Mercado de defensores naturais cresce em todo o Brasil

sustentabilidade
22.09.2019, 13:00:00
Atualizado: 27.09.2019, 16:37:57
((foto: Divulgação / Brotei))

Mercado de defensores naturais cresce em todo o Brasil

Empresa de Barreiras e minhocultor de Seabra mostram que a Bahia tem muito a ganhar com lavouras mais sustentáveis

Eles são minúsculos e muitas vezes até invisíveis a olho nu. Mas têm capacidade de promover gigantescos efeitos positivos nas lavouras e na produção de alimentos. São inimigos naturais - como insetos, fungos, bactérias e até vírus - de pragas e doenças que causam perdas nas plantações. A popular joaninha, aquele besourinho vermelho de manchas pretas, é eficaz, por exemplo, no combate à mosca branca, que atinge os pés de laranjas. 

Existem ainda fungos que repelem lagartas predadoras de hortaliças ou neutralizam outros fungos, algas que reforçam o vigor das raízes de feijão, e até insetos encapsulados que protegem plantações de grãos.

Todos estes bioagentes estão ganhando força no mercado. Os números são incontestáveis, e mostram que esses tipos de defensivos, com pouca toxicidade e de baixo impacto ambiental, vêm se consolidando como um segmento promissor. 

A venda dos produtos biológicos movimentou mais de R$ 464 milhões no Brasil no ano passado, um crescimento de 77% em relação ao ano anterior. Foi o maior índice de ampliação da história do segmento segundo a Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio).

As estatísticas confirmam que os agricultores estão adotando, cada vez mais, produtos sustentáveis e menos agressivos ao ecossistema.

“O controle biológico integra uma estratégia que reduz a pressão no meio ambiente. As tecnologias que combinam produtos de base biológica, conhecimento aprofundado das relações entre os diversos elementos do campo, uso inteligente de dados e automação nos processos são as que vão revolucionar a agricultura. O controle biológico preenche todos esses requisitos”, afirma Amália Borsari, diretora-executiva da ABCBio.

Alguns segmentos apresentaram evolução e crescimento ainda mais acelerados. As vendas dos chamados biofungicidas, usados para inibir a ação de outros fungos que atacam plantas, registraram um aumento de 148% entre 2017 e 2018.

No Brasil o campo é ainda mais fértil para o segmento. Estimativas da consultoria Dunhan Trimmer, revelaram que o mercado de biológicos deve crescer 15% no Brasil ao ano, um percentual 6% maior do que no restante do mundo. As empresas do segmento devem movimentar mais de US$ 3 bilhões até 2020, cerca de US$ 800 milhões apenas na América Latina.

“O aumento do uso do controle biológico ocorre porque hoje as pessoas estão buscando alimentos mais saudáveis, que sejam produzidos de forma sustentável, sem contaminar o meio ambiente. E os insumos biológicos oferecem isso”, afirma o pesquisador Roberto Alves, da Embrapa Cerrados.

Apesar dos prognósticos positivos, os biodefensivos representam apenas 2% do mercado de insumos do Brasil. Cerca de 98% das vendas ainda são de defensivos químicos. Os dados da pesquisa da ABCBio, realizada com 1.762 agricultores de todo o país, também revelam que 43% dos produtores rurais disseram que ainda desconhecem os biodefensivos.

Por outro lado, 98% dos agricultores que já usam estes produtos afirmaram que pretendem aplicá-lo na próxima safra. Cerca de 76% deles apontaram a eficiência dos produtos no combate as pragas como justificativa. Para alguns especialistas, além de uma ação de proteção ao meio ambiente, o uso de controle biológico é uma estratégia de gestão que vem sendo seguida pelos produtores rurais que desejam longa vida para os negócios. Cuidar do solo é essencial para manter as propriedades rentáveis.

“O controle biológico evoluiu em conceitos e abordagens e está cada vez mais integrado às estratégias de gestão produtiva”, afirma o professor da Universidade de São Paulo, José Roberto Postali.

Todos estes processos fazem parte da chamada bioeconomia ou economia verde, que vem conquistando espaço no mundo. Segundo a Associação de Bioinovação (ABBI), o setor engloba todas as cadeias produtivas que buscam aplicar os recursos biológicos e renováveis de forma inovadora nos processos industriais. São atividades que geram benefício social, econômico e ambiental e vão desde a segurança alimentar a geração de energia limpa.

TECNOLOGIA

O controle biológico de pragas e doenças na agricultura é milenar. Relatos históricos mostram que no Século III antes de Cristo, os chineses já usavam insetos predadores de pragas. Mas ao longo dos séculos o sistema evoluiu, e além da simples introdução de inimigos naturais nas lavouras, passou a envolver tecnologias modernas como bioestimulantes, bioagentes e biofertilizantes. 

