Minha casa é um boteco: sem bares, baianos usam a criatividade para 'comer água'

coronavírus
31.05.2020, 12:00:00

Minha casa é um boteco: sem bares, baianos usam a criatividade para 'comer água'

Hábito de beber mudou e frequência aumentou na quarentena: 'Tiraram o bar da gente, mas não de dentro da gente. Final de semana aqui em casa é todo dia'

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'Lar, doce bar' de Gabriela e Daniel durante a quarentena (Foto: divulgação)

Poderia se dizer que ela está “vestida para matar”, mas na verdade é para beber mesmo. Batom reforçado, preto básico, puxou a cadeira, sentou-se e encheu o copo de cerveja. À mesa, petiscos. Na TV, combate do UFC. Poderia estar em um bar qualquer no Rio Vermelho ou na Pituba, mas, respeitando a quarentena, a gerente de marketing Micaela Estanislau, 42 anos, se acomodou na sala de sua própria residência.

“Tiraram o bar da gente, mas não tiraram o bar de dentro da gente. Essa atmosfera é para tentar viver um pouco da vida normal que a gente tinha. Eu sou apaixonada por cerveja, vinho, bar e UFC. Então tento reproduzir isso”, afirma Micaela, que é baiana e mora em São Paulo.

Há os que, no isolamento, estão bebendo muito mais. Outros relatam estar bebendo apenas com mais frequência. Enquanto os pedidos de bebidas on line crescem sem parar (uma pesquisa aponta um crescimento de 93%), a indústria do ramo diz que retraiu 71% - já que 61% do consumo dessas bebidas acontecia em bares. (ver pesquisa abaixo).

Micaela: atmosfera de boteco em casa (Foto: Divulgação)

O fato é que, além de ninguém ter parado de beber por causa do isolamento, quem gosta mesmo de uma mesa ou balcão de bar tem dado um jeito de transformar a casa em boteco. O comportamento na hora de “comer água” está se adaptando à quarentena. Mais presente em casa, as pessoas têm “tomado uma” (ou duas, três, quatro...) com mais frequência.

“Não sei os outros, mas eu, de fato, aumentei meu consumo de bebidas. E também aumentei a frequência. A gente que é baiano sempre dá um jeito de ficar feliz, né?”, diz Micaela. “Durante a quarentena tá passando UFC quarta-feira também. Você acha que vou assistir sem tomar uma. Final de semana aqui é todo dia”, disse Micaela (@micaelaestanislau), que não só bebe como entende muito de cerveja, além de ser cursada em vinhos pelo Gilgamesh de Londres, Inglaterra.

Pois é. Neste quesito, e em muitos outros, a quarentena parece ter extinguido uma coisa chamada final de semana. Quem bebia só sexta, sábado e domingo, agora não tem mais dia para isso. Na maioria dos relatos, a frequência realmente aumentou. Ainda que em menores quantidades. “A frequência aumentou porque na minha cabeça todos os dias são iguais. Tenho me policiado em relação a quantidade mesmo”, explica a jornalista Jaqueline Assemany, que andou trocando de bebida.

'Na minha cabeça todos os dias são iguais', diz Jaqueline (Foto: Divulgação)

“Em bar eu tomava mais cerveja. Agora passei a tomar vinho porque, pra mim, é uma bebida que se degusta e não se bebe em quantidade como no caso da cerveja", afirma Jaque.

Na sexta-feira (22) foi aniversário do administrador Filipe Goes, 36 anos. Se não pode marcar com os amigos no bar, junta o arsenal de bebidas e transforma a mesa em balcão. Isolados, ele, a mãe, os irmãos e o cunhado tomaram uma grade de cerveja e uns drinks. “Aí é só ligar a caixinha de som”, previa Filipe, horas antes da comemoração. "Vou começar no licor". 

Filipe e seu arsenal (Foto: Divulgação)

E as lives? Ainda que seu artista preferido não encha a cara como fez alguns sertanejos, elas também são um incentivo a entornar uns copos. “Você vai assistir uma live e dá vontade de tomar alguma coisa, né? Não chega a ser um refúgio. Não tem o descontrole de levar a madrugada bebendo. É o ócio mesmo de ficar em casa e precisar assistir um show”, diz a representante Ana Bastos, 34 anos.

De pasteizinhos a josefina (Foto: Divulgação)

O casal de publicitários Daniel Farias, 32 anos, e Gabriela Abal, 29, fica ligado na agenda de lives do final de semana. O foco é mesmo sexta, sábado e domingo. Uma forma de não beber todo dia. O "lar, doce bar" deles ganha cardápio variado que vai de pasteizinhos fritos a josefina com farofa. E cerveja! “Acho que a gente não aumentou o consumo, não. Acho! Ou talvez, sim!”, ri Gabriela.

