agenda da economia circular. Para o Gerente de Cidades para a América Latina da instituição, Mike Oliveira, a capital baiana tem um compromisso com o fomento de novos modelos de negócios circulares, especialmente os voltados para as comunidades periféricas e grupos minoritários. Essa também é uma forma de distribuir renda e trazer mais resiliência em tempos de pandemia. “Com a Secis, é pensado como inserir grupos na economia circular, ao fazer com que as pessoas entendam esse conceito e possam promover novas ideias de negócios nesse âmbito nos seus bairros”, comenta Oliveira. 

Para uma transição cada vez mais efetiva da economia linear (com mais desperdício) para um modelo circular, toda a comunidade precisa estar engajada. “A economia circular só ocorre com uma mudança sistêmica de forma colaborativa. Um empreendedor que vai começar um negócio baseado nesse conceito deve ativar as outras etapas da cadeia produtiva, como os fabricantes de matéria-prima. A economia circular não é só um negócio, mas deve ter vários atores envolvidos”, explica o Gerente de Cidades para a América Latina.

Pequenos negócios
Os conceitos da economia circular estão cada vez mais acessíveis aos pequenos negócios, apontam Oliveira e Barbosa. Apesar do acesso mais facilitado à agenda de sustentabilidade, ainda não é fácil atuar dentro desse novo modelo econômico. Para o Gerente da Fundação Ellen MacArthur, é preciso de mais políticas públicas de incentivo ao empreendedorismo circular. “Na comparação com as grandes empresas, os pequenos empresários podem até obter mais êxito na inovação em sustentabilidade por ter uma operação mais enxuta. É preciso apoiar essas pequenas empresas porque esbarramos na falta de educação ambiental ao abordar os temas da economia circular”, ressalta Barbosa.

Para o professor do Departamento de Engenharia Ambiental da Ufba e coordenador da Rede de Tecnologias Limpas (Teclim), Francisco Ramon, em um ponto de vista geral, os micro, pequenos e médios empresários ainda não compreendem o conceito de economia circular, o que não só trava a adoção de ações nesse sentido, mas também impede que eles se reconheçam como parte desse novo modelo. “É preciso haver uma articulação do poder público e da própria academia para incentivar a inovação e o investimento em economia circular. Temos muitos jovens e startups realizando coisas legais, mas é preciso expandir a atuação”, afirma Ramon.

Além de apoiar a preservação, o pequeno empresário também pode reduzir custos e obter novas fontes de renda com a economia circular. Para a analista do Sebrae, o primeiro passo antes de adotar esse conceito é estudar sobre o assunto. 

Quem desejar consultar mais informações sobre o tema pode recorrer ao Centro Sebrae de Sustentabilidade e aos conteúdos da Fundação Ellen MacArthur. No âmbito estadual, a entidade oferece o Sebraelab, no espaço Colabore, localizado no Parque da Cidade, em Salvador.

“O Sebraelab traz o conceito de inovação para o pequeno negócio em direção à sustentabilidade. Oferecemos jornadas e mentorias para capacitar os empreendedores durante 4 meses. Essa é uma boa oportunidade para iniciativas de economia circular”, afirma Barbosa. A primeira chamada da pré-incubação do Sebraelab Habitat de Impacto 2021 escolheu 20 projetos e um novo edital deve ser aberto no segundo semestre.

Potencial
Apesar das grandes empresas terem avançado na adoção da abordagem da economia circular, o professor da Ufba acredita que a ação das corporações maiores ainda estão muito baseadas na reciclagem, que é, em ordem prioritária, a última estratégia para uma economia circular. Para Ramon, é nas pequenas e médias empresas que mora o potencial de melhoria da eficiência do uso de materiais, capaz de prolongar a vida útil de um produto e atingir um tempo máximo possível de uso. “As grandes empresas ainda não aplicam realmente o que seria a economia circular, baseada nos conceitos de Produção mais Limpa e Ecologia Industrial, por exemplo. Os processos como compartilhamento, reforma e remanufatura, que visam estender o tempo de uso de um produto, dependem das empresas menores. Também são os pequenos e médios empresários que possuem mais potencial de distribuição de renda”, explica.
  
Dentro da economia circular, o conceito de Upcycling - aproveitamento de objetos, com criatividade e respeito ao meio ambiente - pode adicionar valor aos negócios e aumentar a renda de empresários de menor porte. “Muitos produtos podem se transformar, assim, sendo usados por mais tempo e também ganhando valor agregado. Em todos os segmentos, o Upcycling deve ser incentivado”, pontua Ramon.

Oportunidades
Para o professor, os setores de comércio e indústria apresentam boas oportunidades para empreender com a economia circular pela força dessas áreas em Salvador. “Precisamos de empresas que de fato gerenciem os materiais, não apenas façam reciclagem e compostagem. É preciso ter essa visão de mercado em prol da eficiência do uso de materiais”, afirma Ramon. 
Uma outra boa solução apontada pelo professor é a entrega de alimentos de pequenos produtores locais, porque isso cria uma cadeia em prol da economia circular e pode fortalecer o sistema agroflorestal local. Já a analista do Sebrae aponta que os serviços de beleza podem ter muitos ganhos ao aderir à economia circular. O processo reduz o desperdício e aumenta o lucro. “É preciso pensar de forma local e na distribuição de renda. Salvador tem destaque nesse âmbito por contar com ações da Secis e do Sebrae Bahia. É preciso sempre incentivar bons negócios de economia circular que possam gerar renda”, afirma Ramon.

O que é Economia Circular

A economia circular se contrapõe à economia linear que segue a linha de extração de recursos naturais, produção e desperdício de materiais. Portanto, esse outro modelo econômico mais sustentável dissocia a atividade econômica do consumo de recursos finitos e busca construir capital econômico, natural e social. O conceito é baseado em três princípios: a eliminação de resíduos e poluição desde o princípio; a manutenção dos produtos e materiais em uso; e a regeneração dos sistemas naturais.

Dicas para quem quer empreender com economia circular

  • Analise o potencial de cada local, perfil da cidade de atuação e as tendências do momento. É necessário pensar nos setores prioritários
  • Estude sobre o tema para saber como empreender com o conceito de economia circular. Existem cursos gratuitos sobre esse modelo econômico
  • Mobilize outros atores e parceiras para uma busca conjunta pela economia circular
  • Examine a intencionalidade da empresa para não realizar greenwash (falso ambientalismo). Ter um objetivo claro é importante para convencer os investidores e o público a apoiar a ideia.
  • Conheça os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e suas metas para justificar a ideia empreendedora e o modelo de negócio da empresa
  • Fique atento às oportunidades de acessar recursos, tanto de investimento quanto de capacitação

*Com orienteção da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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