Música para acampamento

kátia borges
12.09.2020, 11:00:00

Música para acampamento


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Um sol de doer os olhos, a estação predileta. A mãe de alguém arrumou uma barraca de camping dessas onde mal cabem dois e que teríamos de lavar inteira. Eu andava lendo Pé na Estrada e queria sair um pouco da zona de conforto, que consistia basicamente em viver entre montes de livros, revistas em quadrinhos e discos.

Verifiquei os bolsos de estudante, alguns centavos para os trâmites do percurso: ônibus, barca, kombi. Um dos nossos levaria algo para comer, basicamente pacotes de macarrão, latas de salsicha e molho de tomate. Outro ficou de arrumar o som, um toca-fitas gigante, e K7s com shows ao vivo da banda Camisa de Vênus.

Na modorra dos quinze, o que restava eram aquelas viagens, onde tudo se desarrumava devagar no final de semana e, na segunda, voltava aos encaixes do cotidiano como peças de um lego gigante na caixa de presentes. Havia uma ilha para onde escapávamos sempre que possível. A turma toda da escola, com garrafões de água e vinho.

Sozinhos e livres, como se nascidos das areias quentes, com roupas de praia o dia inteiro, fundávamos ali nossa pequena sociedade provisória. Deitados numa esteira, passávamos as noites olhando as estrelas e reinventando letras de música, até o dia amanhecer completamente. E nem havia vestígios de sono no dia seguinte.

Já bem cedo, todo mundo estava pronto para ver os meninos do surfe, improvisos de comida e torcida nas dunas. As ondas gigantes avançando em espuma contra a lona da barraca, estruturas tão frágeis quanto nós, mochilas e miçangas empilhadas, à salvo do mar e das aves, descrevendo arcos dramáticos no céu.

Havia sempre um rock das antigas tocando alto em algum lugar, a trilha sonora da nossa jornada do herói. E o chamado, incidente incitante, ficava lá atrás. Ao que atenderemos, ainda indecisos, encarando a velocidade do destino que, sem esforço algum, ultrapassa a incerteza em nós? Todas essas coisas esquecíamos no Verão.

Como se não existíssemos para além do azul que nos vestia de sal, tão despidos andávamos de nós naqueles dias, repartindo o mesmo saco de dormir, em longas caminhadas à beira-mar, canecas de vinho circulando de mão e mão. Tudo o mais podia vir. Fosse a segunda-feira só, o resto da semana, a vida inteira.

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