Foi o fenômeno das lives e a própria quarentena que fizeram a estudante Marcela Alves, 31 anos, passar a fazer algo que não costumava: beber em casa. “Aqui não tinha bebida alcóolica. Minha mãe não bebe e eu não bebo sozinha”. Acontece que ela foi convocada pelas amigas a beber juntas, on line, cada uma em sua casa, como se estivessem em um bar. Enquanto a live passa na TV, elas conversam pelo celular ou computador. “A gente tenta se sentir em um bar. Até as marcas de cerveja que eu tomava no bar tomo agora também”.    

Desopilar
Diante das ansiedades e oscilações psicológicas que o isolamento trouxe, a bebida é vista por muita gente como um desopilador, uma maneira de relaxar um pouco. A empresária Leana Mattei tenta usar o vinho e a cerveja a seu favor. “Tenho vontade de beber todo dia, mas seguro a onda. A bebida ajuda no relaxamento. Bebo uma taça geralmente no jantar pra dormir melhor. Não tem regra de dia”, afirma Leana, que prepara petiscos requintados para comer sozinha na quarentena. “Não tenho gostado de beber muito porque curar ressaca sem banho de mar é mais difícil”, brinca.

Leana diz que segura onda (Foto: Divulgação)

O executivo Rodrigo Lopes, 45 anos, admite que tá bebendo mais, sim! E quase todo dia. “São muito fatores. Primeiro que parei com os exercícios físicos, que é fonte de endorfina. Aí a gente acaba substituindo, né? A outra coisa é que estou fazendo o almoço todo dia. E sempre gostei de tomar um vinhozinho enquanto fazia o almoço no final de semana. Como estou fazendo o almoço sempre, a tacinha de vinho está sempre do lado”.   

O delivery dos bares também ajuda a manter o consumo do seu petisco preferido. Diversos estabelecimentos têm produzido suas iguarias para os clientes pegarem na porta. Tem gente que não passa, por exemplo, sem o arrumadinho ou o mix de salsichões do Bagacinho Boteco, na Barra. Peça com dois dias de antecedência. “Mas tem sempre os que pedem de última hora e a gente se vira”, diz a proprietária do bar, Karla Baqueiro, que também tem transformado a própria casa em boteco. “Aqui é casa de ferreiro, espeto de ferro. Casa de dono de bar, é bar!”, finalizou.  

Indústria de bebidas vende menos, mas pedidos delivery crescem 93,9%
A plataforma Compre&Confie fez uma pesquisa que apontou um aumento de 93,9% nas compras realizadas pela Internet. A pesquisa, realizada entre 24 de fevereiro e 3 de maio, comparou os resultados com o mesmo período de 2019 e é apenas um indicativo de que as pessoas estão bebendo em casa. Mas, no final das contas, o mercado retraiu. A Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe) aponta uma queda média de 71% no faturamento das empresas de bebidas alcoólicas na primeira quinzena de abril.

A queda, claro, tem a ver com o fechamento dos bares, restaurantes e casas noturnas, já que 61% do consumo dessas bebidas, segundo pesquisa encomendada pela própria Abrabe, acontece nesses estabelecimentos. "A bebida alcoólica é um complemento ao convívio social, às celebrações e aos encontros festivos. No isolamento social, não há esta interação em larga escala", disse a presidente-executiva da associação, Cristiane Foja, em entrevista ao Broadcast, sistema de notícias do Grupo Estado. O CORREIO procurou diversas empresas de bebidas que fabricam e vendem seus produtos na Bahia. Todos indicam grande retração do setor também aqui.

Cinco toques para beber de forma segura
Todas as pessoas que bebem estão sujeitas a algum risco decorrente do uso. Por isso, não há uma maneira totalmente segura de beber. Mas, há formas de ampliar os níveis de segurança. Baseado em cartilhas de redução de danos e em entrevistas com especialistas, aí estão cinco toques básicos para o momento de consumir álcool.  

1 - Não use a bebida para uma utilidade como "baixar o nível de tensão" ou "diminuir a tristeza". Beba para se divertir.  

2 - Evite que o ato de beber se torne uma “bebedeira”, ou seja, tente não exagerar. 

3 - Procure estabelecer antes de uma ocasião social o quanto irá beber. Estipule um limite. 

4 - Beba lentamente e tente aumentar o tempo de intervalo entre uma dose e outra

5 - Alterne bebidas alcóolicas com bebidas sem álcool e não beba de estômago vazio. 

