O assédio sexual às IAs é a ponta do iceberg

entrelinhas
17.04.2021, 05:00:00
Atualizado: 18.04.2021, 17:44:16

O assédio sexual às IAs é a ponta do iceberg

Confira o resumo das notícias que marcaram a semana

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

O Bradesco iniciou uma ação de combate ao assédio sexual às atendentes virtuais depois que mensagens sexistas foram enviadas à Bia, Inteligência Artificial do banco. Embora as ações já ocorram desde o começo de abril - no último dia 07 Bia recrutou as 'colegas' IAs da Natura (Nat), Magazine Luíza (Lu), Amaro (Mara) e Vivo (Aura) em um debate sobre o tema no Twitter - foi essa semana que a discussão viralizou nas redes. 

Muita gente na internet apoiou a iniciativa das marcas, mas não deixou de ponderar que o assédio sofrido pelas atendentes virtuais é a ponta dp iceberg. Mulheres reais são afetadas por assédio e violência sexual todos os dias. 

As mensagens recebidas pelos robôs dos bancos, das redes de varejo e companhias telefônicas fazem parte de uma cultura machista que também fetichiza e hipersexualiza personagens femininas dos quadrinhos e super-heroínas, só para citar os exemplos mais clássicos.

Campanha reproduziu algumas das ofensas contras as atendentes virtuais

(Foto: Reprodução)

E isso ocorre porque, em sua maioria, essas inteligências artificiais - que por serem robôs nem deveriam ter gênero - são programadas por homens cis e heterossexuais, perfil mais comum dos profissionias de tecnologia, justamente porque essa é uma área ainda muitos associada aos homens. 

Ao programar as IAs que trabalham como atendentes virtuais, associa-se os robôs ao gênero feminino, desde o avatar, que boa parte das vezes representa garotas jovens e brancas (uma das ações da campanha é também diversificar esse padrão); até as vozes, que trazem tons agudos.

Outro aspecto apontado por quem analisa esse fenômeno do assédio sexual às IAs é a ideia de que as atendentes virtuais estão 'servindo' aos clientes ao funcionar como interface entre consumidores e marcas ou empresas e seus serviços e produtos.

Historicamente na sociedade, funções subalternas de servir, atender com educação e acolher são associadas ao gênero feminino. Mesmo quando ocupam o cargo mais alto de uma empresa, espera-se de uma chefe mulher que se comporte como a mãe de todo mundo. Quando ela é mais enfática em uma ordem, costuma ser chamada de mandona. Homens, por outro lado, são sempre assertivos e determinados.

Quem estuda marketing e comportamento do consumidor argumenta que os clientes se sentem mais confortáveis ao tratar com mulheres do que com homens na hora de resolver suas demandas, justamente pela cultura arcaica que associa mulheres à passividade e a docilidade e homens à atividade e agressão. Em resumo: é o machismo estrutural operando.

Ainda nas redes sociais, internautas, principalmente mulheres, cobraram das marcas que saíram em defesa das suas IAs que também olhem para o próprio quintal e combatam o sexismo, machismo e assédio sexual nas empresas. 

Só para se ter uma ideia do quanto o assédio aos robôs pautou um tem que é um novelo bastante emaranhado, no ano passado, pesquisa da Serasa com a consultoria de inovação social Think Eva revelou que metade das brasileiras já sofreu algum tipo de assédio sexual no ambiente de trabalho. 

Desse universo, pelo menos 15% delas pediu demissão e só 5% recorreram ao RH. O motivo: as empresas, em sua maioria, não criam ambientes acolhedores às denúncias e nem desenvolvem ações efetivas de combate e punição aos casos de assédio sexual e/ou moral.

Fora do ambiente corporativo, em 2019, outra pesquisa do Instituto Patrícia Galvão revelou que 97% das brasileiras já sofreu algum tipo de assédio sexual no transporte público.

Diante de uma realidade tão difícil, o que as mulheres desejam é que a campanha em defesa das assistentes virtuais reflita também no mundo real.

Outros destaques do noticiário

Mais de 100 mil crianças mortas por agressões

Pesquisa da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) divulgada na sexta-feira, 16, revela que entre 2010 e agosto de 2020, 103.149 crianças e adolescentes de até 19 anos morreram vítimas de agressões no Brasil. Ainda segundo o estudo, que se baseia no Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde, entre a faixa etária de zero a 4 anos - a mesma do menino Henry Borel -, 2.083 crianças morreram por maus-tratos no país. O vereador Dr. Jairinho, padrasto de Henry, está preso como principal suspeito da morte da criança.

