Na fila para ser assaltado: taxistas são vítimas de arrastões em pontos

salvador
26.02.2019, 05:00:00
Atualizado: 26.02.2019, 07:40:57

Na fila para ser assaltado: taxistas são vítimas de arrastões em pontos

Categoria diz que já houve três casos esse ano; em todo o ano de 2018, foram quatro

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A violência contra taxistas não é novidade. Mas uma modalidade de crimes tem assustado e deixado os profissionais apreensivos em Salvador: os arrastões. No último final de semana, dois homens em uma moto fizeram um arrastão no posto de gasolina Itaicê, na Avenida Bonocô, e levaram os pertences de seis taxistas. Só em 2019 foram três arrastões registrados pela Associação Geral dos Taxistas da Bahia (AGT). Em todo o ano passado, a AGT contou quatro casos desse tipo.

Os outros dois arrastões deste ano aconteceram em um ponto de táxi que fica em frente ao Hospital Santa Izabel, em Nazaré, e num ponto no bairro do Imbuí. “As ações aqui costumam acontecer ou no início da manhã ou a partir da noite porque começa a ficar deserto. Eu mesmo só rodo até as 18h por conta do medo que tenho de ser assaltado”, contou um taxista que trabalha no ponto no Imbuí. Em três anos, ele foi vítima de arrastões duas vezes.

De acordo com Denis Paim, presidente da AGT, 12 taxistas foram vítimas dos quatro arrastões do ano passado, enquanto aguardavam corridas na fila de táxi. Além deles, 346 foram assaltados durante corridas ou chegando as suas casas após a jornada de trabalho. A crescente no número de ocorrências assusta e incomoda os trabalhadores, principalmente nessa época do ano, quando acontecem muitas festas como ensaios de Verão e Carnaval.

Somente este ano, três arrastões em pontos de táxi foram contabilizados pela categoria; não houve registro na polícia
(Foto: Almiro Lopes/CORREIO)

“Ficamos mais expostos nessas épocas com muito festejo. Os picos de casos acontecem entre dezembro e fevereiro, mas também no período junino”, explica.

Segundo a AGT, só em janeiro de 2019 foram 25 taxistas assaltados. Destes, três foram baleados e um morreu. Em 11 casos, os carros foram tomados de assalto. Já em fevereiro, até o último domingo (24), foram 20 taxistas assaltados, três carros levados e dois arrastões em pontos de táxi.

Apesar do número de crimes contabilizados pela associação, são poucos os taxistas que vão até as delegacias para registrar queixa. O CORREIO questionou às polícias Militar e Civil sobre os arrastões nas filas de táxi, mas nenhum dos três casos deste ano foi registrado.

Mudança de rotina
O taxista Davi Cerqueira, que tem pouco mais de 15 anos de praça, foi uma das vítimas do arrastão ocorrido no ponto em frente ao Santa Izabel, em Nazaré. O crime aconteceu no último dia 8 de fevereiro. Ele e outros seis colegas tiveram o celular e dinheiro roubados. Um outro taxista, que trabalha no mesmo ponto e preferiu não se identificar, apontou que a ação daquele dia foi realizada por assaltantes de fora da região. Ele também reclamou da insegurança nas imediações da Praça Conselheiro Almeida Couto. A violência no local já havia sido denunciada pelo CORREIO em setembro do ano passado.

“Aqui é complicado. Se vacilar, todo o dia tem furto de celular, roubo de dinheiro, batida de carteira. É muita insegurança. Eu trabalhava de noite, mas mudei minha rotina pra ver se evito essas coisas”, contou o taxista, sob anonimato.

Trabalhando como taxista há apenas seis meses, Ronaldo dos Santos já passou por experiências desagradáveis no novo ofício. Quando tinha acabado de completar dois meses na rua, ele aceitou fazer corrida com um casal de   Valéria. No meio do trajeto, a mulher o segurou pelo pescoço e anunciou o assalto. Além do prejuízo psicológico, ele teve R$ 230 roubados e o celular.

“Eu nem costumo andar com muito dinheiro no carro, mas nesse dia estava indo levar um dinheiro para depositar na poupança”, lamentou.

Depois do acontecimento, Ronaldo mudou a rotina de trabalho, modificou os roteiros e se diz mais cauteloso para aceitar corridas. Sempre procura conversar um pouco antes de aceitar passageiros para fazer uma espécie de sondagem.

Medo
O medo de falar sobre os casos é comum em diversos pontos da cidade. O CORREIO circulou ontem por Salvador para ouvir os trabalhadores. Já temendo represálias, a maioria se recusa a falar sobre.

“Ladrão também lê jornal”, justifica um dos taxistas. Todos os profissionais ouvidos pelo CORREIO contaram que já foram assaltados enquanto trabalhavam. De oito profissionais ouvidos em dois bairros da cidade, dois contaram que já foram vítimas de arrastões.

E ele está longe de ser o único temor. No início do mês, um taxista foi obrigado a socorrer um suspeito de atirar num policial na Boca do Rio. 

No dia 20 de janeiro, o taxista Antônio Carlos pegou dois passageiros na saída de um show na Arena Fonte Nova e teve o carro levado: “Roubaram o táxi A-0156, levaram R$ 340, maquineta, documentos... Eles foram muito violentos, apontaram uma pistola pra mim”. 

Ações rápidas
Professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal da Bahia (Ufba), o cientista social Luiz Cláudio Lourenço explica que os bandidos costumam buscar ações criminosas que são rápidas e mais difíceis de serem rastreadas. Esse tipo de crime torna mais complicado o trabalho de identificação por parte das polícias.

Por isso que ações como assaltos a carros-fortes e arrastões, como os que vêm vitimando taxistas em Salvador, por exemplo, podem se tornar corriqueiras. 

O especialista explica que existe uma teoria da criminologia chamada de ‘Teoria Situacional’. Segundo ela, os bandidos analisam oportunidades de ações criminosas e avaliam se os riscos dessas ações podem ser compensados pelo ganho que podem obter. Ou seja: se o risco for menor que o dinheiro a ser obtido com a ação, o crime é visto como ideal.

"Bandidos e polícia vivem uma relação de ‘gato e rato’. Os criminosos estão sempre procurando novas formas de cometer delitos para dificultar o trabalho dos policiais. Aos poucos, essas novas práticas podem se tornar espécies de fenômenos, como aconteceu mais recentemente com os assaltos a carro-forte ou como já foi há um tempo com as saidinhas bancárias", afirma.

É por conta dessa teoria que, segundo Luiz Cláudio Lourenço, crimes como sequestros são mais raros hoje em dia. A logística é muito complicada e demanda cativeiro, trabalho em rede e toda uma dificuldade de se esconder rastros em uma época onde as ferramentas digitais têm tanto alcance.

Por outro lado, ações mais rápidas - ou chamadas de “relâmpago” - ganham espaço. É o caso dos arrastões. “Ações criminosas hoje são mais rápidas, de ação e efeito imediatos”, explica o professor.

*Com supervisão da chefe de reportagem Perla Ribeiro e da editora Mariana Rios

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