O ciúme masculino dos vibradores nunca foi tão justificado

flavia azevedo
14.06.2020, 10:06:00
Atualizado: 14.06.2020, 16:21:58

O ciúme masculino dos vibradores nunca foi tão justificado

Se eles já se sentiam substituídos pelos brinquedinhos, agora foi que lenhou tudo de vez, no patriarcado

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Na semana passada, o Correio publicou uma matéria sobre o aumento da venda de vibradores (e outros brinquedinhos sexuais), durante o isolamento. A matéria tava excelente, mas eu me diverti mesmo foi com os comentários. Lendo aquilo, eu ri de um jeito que nem tá rolando muito ultimamente - como se diz por aí - "por conta da pandemia". Entre diversas pérolas, tinha homem dizendo "então casem com os vibradores", indignado. Tive frouxos de riso, inclusive fiquei grata. Também pela memória refrescada, rendendo outras risadas.

Uma vez, por exemplo, num relacionamento que só era presencial a cada dois meses, falei que queria apresentar ao namorado da época, o meu amigo de látex. Numa chamada de vídeo. Tomando um vinho. No meio de várias brincadeiras, com humor e bastante brodagem. Perceba a fragilidade do cabra: a primeira coisa que ele me perguntou foi o tamanho do brinquedo e disse que só queria ver se fosse menor do que o dele de verdade. Marrapaz... a insegurança masculina pode gerar, realmente, situações tão ridículas quanto complicadas. Evidentemente, o meu era maior porque, quando a gente paga, escolhe a qualidade. Mas eu disse que era menor, saí de diante da câmera pra "buscar" o brinquedo e depois fingi não ter achado. Entenderam que foi a única saída para uma mulher zero a fim de DR? Na época eu já havia desistido de ser terapeuta voluntária de barbado.

A maioria dos caras não lida bem com esses brinquedos que concorrem, mesmo, com os falos, digamos, mais fragilizados. Podiam interagir (os mais espertos fazem isso, claro), brincar junto, desenvolver outras habilidades, mas muitos (muitos MESMO!) não pensam sequer em levar para a terapia o fato desmoralizante de que se sentem enciumados. Sim, concorrências existem. Mas, se depois que fiquei adulta, eu passei a não me preocupar com a "concorrência" de mulheres reais, que dirá comparar a minha anatomia com a de uma pepeca de plástico que aparecesse na mão de qualquer cara. Não é assunto sério, gente. Só que, pra muitos deles, a comparação do próprio pinto com o de mentira... é verdade.

(Amiga, como é que a gente aguenta essa heterossexualidade?)

Se eles já se sentiam substituídos pelos brinquedinhos, agora foi que lenhou tudo de vez, no patriarcado. Veja: nos grupos de relacionamento nos quais ainda dou uma olhada, o que tem mais acontecido é homem dizendo que já pegou covid-19, tá imunizado e disposto a furar a quarentena pra fazer aquele sexo eventual. Mas, espie o sucesso que não fazem: fora uma ou outra doida aceitando, tenho visto é mulher dispensar, cheia de classe. Inclusive dizendo que não vai se arriscar por "pouca coisa" e que tá legal, que não tá precisando. Obrigada, de nada. Aí, eles zangam ou sangram em praça pública, vivenciando um "ninguém me ama, ninguém me quer" que, na dividida entre sexo meia boca e saúde, é a mais absoluta verdade.

Agora, eu tenho perguntas. Quando a gente dizia que era pra procurar o clitóris, eles procuravam? Não. Quando a gente insistia que, uma vez encontrado, era pra aprender a brincar, eles se empenhavam? Não. Quando a gente falava - até na televisão eu já fui tratar disso - que mais de 55% das mulheres brasileiras não têm orgasmos, durante o sexo heterossexual, eles procuravam melhorar? Não. Quando a gente morria de falar que sexo de pornografia não presta pra mulher real, eles paravam com aquela maluquice? Claro que não. Continuavam na performance teatral e no bate estaca. Então. O problema é justamente que, diante de uma emergência de saúde pública, o sexo oferecido pelo homem brasileiro tradicional ficou mesmo "pouca coisa", ou pelo menos nada bom o suficiente para nos fazer sair de casa. E não sou eu que tô dizendo não, apesar de concordar demais: faz tempo que eles não prestam um serviço digno de ser considerado essencial.

As probabilidades de satisfação com os amigos de látex são infinitamente maiores do que em um blind date, no meio de uma pandemia. O ciúme agora, inclusive, tá até justificado, não posso fazer nada. É o óbvio, repare: se antes, dentro da normalidade, já não era garantido o bom desfecho, imagine agora, com tanta tensão? Na hora de medir os prós e contras, isso pesa demais. Fora a confiabilidade que nunca foi um ponto forte dos cabras. Mesmo que um teste de imunidade fosse algo seguro (e nem é!), quem me garante que a criatura não iria falsificar? Ainda lembramos que, inclusive, muitos tiram a camisinha, disfarçadamente, no meio do ato. Pois é nisso que dá. Sabe quando surgiram os carros por aplicativos e a gente se sentiu vingada dos táxis que sempre foram caros, não iam em determinadas áreas da cidade e não paravam quando a gente tava molhada, depois de uma chuva ou praia? Então, minha risada tem essa pegada.

A gente já andava decepcionada, faz tempo, e eles precisam encarar esse fato. Não se atualizaram e ficaram facilmente substituíveis, em diversas áreas. Outra vez, não sou eu só que estou dizendo. É uma verdade que podemos adivinhar, mesmo naquelas mulheres mais tímidas, que nem falam nada. Apenas observem e verão homens reclamando horrores da "seca", do tempo em casa. Homens aos montes se oferecendo, em tudo que é canto, para qualquer tipo de sexo, contanto que chegue rápido. Facílimos, disponíveis, desesperados. Entre as mulheres - pelo menos o que tenho visto - é a mais profunda tranquilidade sexual. Olha, tá tudo bem, com a gente. Nesse aspecto, tá suave. Tão suave que devemos sair dessa mais exigentes, inclusive. Tomara que, do lado de lá, as coisas também se refinem. Desejo reencontros bacanas, mas algo me diz que, se coisas não mudarem, homens podem emergir, no mundo pós-pandemia, como criaturas ainda mais dispensáveis. Oremos pela melhoria, parceria, interação saudável. Ou, caso nada mude, pela consolidação da nossa saúde (física e mental) exercida com a mais absoluta liberdade.

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