Segundo testemunhas, Henry, de 4 anos, era agredido pelo padrasto

(Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Embora os números relativos a 2020 ainda sejam preliminares, a análise da década revela que as agressões por meio de disparo de  arma  de fogo ou de arma não especificada causaram os  óbitos de  76.528  crianças e adolescentes no Brasil. Na faixa até 4 anos, esse tipo de agressão causou 386 mortes nos últimos 10 anos. Em seguida, aparecem as agressões por meio de objeto cortante ou penetrante, com 10.066 mil mortes entre crianças e adolescentes.

Ao comentar a análise, o presidente do Departamento Científico de Segurança da SBP, Marco Gama, afirmou que as principais causas de morte em crianças acima de 1 ano no país são a violência e acidentes. “Não são as doenças infectocontagiosas”. Ele avaliou que as mortes por violência seriam evitáveis, "mas faltam ações".

Murais gigantes no Comércio

Painel para colorir a selfie

(Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Dois murais  de mais de 25 metros de altura foram instalados nos edifícios Guarabira e Frutosdias, na Avenida Estados Unidos, Comércio. As obras são do artista plástico Anderson Santos e da dupla Dois Detalhes. A iniciativa para deixar as selfies no bairro mais bonitas são da Fundação Gregório de Matos.

Doações da Espanha

Medicamentos mantém pacientes sedados enquanto estão intubados

(Foto: Paula Fróes/CORREIO)

O governo da Espanha anunciou, na quinta-feira, 15, a doação ao Brasil de medicamentos do kit intubação, usado no tratamento de pacientes graves internados com covid-19. Em nota, o Itamaraty explicou que  a doação será efetivada por meio da Direção-Geral de Proteção Civil e Operações Europeias de Ajuda Humanitária do governo espanhol,  atendendo  solicitação do próprio Ministério das Relações Exteriores brasileiro, por meio da Embaixada do Brasil em Madri e da Missão do Brasil junto à União Europeia. A previsão é que os medicamentos saiam da Espanha para cá   no  final da próxima semana. 

Luto em crisópolis

Cinco pessoas foram soterradas sob escombros da explosão, duas morreram

(Foto: Prefeitura de Crisópolis/Divulgação)

Uma loja de fogos de artifício, onde também funcionava uma fábrica clandestina dos artefatos, explodiu na quarta-feira, 14, matando duas pessoas e deixando outras 10 feridas. O dono da loja foi preso e na quinta, 15, o Exército abriu uma investigação no município baiano, após denúncias de que outras produções irregulares de fogos estariam ocorrendo em residências da cidade. No local da explosão de quarta-feira, o Corpo de Bombeiros encontrou entre os destroços clorato e nitrato de potássio e  enxofre, insumos usados na fabricação de fogos de artifício. Foi a segunda explosão no mesmo imóvel. 

Illana disse...

Illana Kaplan diz que com Keila Mellman deu voz à indignação de muita gente com as postagens 'sem noção' da pandemia

(Foto: Divulgação)

"Precisamos refletir antes de compartilhar alguns tipos de registro, porque há pessoas morrendo nos hospitais, passando fome. Estamos com infinitos problemas enquanto país", Illana Kaplan

A atriz gaúcha falou sobre a nova personagem que criou, a consultora de etiqueta virtual Keila Mellman, que viralizou o bordão: 'Quer, postar, posta. Mas é de bom tom?'. A frase, criada para criticar comportamentos inadequados nas redes sociais durante a pandemia, virou meme e nome de grupo de WhatsApp.

Veja o vídeo com as dicas de Keila Mellman:

E Maju também disse...

Maju Coutinho já havia sofrido ataques racistas e agora lida com visão machista sobre papel feminino na sociedade

(Foto: Jornal Hoje/Divulgação)

"Eu nunca tive essa supernecessidade de ser mãe. De repente, eu mudo de ideia, adoto ou engravido. Não estou falando que é jogo fechado, mas no momento é isso. Eu gosto de crianças  e elas gostam de mim. Mas é outro lance, não sinto vontade de ser mãe", Maju Coutinho

A jornalista, que já sofreu ataques racistas na internet, voltou a ser alvo de ‘haters’ ao declarar à rádio Globo que não deseja ser mãe. Em defesa de Maju, grupos feministas criticaram as visões conservadoras sobre o papel social da mulher, como se fosse obrigatório todas ansiarem pela maternidade.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas