Metade dos adultos baianos não tem Ensino Fundamental completo

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16.07.2020, 05:00:00
(Agência Brasil)

Metade dos adultos baianos não tem Ensino Fundamental completo

Analfabetismo cresceu pela terceira vez seguida no estado e apenas 11% dos baianos concluíram algum curso superior

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Na Bahia, metade dos adultos não concluíram sequer o Ensino Fundamental, aquele que antecede o atual ensino médio. No total, são 4,6 milhões de baianos com 25 anos ou mais que tiveram que abandonar os estudos antes da conclusão do Ensino Básico obrigatório por lei. Esse é um dos resultados do módulo sobre Educação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), referente ao ano de 2019.  

O estudo completo foi divulgado nesta quarta-feira (15) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e também constatou a taxa de frequência escolar em outros locais do Brasil. O índice de não concluintes do Ensino Fundamental na Bahia corresponde a 49,3%, que é o sexto maior percentual do país e está acima da média nacional de 38,7%.  

A Bahia só perde para outros cinco estados do Nordeste, que encabeçam o ranking nacional: Alagoas (54,1%), Piauí (50%), Paraíba (53,2%), Maranhão (50,9%) e Sergipe (49,8%). Já Distrito Federal (27,7%), Rio de Janeiro (27,5%) e São Paulo (29,0%) tiveram os menores índices.  

Se a taxa de não concluintes do Ensino Fundamental já é alta, consequentemente, a do Ensino Médio é maior: quase 60% dos adultos baianos não terminaram essa etapa da formação acadêmica.

São 5,53 milhões de baianos que não têm os 11 anos de estudo básico exigido em lei.  

No caso do Ensino Superior, apenas 11% dos baianos adultos concluíram alguma graduação, o que coloca o estado numa posição de destaque entre os piores índices do país, ao lado do Maranhão (9,1%) e Pará (11,1%). No Brasil, o índice geral é de 17,4% da população que terminou algum curso superior. O estado com o maior percentual é o Distrito Federal (33,8%).  

Entre os que concluíram a universidade, as desigualdades por sexo e, sobretudo, por cor ou raça são mais marcantes. Enquanto 13,3% das mulheres tinham Nível Superior em 2019, o percentual entre os homens é de 8,7%. Já o percentual de pessoas que se declaram brancas com Nível Superior é quase o dobro dos que se declaram pretas ou pardas: 18,5% frente a 9,6%. 

Alfabetização 
Se o nível de instrução acadêmica dos baianos é relativamente baixo o reflexo disso se dá em outros aspectos. Pela terceira vez seguida, o analfabetismo na Bahia cresceu e atingiu uma taxa aproximada de 13% de baianos adultos que não sabem ler nem escrever um bilhete simples.

Esse aumento fez com que o estado ultrapassasse o total de 1,5 milhão de analfabetos.  

Desde que esse estudo começou a ser realizado, em 2016, a Bahia sempre esteve com o maior número de pessoas analfabetas entre todos os estados brasileiros. São 45 mil pessoas a mais, em comparação com o resultado obtido na primeira Pesquisa por Amostra de Domicílios, o que demonstra que estamos longe de atingir a meta do Plano Nacional de Educação (PNE) em erradicar o analfabetismo até 2024.  

Além da Bahia, seis estados brasileiros também tiveram aumento no número absoluto de analfabetos entre 2018 e 2019, quatro do Nordeste. Isso contribuiu para que a região fosse a única do Brasil a apresentar alta na taxa de analfabetismo entre 2018 (13,87%) e 2019 (13,90%), um aumento percentual pequeno, mas estatisticamente significativo para um indicador que vinha em queda. 

Na Bahia, 89% dos analfabetos têm 40 anos ou mais de idade e pouco mais da metade (54,8%) são idosos. Além disso, a taxa de analfabetismo dos adultos que se declaram pretos ou pardos (13,5%) é superior à dos que se declaram brancos (10,4%). Entre os idosos, a diferença é bem maior: 39,2% dos pretos ou pardos são analfabetos, frente a 26,9% dos brancos. 

Repercussão 
Para Rodrigo Pereira, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (Ufba), que estuda políticas da educação, os dados refletem as consequências da desigualdade que existe na Bahia. “Há um conjunto de desigualdades suciais que se revelam por questões estruturais. O racismo, em todo o país, afeta as políticas públicas. Os dados demonstram as consequências do racismo como elemento estrutural na Bahia”, disse.  

