‘Nem a Igreja para uma alma livre’: fiéis contam histórias sobre Padre Pinto

salvador
06.04.2019, 05:00:00
Atualizado: 26.10.2019, 07:44:33
Áurea e Acy: mãe e filha recordam vivência ao lado de padre Pinto (Foto: Marina Silva/CORREIO)

‘Nem a Igreja para uma alma livre’: fiéis contam histórias sobre Padre Pinto

​​​​​​​Comunidade da Lapinha lamenta perda de “personalidade única”; padre faleceu na quinta-feira (4)

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Os dogmas da igreja não poderiam parar uma alma livre. A liberdade com a qual um autor incorpora a própria arte é um processo de transgressão natural que, talvez, traduza o momento em que, todo de amarelo, o padre José de Souza Pinto surgiu no altar da Igreja da Lapinha, em janeiro de 2006, e homenageou a orixá Oxum. O ato revelou a olhos desacostumados um homem que, mesmo religioso, não deixou de lado a irreverência comum aos artistas.

A morte do sacerdote, nesta quinta-feira (4), aos 72 anos, é sentida pelos moradores da Lapinha, região central de Salvador. Lá, onde foi pároco por 30 anos, mas já não era visto há algum tempo, as referências a José Pinto vão além do que ficou marcado por aquela celebração. E, antes que se diga que Padre Pinto não ‘honrou’ a igreja, os mais próximos do religioso garantem: “Ele nasceu para isso”.

Anos antes de se vestir de Nossa Senhora da Guia, sincretizada no candomblé por Oxum, há 13 anos, Padre Pinto já tinha deixado sua marca na Paróquia da Lapinha: dentre tantos outros, crismou, batizou e casou os quatro filhos da professora aposentada Celina dos Santos Silva, 84 anos, a quem tratava por Céu.

“Uma pessoa iluminada, de alma e espírito livres. Ele fez parte da história de toda a minha família. Só não fez me casar, mas, em compensação, celebrou minhas bodas de prata e ouro”, conta Celina, emocionada, ao lembrar que conheceu o religioso em 1979, seis anos depois que ele foi ordenado ao sacerdócio, aos 26 anos de idade.

Segundo Arquidiocese de Salvador, padre Pinto sofria de transtorno bipolar (Foto: Paulo M Azevedo/Arquivo CORREIO)

Desde a época das polêmicas até aqui, para a professora, nenhuma reportagem envolvendo Padre Pinto transmitiu às pessoas quem, de fato, era ele. Filho único de pai e mãe, o artista plástico e bailarino nasceu e foi criado no bairro de São Caetano, na capital.

“Isso era o mínimo. Era uma pessoa de espírito livre, e nem a Igreja Católica para uma alma livre. Mas o que eu realmente acredito é que ele foi excelente em sua vida religiosa, sofreu muito quando foi afastado da Lapinha, mas precisou se acostumar”, revela.

Padre Pinto começou a vida religiosa na Paróquia Santos Cosme e Damião, na Liberdade. Foi na Lapinha, contudo, que ele se tornou uma extensão da paróquia, ao revitalizar a Festa de Reis. Não há quem more ali, do Largo ao Queimadinho, e não conheça ou já tenha ouvido falar no sacerdote que colocou os três Reis Magos dentro de uma fobica, em um presépio temático que tinha até uma réplica da estátua do poeta baiano Castro Alves.

‘Tinha segurança’
A personalidade variável, define a amiga Celina, era uma constante na vida do sacerdote. Padre Pinto era certo de tudo o que fazia, garante, no entanto. A professora resume ao CORREIO o dia em que convidou o religioso para um passeio. Católicos, Celina e o marido até já tinham se acostumado com o jeito alegre do amigo, mas sequer podiam imaginar que Pinto surgiria vestindo um short de cetim e batom vermelho.

A professora Celina era amiga de padre Pinto: 'Tinha alma livre' (Foto: Marina Silva/CORREIO)

“Fiquei muito surpresa e, confesso, assustada. Hoje, não cabe mais um padre travado, fechado, mas naquela época, há 15 anos, tudo era diferente e, querendo ou não, ele representava uma comunidade religiosa e não era o que se esperava de um representante do catolicismo”, pondera.

Celina, contudo, não repreendeu o amigo. “Como? Não tive coragem, não tinha como. Ele era muito inteligente, se expressava bem demais e sabia exatamente o que fazia. A segurança dele ao argumentar as coisas quebrava qualquer um ao meio. Até a Igreja, que podia ter feito algo para parar ele, não pôde conter aquilo. Estava ali, era dele”, acredita.

A aposentada lembrou que, logo que foi afastado da Lapinha, em 2006, Pinto passou a ser visto com cada vez menos frequência, e com contato sempre restrito. Havia sido transferido para a Paróquia de São Caetano da Divina Providência, onde atuava como vigário paroquial. Morou lá nos últimos 13 anos. Até a aparência, segundo a amiga, era outra.