Segundo o Ministério da Agricultura, o primeiro produto biológico do Brasil foi registrado em 1991. Atualmente, o pais tem 262 substâncias de baixa toxicidade registradas. São desde produtos da agricultura orgânica, como extratos vegetais, a substâncias microbiológicas. O maior recorde anual foi registrado em 2018, quando 52 novos produtos deste tipo entraram para a lista. Este ano, até agora, 14 produtos biológicos foram liberados pela Anvisa para uso nas lavouras.

Só para ter uma ideia, apenas contra a cigarrinha-da-pastagem, praga que causa prejuízos em muitas lavouras, são 37 bio produtos registrados no Brasil. Já contra a mosca branca, a broca do café e o moleque da bananeira existem disponíveis outros 26 produtos. 

Outros indicadores mostram que o mercado mundial de controle biológico saltará dos US$ 3 bilhões em 2019 para mais de US$ 5 bilhões nos próximos cincos anos.

Mas os pesquisadores alertam. Diante de doenças e pragas cada vez mais resistentes, o uso de produtos químicos em algumas plantações é inevitável. A integração entre o biológico e o químico é o recomendável nestes casos. 

"Cada vez mais, o controle está baseado no consórcio das ferramentas químicas, biológicas, culturais e comportamentais. O foco é buscar a sustentabilidade, no conjunto social, econômico e ambiental. As ferramentas biológicas vieram para somar", diz Robson Luz Costa, diretor técnico da ABCBio. 

MADE IN BAHIA

Se para muita gente o crescimento dos biodefensivos surpreende, para o empresário José Cláudio Oliveira é um sonho concretizado, que vem sendo colocado em prática há mais de 30 anos. 

A história começou em 1987, quando o então recém-formado engenheiro agrônomo decidiu testar o uso de um fungo para combater pragas nas plantações de feijão. Até aquele momento o Tricoderma vinha sendo utilizado apenas no cultivo de orquídeas.

“Eu comecei devagar e muita gente duvidava. Mas eu acreditava que se reforçasse a saúde da raiz, a planta cresceria mais forte e saudável para enfrentar os inimigos, as doenças de solo e a seca”, conta.

O engenheiro agronômo José Claudio Oliveira (no centro) criou uma das maiores empresas nordestinas de desenvolvimento de controle biológico de pragas e doenças. Empresa tem sede em Barreiras, no oeste da Bahia, e conta com equipe especializada no desenvolvimento dos produtos. (Foto: divulgação)

O tricoderma foi usado para reforçar a resistência nas sementes do feijão numa fazenda do oeste da Bahia e as plantinhas começaram a crescer mais fortes. O teste mostrou ainda que o fungo ajudava a planta a controlar o mofo branco, comum nestas lavouras.

O experimento deu tão certo que José Claudio decidiu abrir a própria empresa de controle biológico de pragas. Foi assim que surgiu a JCO. A sede fica em Barreiras e hoje é uma das maiores empresas de controle biológico do Nordeste. A companhia emprega mais de 90 pessoas e produz biofertlizantes e bio inseticidas. Nos laboratórios da empresa já foram desenvolvidos três bioprodutos em uso no mercado, e outros dois devem ser lançados nos próximos anos.

“É aquele sentimento de dever cumprido como profissinal de agronomia que fez o juramento de servir à agricultura e de trazer alimento para a sociedade. Mas olho para frente e sei que precisamos fazer muito mais. O céu é o limite para os produtos biológicos. São evoluções cientificas que vieram para mudar o modo de viver e de produzir”, afirma o empresário.

ALGAS

O desenvolvimento de agentes biológicos atrai cada vez mais novos profissionais. Depois que se formou em biotecnologia, Rodrigo Gomes Guimarães fez mestrado em engenharia industrial e há quatro anos criou a Brasbiotec, startup especializada em consultoria e desenvolvimento de projetos em biotecnologia. Foi assim que começou a desenvolver defensivos agrícolas a base de fungos e produtos feitos a partir de microalgas voltados para a indústria farmacéutica e alimentar.

"As microalgas apresentam na composição uma grande concentração de compostos antioxidantes, e a massa chega a ter 70% de proteína. Elas já são amplamente utilizadas no continente africano em projetos de combate à desnutrição, tendo um grande potencial para ser aplicado na região do semiárido nordestino como fonte alternativa de proteínas. As microalgas, como a Spirulina e a Cholorella, são alimentos que já possuem um mercado consolidado, porém são comercializados a elevados preços. Queremos reduzir o custo de produção e tonar o alimento mais acessível", conta o pesquisador.