Para Joanice Souza, presidente da Seção Bahia da Associação Brasileira de Psicopedagogia, há também um problema educacional relacionado com a situação socioeconômica do estado. “O que dificulta os nossos educandos, principalmente os que estão na fase adulta, é a necessidade deles de terem que sobreviver. Ter que trabalhar e ir para a escola de noite é algo cansativo e desestimulante, o que influencia na evasão escolar”, explicou. 

Joanice é otimista e acredita que os dados vão melhorar nos próximos anos. “É preciso reformular o nosso sistema de ensino para que ele seja efetivo e estimulante para os estudantes”, disse. Já o professor Rodrigo defende a aplicação de políticas públicas e do seu financiamento. “A União é a que mais arrecada e a que menos investe em educação. Se ela cumprisse seu papel constitucional, com mais vontade política, dava para se sustentar uma educação pública de qualidade”, argumentou.  

Em nota, a Secretaria de Educação do Estado (SEC) disse que o Governo Federal suspendeu o programa Brasil Alfabetizado, o que impactou diretamente nos programas de alfabetização nos estados. “Na Bahia era desenvolvido o Todos pela Alfabetização (TOPA), por meio do qual foram alfabetizados mais de 1,5 milhão de baianos e a descontinuidade do Brasil Alfabetizado implicou no corte de 100 milhões de reis de financiamento do TOPA”, disse. 

A pasta também afirmou que tem implementado programas e projetos que contribuem para o acesso e a permanência de estudantes ao Ensino Superior, com programas que beneficiam estudantes em condições de vulnerabilidade socioeconômica com bolsa de auxílio permanência. “A SEC também tem investido em programas e projetos voltados à elevação da escolaridade, como os cursos de qualificação do Poeja e Pronatec da Educação Profissional”, afimou. 

Michele pioneira 
Dentro do índice de 11% dos baianos que concluíram o Ensino Superior, a comunicóloga Michele Menezes, 26 anos, tinha tudo para não estar nesse percentual. Ela é a primeira pessoa da sua família e a segunda da sua cidade, Ribeira do Amparo, no Nordeste baiano, a ser aprovada na Universidade Estadual da Bahia (Uneb).  

Até na roupa da formatura Michele demonstra suas raízes nordestinas (Foto: arquivo pessoal)

“Quando cheguei em Salvador, não conhecia ninguém. Fui atrás das políticas da Universidade para sobreviver. No início, precisa pagar aluguel e as vezes não tinha dinheiro nem para pagar a passagem de ônibus. Tive que pegar caronas ou contar com a ajuda dos meus colegas”, lembra.

A situação de Michele só melhorou quando ela conseguiu uma bolsa de permanência e entrou na residência universitária. Os pais dela fazem parte da metade de adultos da Bahia que não concluíram sequer o Ensino Fundamental. Eles também são analfabetos. “Nós não tivemos oportunidade de estudar, pois na nossa juventude, as coisas eram mais difíceis. A escola era distante e tínhamos que trabalhar na roça”, lembra o agricultor Lourenço Souza.  

Assim como a esposa, Valdinete Menezes, Lourenço só sabe assinar o nome. Essa realidade impediu a mãe de Michele de seguir o sonho de ser professora. “Tinha um grande sonho de ser professora, mas não tinha condições de estudar fora, meus pais não podiam pagar e sequer tinha transporte direito na cidade. Só aprendi o meu nome”, disse Valdinete.  

"Não é porque eles não frequentaram a escola que eles não possuem saberes. Eles sabem a hora de plantar, a hora de colher. Lá não tem nenhum agrônomo", disse Michele sobre os pais (Foto: arquivo pessoal)

A história de superação de Michele foi contada por ela mesma em um documentário autobiográfico, Michele de Michele Mesma, fruto do seu Trabalho de Conclusão de Curso, aprovado com nota máxima. O filme foi feito com o objetivo de ser acessível para os pais e acabou sendo selecionado para ser exibido no 15º Festival Itaguatinga de Cinema. A produção está disponível no site do evento, concorrendo na mostra Seleção Popular.   

“Graças ao Ensino Superior, consegui quebrar um ciclo vicioso. Todos os meus ancestrais eram destinados a ter o mesmo futuro que não incluía a educação de qualidade. Quero agora poder voltar para a minha cidade e contribuir com a educação do lugar de onde eu saí, seja como professora ou até como prefeita”, disse Michele.

* Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro.

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