“A última vez que estivemos juntos foi em 2016 e ele estava triste, amarelado, largado. A vida dele era na Lapinha, onde fez história, missas lindas, era adorado e respeitado por todos, independentemente de tudo”, acrescenta, ao lamentar que não foi informada da causa da morte de José Pinto. Por conhecidos ligados ao religioso, soube que ele foi socorrido até o Hospital Jorge Valente, nesta quarta (3), após sofrer uma queda, o que foi confirmado à reportagem por uma prima do padre.

Em nota, o diretor provincial da Sociedade das Divinas Vocações, Padre José Carlos Lima, afirmou que o Pinto sofria de transtorno de bipolaridade, além de problemas cardiológicos e hipertensão. “Com o passar dos anos, o seu quadro de saúde foi se debilitando e oscilando entre períodos de estabilidades e momentos de alterações. Mais precisamente no último ano, este quadro de oscilação se apresentou com mais frequência”, diz, sem citar a queda.

Pinto batizou e crismou os dois filhos de Áurea (Foto: Marina Silva/CORREIO)

O líder religioso afirma ainda que o padre prestou “inúmeros serviços” à Congregação e Arquidiocese de São Salvador da Bahia e se destacou pela “eloquência e retórica em suas pregações, grande parte do seu ministério presbiteral foi desenvolvido na Paróquia Nossa Senhora da Conceição da Lapinha em Salvador”.

‘Morreu cedo’
Quem recebeu suas bênçãos garante que Padre Pinto partiu antes da hora. Para o desenhista Daniel Cesart, 36, ainda era tempo do sacerdote celebrar missa e distribuir simpatia pelo bairro. Daniel, que nasceu, foi criado e continua morando na Lapinha, foi batizado por José Pinto e  defende que sua morte é uma perda para toda a família.

“Um cara incrível como religioso, artista plástico e bailarino. Via nele a versatilidade que uma pessoa deve ter. Ele era a equidade, laicidade e o sincretismo em prática. Sua ausência foi e será sentida na Festa de Reis, que nunca mais teve o mesmo esplendor de quando ele estava à frente”, comenta.

O próprio Padre Pinto, em uma entrevista ao CORREIO, em 1999, falou sobre intolerância. “O processo de evangelização no Brasil desconsiderou, desde o início, com os jesuítas, a mística indígena e negra e, por isso, acabou contribuindo para a aniquilação dos índios e o sofrimento dos negros. Essa postura foi baseada na noção de intolerância”, declarou, após o Encontro Nacional de Padres, Bispos e Diáconos Negros.

A notícia da morte abalou a família da professora aposentada Áurea Freitas, 78. Ela conta que não faltava a uma missa celebrada pelo sacerdote que mais fez celebrações naquela paróquia, e que crismou e batizou seus dois filhos.

"Eu não ia à missa porque era obrigação, mas porque era bom estar próximo a ele. Eu não tenho palavras, mas faço questão de garantir que ele era um excelente líder. Um padre como nunca vi, que virou uma família para todos nós e nos ensinou muito sobre ajudar  e respeitar ao próximo, com sua alegria e generosidade", destaca Áurea.

Acy foi coroinha do sacerdote (Foto: Marina Silva/CORREIO)

A aposentada conta que, quando o padre virou assunto nacional, estava em viagem em Belo Horizonte (MG) e ficou surpresa com o que viu pela TV. "Tomei um susto, não entendi aquela manifestação, me questionei o porquê". Áurea disse, no entanto, que o sacerdote sempre teve comportamento irreverente no convívio com as pessoas, mesmo na igreja. "Brincava muito e sempre foi artista. Pintava as próprias batas, ensinava arte às crianças, sempre muito atencioso", completou.

'Um marco'
Filha de Áurea, a professora de Artes Acy Freitas, 34, tem boas lembranças dos anos de convívio com o religioso. Depois da crisma e do batismo, chegou a ser coroinha de Padre Pinto, a quem define como um marco na história da paróquia que, nesta sexta-feira (5), não abriu as portas. Todos os membros participaram da missa de corpo presente, realizada na Paróquia São Caetano e, em seguida, do enterro, na Ordem 3ª de São Francisco, na Baixa de Quintas. 

"Ele sempre foi um catequista incrível, que nos transmitiu toda vivência religiosa da melhor maneira possível. Além das obras, ele pensava e vivia a arte, então a gente tinha muitos momentos de diálogo, de liberdade, sempre pautados pelo respeito à religião, mas de um jeito saudável", lembra. 

Assim como a mãe, Acy acredita que, por unanimidade, o legado de José de Souza Pinto foi e será respeitado pelos moradores da Lapinha. "Tinha o dom da palavra e era muito autêntico. Quem somos nós para apontar erros? Não estamos aqui para mudar nada e ninguém, tudo o que ele fez aquelas coisas que aconteceram, certamente partiram de um desejo dele e nós sempre respeitaremos", considera Áurea, em referência à manifestação como Oxum.

Nas lembranças da professora Celina dos Santos, Padre Pinto será para sempre o reflexo de liberdade, amor, segurança e respeito. Foi assim quando viu as imagens do pároco reverenciando o candomblé. Mesmo católica, comenta o entedimento de que o amigo "só queria mostrar às pessoas que a religião de matriz africana não é um bicho de sete cabeças".

Veja matéria do CORREIO de janeiro de 2006

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