O estudo vem sendo desenvolvido através de uma parceria com o Laboratório de Bioenergia e Catalise (Labec) da Universidade Federal da Bahia, em um grupo coordenado pelo professor Emerson Sales. O suplemento alimentar a base de microalgas está em processo de validação, e deve entrar no mercado em 2020.

Pigmentos a base de microalgas marinhas estão sendo desenvolvidos através de uma parceria com o Labec/Ufba. Produtos serão usados na podução de suplementos alimentares e estão em fase de certificação. (Foto: Brasbiotec)

"A indústria química foi e ainda é muito importante para a agricultura, porém, com os avanços, os processos biotecnológicos estão se mostrando cada vez mais eficientes para superar as barreiras tecnológicas, permitindo entregar para o mercado soluções que atendem as demandas do mercado, de forma mais eficiente, ao mesmo tempo que proporcionam menos danos ambientais, por serem mais facilmente degradados no meio ambiente. Decidimos entrar neste mercado por apresentar um grande portencial de crescimento e por terem aplicações mais específicas", afirma o pesquisador. 

Depois que os produtos forem certificados, a unidade de produção deve ser instalada na região metropolitana de Salvador.

MINHOCAS

Quem chega ao Sítio Monte Alverne, no município de Seabra, na Chapada Diamantina, logo percebe que as minhocas são as rainhas do pedaço. Todas as áreas da propriedade foram planejadas para favorecer o crescimento destes animais. 

Elas se espalham por 25 tanques de criação e são a principal fonte de renda da fazenda. Ao percorrer o solo, as minhocas criam túneis de ar que ajudam a remover e revitalizar o solo, abrir canais de irrigação, fertilização e descompactação da terra. É assim que elas produzem um dos adubos mais ricos em nutrientes para as plantas, o húmus. Fazer disso uma fonte de renda foi o que incentivou o produtor rural João Carlos Gomes a implantar o minhocário na fazenda há 27 anos.

“Elas são ótimas para produção de terra vegetal. Já os derivados servem de inseticida e biofertilizantes naturais.  E até o chorume, que é extraído do esterco dado a elas como comida, depois que perde a acidez serve para a agricultura”, conta o produtor rural.

O negócio deu certo. Nos últimos anos, João ficou até conhecido como um dos reis das minhocas do Brasil. Atualmente, a cada 45 dias saem da fazenda mais de 20 toneladas de adubo orgânico, com a marca Humus Prata.

O produto final está cada vez mais valorizado no mercado, que atende principalmente aos produtores de alimentos orgânicos. A tonelada de adubo de minhoca custa, em média, entre R$ 900 e R$ 1,2 mil. 

“O mercado cresceu muito e está cada vez mais profissional, e mais consistente”, comemora o produtor rural.

Há 27 anos o produtor rural João Carlos Gomes investe na criação de minhocas para produção de adubo orgânico. (Foto: dilvulgação)

João faz questão de ser chamado de minhocultor e hoje mantem até um canal de divulgação sobre os animais na internet, o Canal da Minhoca. Depois da criação das plataformas digitais o faturamento da fazenda aumentou mais de 40%.

“A internet me ajuda a difundir o quanto elas são benéficas para o mundo. Além de serem excelentes para o meio ambiente, elas também transformaram a minha vida. Me ensinaram a ser mais paciente e a acreditar mais no poder da natureza”, completa. 

SERVIÇO

Para identificar insetos que são benéficos as lavouras, uma dica é acessar o Guia para Reconhecimento de Inimigos Naturais de Pragas Agrícolas, escrito por pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) em parceria com a Associação de Agricultores Biológicos do Rio de Janeiro.

A cartilha traz dezenas de exemplos de insetos que devem ser preservados nas plantações por serem predadores de outros animais considerados pragas. Na lista estão insetos como as vespas e percevejos que consomem pequenas lagartas, as tesourinhas que se alimentam de ácaros, e as famosas joaninhas que são predadoras naturais de fungos e cochonilas. A versão digital do guia da Embrapa pode ser acessada de graça aqui.
 

As Joaninhas são inimigas naturais dos pulgões e ajudam a combater pragas nas lavouras
As Joaninhas são inimigas naturais dos pulgões e ajudam a combater pragas nas lavouras ((Foto: Alessandra de Carvalho Silva Embrapa Agrobiologia))
Guia prático da Embrapa ajuda a identificar insetos benéficos para as plantações, como as Joaninhas
Guia prático da Embrapa ajuda a identificar insetos benéficos para as plantações, como as Joaninhas ((Foto: Paulo Roberto Pereira Embrapa Trigo))

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