Não, ninguém morre

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09.08.2019, 05:00:00

Não, ninguém morre

Por Flavia Azevedo

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Baiana, jornalista, apresentadora de tevê (Decola, Na Carona, Estúdio Móvel), mãe de Lola e Nikos, companheira de Daniel. Há dois anos, depois de uma longa temporada no Rio de Janeiro, Liliane Reis juntou a família e foi pra Paris. Atualmente, mora em uma residência de artistas e pesquisadores, acabou de lançar o filme Instant-ci, inspirado em Clarice Lispector, voltou para a universidade e está nos finalmentes para o lançamento do filme Miúcha, Uma Mulher Entre Eles.

Liliane Reis (divulgação)


Quanta - Depois de uma carreira na tevê, você decidiu voltar para a universidade. Quais são os seus interesses, o que pesquisa/estuda?
Liliane - Fiz mestrado sobre O Feminino na Bossa Nova, pela UFF (Universidade Federal Fluminense), através de convênio entre a universidade pública do Brasil e universidades francesas: Sorbonne Nouvelle (pelo IHEAL – Instituto de Altos Estudos pela América Latina), Paris de Diderot e a Sorbonne 4, na área de Literatura. A fala na primeira pessoa das mulheres é o que mais me interessa agora. Esse tema pra mim une Miúcha, Violeta Parra, Clarice Lispector, Agnès Vargas, que são mulheres artistas sobre as quais pesquiso no momento e devo aprofundar com recorte de estudo biográfico no doutorado em cinema.

Miúcha (divulgação)


Q- No meio disso, surge o filme Miúcha, Uma Mulher Entre Eles. Como ele nasceu?
L - Eu estava no interior da França, para o casamento de um casal de amigos, e Miúcha cantou na festa Garota de Ipanema, que é a canção brasileira mais conhecida no mundo e uma das cinco mais tocadas de todos os tempos! Depois da festa, a gente se encontrou por acaso em Paris, de onde ia pegar o avião para retornar ao Rio onde morava. Ela me avistou na rua e fomos tomar um café. Na verdade, um champanhe às 3h da tarde. Nada para Miúcha era muito convencional. Como baiana, não podia perder a chance: perguntei onde ela conheceu João Gilberto. (...) Ela, então, apontou para a esquina do Saint-German Des Près e disse: “Foi ali. Ali era a a La Candelária, casa de show que teve a curadoria de Violeta Parra. Eu estava no palco, e ele me chamou para mesa dele. Depois do show, saímos amassados naqueles carrinhos pequenos franceses, e ele disse no meu ouvido: senta em uma porta e eu na outra, quando parar no sinal, a gente abre e se encontra na rua. Achei aquele convite muito estanho, achei que ele ia sumir, mas fiz o que ele disse. Ali nas ruas de Paris demos o primeiro de muitos beijos”. Essa história tem 10 anos que ela me contou e nunca mais saiu da minha cabeça. Ali, decidi que faria um filme, não sobre ela, mas com ela. Pena que não deu tempo dela assistir ao último corte.

Q - Como é o filme? O que ele traz?
L - O filme traz uma protagonista mulher do movimento da Bossa Nova, que é a expressão cultural do Brasil mais forte e atemporal, em todo o mundo. Tem momentos muito engraçados, porque Miúcha era uma frasista. Ela diz coisas como: “No momento em que escutei a BN pela primeira vez, o cinema P&B ficou colorido” ou “ para João Gilberto não existia Bossa Nova; ele dizia que fazia só um samba lento” ou, ainda “o sonho de João era ser Caymmi”. No filme também há algumas falas de João ditas por Miúcha (...). Por exemplo, João sempre ligava para ela quando sabia que naquele dia tinha filmagem e perguntava: "Você vai falar de mim pros meninos?".Os meninos éramos eu e o cineasta Daniel Zarvos, meu parceiro no filme. Daniel trabalhou com Jonas Mekas (...). Ele também foi assistente de Nelson Pereira dos Santos, de quem Miúcha foi grande amiga, e trabalharam juntos no filme Raízes do Brasil.

Q - Como foi o processo de filmagem, em que clima esse trabalho aconteceu?
L - A gente gravou todos os depoimentos na casa dela, em meio ao seu museu íntimo. Miúcha herdou do pai, Sergio Buarque de Holanda, o amor pelos arquivos. Ela tinha tudo catalogado, com nomes, datas, dedicatórias. Isso facilitou muito o processo. (...) A curadoria era sempre dela, ela sempre selecionava o que mostrar. Em um dos encontros ela me mostrou a carta escrita por Jorge Amado, datilografada e endereçada aos pais dela, pedindo em nome de João a sua mão em casamento.

Q- Qual foi o momento mais especial dessa filmagem?
L- Teve uma noite em que João ligou e foi muito forte, quase mística. Ele pediu para falar com Daniel e disse para ele que Thereza (Cesário Alvim, avó do Daniel, tia de Miúcha e grande amiga de João) estava ali com a gente. Ficamos muito emocionados e senti que ele estava dando a bênção para o filme. Eu sempre choro quando me lembro da cena. Daniel, que é carioca, brinca: ali vi que João é mais baiano que sua mãe!

Q - Conta, em primeira mão, uma história curiosa que está no filme
L - Miúcha foi assistir ao show do Pink Floyd em Nova York, e deixa João com Bebel, ainda bebê, dormindo. O curioso dessa história é que ela sai escondida porque estava louca para ir a um show de rock. (...) Ela não sabia como ir vestida para um show de rock e colocou um tailler rosa que levou da avó. Fez o maior sucesso, acho que naquela noite ela foi precursora do glam rock, que adorava pink, ou meio mod, que estava em alta nos anos 60, com os Beatles. O fato é que de rosa, cabelos curtinhos e cacheados, ela voltou pra casa com os bolsos cheios de baseados. Ela achou que ia arrasar com João, mas ele teve uma inesquecível crise de ciúmes... 

Q - O que você acha que o filme tem de mais importante?
L - O lugar da mulher no meio artístico atravessa todo o filme. Miúcha me contava que não tinha a chave de casa (dos Buarques de Holanda), ao contrário do seu irmão Chico (Buarque de Holanda) bem mais novo. Mas ela sempre driblava as restrições impostas. No casamento com João a chave de casa também era um privilégio do masculino. Ele tinha por hábito trancar ela em casa. O que ela fazia? Ela fez uma cópia da chave sem que ele soubesse. E assim eles ficaram juntos entre sete a dez anos, como ela costumava dizer, às gargalhadas! 

Q - Onde deve ser lançado? 
L - No Centro Cultural João Gilberto em Juazeiro, com certeza! No TCA, onde João fez o show de reinauguração a pedido de ACM. (...) Vamos lançar em Paris onde eles se conheceram e onde estou morando há dois anos, desde que comecei o filme. Mais do que nunca precisamos de pautas positivas do Brasil no mundo e a Bossa Nova é a Bahia ecoando com voz própria.

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