“Nunca imaginei que um PM pudesse fazer isso”, diz pai de menino envenenado

salvador
05.03.2021, 15:49:00
Atualizado: 05.03.2021, 19:34:13
Genário da Silva, pai de Gabriel Cabral da Silva, 5, morto envenenado por policial militar (Foto: Acervo Pessoal)

“Nunca imaginei que um PM pudesse fazer isso”, diz pai de menino envenenado

 “Não quero que ninguém passe o que passei. Vi de perto os corpos do meu filho e minha ex em cima da cama”, disse

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Emocionado, o pai do pequeno Gabriel tem a voz embargada ao relatar a última imagem que teve do filho. “Nem sei o que dizer. Dói, dói muito. Vi de perto os corpos do meu filho e de minha ex em cima da cama. Nunca imaginei que um policial pudesse fazer isso”, desabafou o porteiro e dono de um lava jato, Genário da Silva, 53 anos.

Ele é pai de Gabriel Cabral da Silva, 5, e ex-marido da mãe do menino, a técnica em enfermagem Valdice Maria Cabral da Silva, 47. Mãe e filho foram mortos por envenenamento em fevereiro deste ano. Segundo a Polícia Civil, o autor do crime é o soldado da Polícia Militar Adelson Silva Rosário, que tinha um mandado de prisão pelas mortes dos dois.

O caso teve um desfecho nesta terça-feira (2): o PM foi encontrado morto em um hotel em Sergipe. Sobre a morte do policial, Genário disse: “A minha vontade era encontrar com ele, pra a gente brigar feito homem até o fim, mas Deus o livrou, porque eu ia acabar com ele”, desabafou. Gabriel era o filho caçula do porteiro – ele tem outros dois filhos maiores, de outro relacionamento.   

Genário e Valdice tiveram uma relação que durou cinco anos. O ex-casal viveu junto no apartamento onde ocorreu o crime até o início de 2019, quando o próprio Genário resolveu deixar o imóvel alugado. Segundo ele, os dois discutiam muito. “Então, os desentendimentos foram crescendo, crescendo, e resolvi sair e ir para Dias d’Avila, mas nunca deixei nada faltar ao meu filho. Fazia mercado, pagava o colégio, ligava sempre. Gabriel era e sempre será o amor de minha vida”, disse sobre o filho caçula.  

Apesar da separação, Genário e Valdice tinham uma relação de amizade. O companheirismo entre os dois era tão grande que a técnica de enfermagem ficou três meses na casa dele, junto com Gabriel, enquanto estava afastada do trabalho se recuperando de um problema de saúde. “Setembro, outubro e novembro passei cuidando dela aqui em casa. Foram dias de muita luta, mas ela se recuperou e já estava preparada para voltar a trabalhar” contou Genário.

Bem de saúde, Valdice voltou para o seu apartamento junto com o filho, no Jardim das Margaridas, pois na semana seguinte retornaria à Unidade de Saúde da Família Aristides Pereira Maltez, em Itapuã. A última vez que Gerário viu a ex-mulher e o filho com vida foi no dia 6 de dezembro. Ele havia dormido no imóvel e, durante uma conversa, perguntou se a ex estava namorando. “Dormi lá no dia 5 e saí dia 6.  Perguntei se estava com envolvimento com alguém, se estava levando alguém para dentro de casa, ela negou para mim e depois para a família. Perguntava por causa do menino, para preservá-lo”, contou. 

Indícios
Mãe e filho foram encontrados mortos no apartamento no dia 11. Como os corpos estavam em estado avançados de decomposição, a polícia informou que o crime teria acontecido havia pelo menos dois dias. No entanto, no dia 10, o porteiro recebeu a mensagem no celular da ex-mulher lhe perguntando sobre uma senha de banco. “Val perguntava onde ela havia colocado a senha de um banco. Mas aí respondi: ‘oxe, mulher? Não falei que era pra você ter guardado num local seguro? Foi então que recebi a mensagem: ‘Ah, tá. Vou olhar aqui’. Mas hoje sei que era ele se passando por ela”, contou. 

No mesmo diálogo Genário lembrou que devia uma quantia à técnica de enfermagem e então a lembrou e se justificou, dizendo que levaria a quantia ainda naquele dia. A resposta recebida no número de telefone da ex-mulher chamou a atenção do porteiro, que passou a desconfiar de alguma de errado estava acontecendo. “Disse: ‘Val, estou esperando sair o dinheiro e vou levar a sua quantia e a de Gabriel, viu?’. Aí veio a resposta: ‘Não tem pressa, porque vou trabalhar e depois vou ao médico’. Foi então que estranhei. Sempre que atrasava um pagamento, ela sempre queria o dinheiro na hora. Nunca foi de deixar para receber em outro dia. E perguntei: ‘Oxe? Bateu com a cabeça? Cadê Gabriel? Está com a madrinha ou com a avó?’. E as mensagens pararam”, narrou. 

No dia seguinte (11), Genário recebeu a ligação da ex-sogra perguntando pela técnica de enfermagem, pois ela não atendia às ligações e não tinha retornado ao trabalho. Já desconfiado das mensagens recebidas do número da ex-mulher no dia anterior, o porteiro ligou para o celular de Valdice e, para a surpresa, um homem atendeu. “Ele falava com uma voz forçada, como se quisesse disfarçar a voz, dando a entender que Val tinha sido sequestrada por um desconhecido. “’Quem é? Quem está falando?’ E depois desligou”, contou. Nessa hora, o porteiro ligou para os parentes da técnica de enfermagem pedindo para que alguém fosse encontrá-lo no apartamento no Jardim das Margaridas, pois acreditava que a ex e o filho estavam sob o poder de bandidos.  

Quando chegou no apartamento, Genário encontrou um par de sandálias de Valdice e porta trancada por dentro. Então, ele arrombou e encontrou dois ventiladores ligados e a porta da geladeira aberta. Quando foi para um dos quartos, ele deu de casa com a cena.  “Não quero que ninguém passe o que passei. Vi de perto os corpos do meu filho e minha ex em cima da cama”, desabafou.  
 

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