Não quero mais falar de dor, só quero que parem de nos matar

midiã noelle
15.08.2019, 09:10:00
Atualizado: 15.08.2019, 09:33:31

Não quero mais falar de dor, só quero que parem de nos matar

Nessa semana em que se celebra o Dia Internacional da Juventude, eu gostaria de perguntar à vocês qual juventude comemoramos a existência nesse país que mata tantos jovens homens negros? No Brasil, com certeza não são os de 'bigoduin finin' e cabelinho na régua que moram nas favelas, aqueles que moram em Cajazeiras, Calabar, Bairro da Paz, Beiru, Nordeste de Amaralina, Plataforma, entre tantas outros comunidades. O 12 de agosto marca a história e importância das vítimas em Costa Barros, Cabula, Carandiru, entre tantas outras cachinas? Passaram mais de 130 anos da abolição inconclusa e a população negra segue sendo assassinada sem que nossos corpos valham nada nesse país. 

Eu, Midiã Noelle, nascida e criada no bairro da Liberdade, em Salvador, um dos lugares mais negros no mundo fora do continente africano, escrevo esse texto com lágrimas e um misto de raiva e revolta. E, de verdade, com vontade de revolução! Chega de polícia atacante querendo fazer gol. Todos os dias, antes de dormir, mães, namoradas, irmãs, precisam saber se seus pais, irmãos, filhos, companheiros estão bem, seguros. E não é controle. É medo! Medo porque moramos num país em que matar corpos negros é regra. E nunca saberemos se quem vai, volta. 

E estes corpos são mortos em grande parte pela polícia, também preta, conhecida também como "capitães do mato new generation", forjados como máquinas de matar, disfarçados de heróis. E as mortes e perdas são tantas. Do próprio policial que vira esse exterminador inconsciente com a saúde mental danificada às vidas cheias de potencialidade que são ceifadas - como os dos jovens mortos com oitenta tiros dentro de um carro após a comemoração pelo primeiro dia de emprego de um deles -, e das famílias que seguem destroçadas com mães deprimidas e pais com sensação de impotência.

Carx leitxr, eu não quero mais falar de dor. Sério. Eu só quero que Parem de Nos Matar!, como nos traz a campanha da Rede de Mulheres Negras da Bahia e o título homônimo do livro da escritora Cidinha da Silva. Não andar com RG não é justificativa para prender alguém. O uso de qualquer tipo de droga não faz de uma pessoa traficante e, mesmo que o fosse, isso não dá licença para destruir vidas. A guerra aqui não é contra as drogas. A guerra no Brasil é contra negros e negras. Em 80 horas, cinco jovens negros foram assassinados pela polícia no Rio de Janeiro: Henrico Júnior, de 19 anos; Tiago Freitas, 21; Lucas Costa, 21; Gabriel Alves, 18; Dyogo Xavier, 16. No enterro de Dyogo, a irmã de sete anos, Sofia, orou e pediu à Deus "que ninguém perca ninguém assim desse jeito" e que "todos sejam do bem". Tão nova a pequenina e já lidando com uma dor tão grande. A nossa perda começa desde a infância. 

Dyogo Xavier, 16 anos, jogador do América, morto em Niterói (foto/divulgação)

Nos encarceram em massa nos presídios, agora querem nos prender à força por meio de internação involuntária de pessoas em contexto de rua e/ou usuárias de drogas que precisam de acolhimento, cuidado e respeito. Nos humilham ao pedirmos ajuda médica nos hospitais públicos - agradeço a existência do Sistema Único de Saúde, mas tem que melhorar. E dentro dessa lógica perversa de Cidade dos Muros, como bem nos traz a escritora Tereza Caldeira, e, também, Michael Foucalt, em Vigiar e Punir, a população negra segue sendo acuada, espremida, monitorada e oprimida para que a população não negra possa se sentir confortável dentro de suas quatro paredes pintadas em tons pastéis e cimento queimado e, consequentemente, também controlada. 

É um ciclo perverso que na verdade massacra à todos nós. Salvador tem quase 85% da população negra. Ou seja, a população não negra é minoria. Os homens brancos, então. Mas são eles os donos dos melhores postos, sejam como proprietários, ou nos cargos públicos e privados. Como uma minoria pode entender a maioria que convive diariamente com o ódio racial de uma herança colonial? Não pode. Não entende. Quem desce o elevador de seus prédios e vai sentido subúrbio para colocar o "bumbum no paredão" para ouvir e sentir o Outro Sabor do O Poeta, volta para sua casa sem medo de ser abordado. E não adianta, se você é branco, more na Pituba ou em Sussuarana, você é branco. E a mira seletiva do estado brasileiro não vai te atingir ou punir, por apenas existir. 

Parafraseando o nosso grande Edson Gomes, "O país é culpado, sim!". Mas essa conta vai ter de ser paga em algum momento.  

Ubuntu.


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