'Para ser aliado no isolamento, álcool precisa ser coadjuvante', diz psiquiatra
O experiente psiquiatra Gervásio Araújo alerta para os riscos de a bebida alcóolica criar ou potencializar um vício durante e após a quarentena. Até porque, diz ele, o ideal é que ele seja usado em momentos recreativos. "Não se deve ultrapassar o momento da euforia e da boa risada. Nesse momento difícil, se a pessoa entender que está se beneficiando do efeito do álcool para superar as tensões, isso pode potencializar o vício de quem já tem ou criar em quem não tem", explica.

"Todo mundo tá preocupado, todo mundo tá com medo do que pode acontecer. Muitas pessoas partem para o álcool como uma forma de aliviar a tensão. São poucas pessoas que estão bebendo porque querem se divertir", acredita Gervásio. Mas há, sim, formas de utilizar a bebida como aliada. Se ela for coadjuvante de momentos de descontração, o que tem sido muito raro na quarentena, é possível tomar uma sem problemas.

"As pessoas têm uma cultura de beber nos momentos de folga, nos momentos de descontração. Agora, nós estamos em um momento muito sério, um momento que mexe com as emoções, que mexe com ansiedade. A maioria das pessoas não administra bem essas oscilações. Esse limite é sério e difícil. Para que o álcool seja um bom companheiro, ele precisa ser um coadjuvante", diz o psiquiatra.

Para maior aprofundamento, leia abaixo o artigo da psicóloga e psicanalista Juliana Miranda sobre os cuidados que precisamos ter com os excessos durante a pandemia.

Pandemia e excesso

Juliana Miranda - Psicóloga e Psicanalista especialista em saúde mental e uso de substâncias psicoativas (Aliança de Redução de danos/Ufba)

Em meio à pandemia, estamos lidando com restrições de toda ordem – simbólicas e reais - que nos têm sido impostas. Vão desde a retirada de rotina, trocas sociais e espaços de convivência à dolorosa perda de algum ente querido. Em nome de um suposto tempo livre, surgiu um imperativo de produção, como se estar em casa – por isolamento – viabilizasse as condições para o sujeito continuar ou aumentar sua série de interesses e atividades.

No entanto, a pandemia escancara a fragilidade humana, as nuances dos laços sociais, a delicadeza da convivência. Estamos, essencialmente, tentando sobreviver e nos reinventar. A temporalidade também foi afetada: a sensação de não saber o dia da semana que estamos é quase diária, reverberando nas práticas escolhidas para os momentos de prazer e relaxamento. Nesse cenário, muitos relatos sugerem o aumento do uso do álcool, enquanto um suposto aliado para enfrentar o confinamento.

Pensar o uso de substâncias psicoativas, legalizadas ou não, a experiência humana nos ajuda a entender que desde sempre recorremos a ferramentas para lidar com crises, angústias e com a dureza estrutural da existência. O sujeito, na perspectiva da psicanálise, é estruturalmente faltante, e seu desejo organiza-se sob a lógica da metonímia, relançando sempre a possibilidade de satisfação na série de objetos que cada um escolhe para lidar com realidade de ser incompleto. Vamos, ao longo da vida, compondo relações com o trabalho, com outros sujeitos e, a partir do que é possível para cada subjetividade, o que pode ou não “apaziguar”, sempre temporariamente, a ideia de que nada nos completa em definitivo.

O desejo tem essa marca: deixar um espaço possível de ser ocupado por uma série de objetos. No entanto, para alguns sujeitos o encontro com alguma substância psicoativa pode significar uma fixação ao objeto droga. No enfrentamento do estresse, o uso do álcool inclui o risco da passagem de um uso recreativo para a compulsão, principalmente para sujeitos que já possuíam dificuldade em barganhar com a condição humana de desamparo estrutural e, portanto, possuem menos recursos psíquicos para lidar com a angústia.   

Acredito que não seja possível prever os efeitos subjetivos da pandemia na saúde mental de cada um, mas certamente não podemos duvidar que tem sido uma contingência produtora de mal-estar para muitos. É importante não recuar diante da possibilidade de pedir ajuda para sintomas que podem vir a surgir. Os excessos precisam ser lidos sempre enquanto soluções individuais, ou seja, como cada um está dando conta frente a essas novas demandas e tantas incertezas. Estamos sendo convocados a tecer novas saídas, que favoreçam e ajudem na simbolização do que cada um tem perdido: um exigente trabalho psíquico. Não hesitemos em recorrer a soluções que nos façam falar sobre aquilo que nos afeta e que favoreçam o laço social.   

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