Miro Palma: O goleiro Bruno não merece uma segunda chance

miro palma
15.03.2017, 05:01:00

Miro Palma: O goleiro Bruno não merece uma segunda chance


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Todo mundo merece uma segunda chance, não é mesmo? Essa máxima circulou bastante nas redes sociais e nos veículos de comunicação na última semana, após o goleiro Bruno Fernandes, que ganhou a liberdade no último dia 24 com um habeas corpus concedido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello, ser contratado pelo Boa Esporte, clube de Varginha, Minas Gerais, que vai disputar a Série B do Campeonato Brasileiro.

Ele foi julgado em 2013 e condenado em primeira instância por júri popular a 22 anos e três meses, em regime fechado, por homicídio triplamente qualificado e ocultação do cadáver da mãe de seu filho, Eliza Samudio, além de sequestro e cárcere privado dela e do filho Bruninho. A sua defesa recorreu à condenação e ele ficou pouco mais de seis anos em prisão preventiva. Assim que saiu, segundo seu advogado/empresário, Lúcio Adolfo, dez times já tinham propostas pelo seu passe, afinal, todo mundo merece uma segunda chance.

Mas, será que todo mundo merece ou só alguns?

Sem entrar nos pormenores do habeas corpus, legal porém resultado de uma Justiça morosa, Bruno é um privilegiado. Afinal, não são todos os ex-presidiários que conseguem uma recolocação no mercado de trabalho em menos de 20 dias de sua soltura. É claro que nem todos os ex-presidiários são ex-jogadores que já tiveram muito sucesso e acumularam fortuna.

Mas esse não é o único privilégio de Bruno, o maior deles é ser homem e ter cometido um crime contra uma mulher.

Porque, pior do que ver dirigente sedento por exposição, mesmo que negativa, contratar um goleiro acusado de ser mandante de um crime bárbaro, por um motivo torpe, e sem nenhum sinal de arrependimento, é ver pessoas comuns, os tais “cidadãos de bem”, fazendo selfie ao encontrá-lo no caminho para o fórum. Momento esse, diga-se de passagem, em que ele fez questão de ir vestindo a camisa de uma torcida organizada do Atlético Mineiro que teve cinco dirigentes condenados pelo assassinato de um torcedor do Cruzeiro.

E como se fosse pouco, teve até quem foi fazer uma selfie com o jogador usando uma máscara de cachorro, em referência ao fato das partes do corpo de Eliza Samudio terem sido dadas aos cachorros para encobrir o crime. O paradoxal é que são justamente pessoas como essas que amarram batedores de carteira em postes para depois (ou depois de) linchá-los.

Mas Bruno não roubou ninguém, ele matou uma mulher. E por isso, ele está vivendo o privilégio da absolvição social.

Absolvição essa que Suzane Von Richthofen, por exemplo, não teve. Ela foi a mandante de um crime bárbaro contra os pais que também chocou o país. Por isso, toda vez que ela tenta algum recurso para flexibilizar sua pena, a opinião pública é ágil em repreender a iniciativa. É compreensível, claro. Quem pode aceitar que uma mulher capaz de mandar matar os pais não pague pelo crime? Mas, mandar matar a mãe do próprio filho não tem problema?

Como profissional que trabalha com esportes, cidadão e homem, e por ser rodeado por mulheres especiais na minha vida, me envergonho muito com esse episódio. Me envergonho em ver clubes de futebol abraçarem o acusado de um feminicídio para capitalizar a exposição midiática. E, mais ainda, me envergonho por viver em uma sociedade que demonstra não sentir repulsa por isso.

Que os torcedores do Boa Esporte possam ter ídolos melhores no futuro. E que, mesmo que Bruno entre em campo e faça boas defesas, as pessoas nunca se esqueçam que Eliza Samudio não teve uma segunda chance. Seu corpo nunca foi encontrado, sua família não pôde sepultá-la e seu filho não vai poder sentir o amor da mãe.

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