O Olodum mitou de vez: uma viagem aos carnavais dos reis dos rataplãs

carnaval
01.03.2019, 05:00:00

O Olodum mitou de vez: uma viagem aos carnavais dos reis dos rataplãs

Relembre como o bloco afro do Pelô, criado há 40 anos, começou a ganhar o mundo

Era o ano da Constituinte, 1988, e uma nova lei era sancionada pela vontade soberana do povo de Salvador: por questão de fato e de direito, o Olodum passava a ser símbolo oficial da Bahia, da sua negritude e da sua intenção de ser aldeia, sendo mundo. A participação no encontro de trios da Praça Castro Alves, naquela quarta-feira de cinzas (17/2), rendeu o primeiro destaque ao grupo nas páginas do CORREIO, que assim noticiava a despedida da festa: "Olodum a boa surpresa da Praça". 

Foto: Reprodução/CORREIO

Ao trazer a boa nova, a reportagem reforçava a importância daquele encontro para fechar a folia e mencionava já no abre-alas do texto a tal surpresa do Verão de 88: “a presença do bloco Olodum com toda sua negritude, cantando o seu protesto e voltando para o Pelourinho cheio de força, como se estivesse começando a folia”. Ali começava a relação de proximidade do jornal com o grupo, de quem é ‘xará’ de fundação: ambos nasceram em 1979 e começam a comemorar 40 carnavais. Aqui, lembraremos como foram as principais coberturas sobre a presença do bloco afro na folia nestas quatro décadas.

Ascensão
Mencionar a reportagem de 88 como a primeira grande atenção dada pelo jornal ao Olodum também demanda, de cara, fazer um mea culpa, afinal, passaram quase batidos dois dos grandes sucessos do grupo em seus primeiros anos de avenida - incluindo o maior deles! “Faraó, Divindade do Egito”, que para João Jorge Rodrigues, presidente do Olodum, é o maior sucesso da história do grupo. 

“Você vai em qualquer lugar e basta tocar o primeiro trecho de Faraó que o público já se agita”, comenta ele, ao mencionar a canção de Luciano Gomes. 

Foi nos anos 80 que o Olodum se consolidou não só como uma agremiação fundada por moradores do Maciel, no Pelourinho, para curtir o Carnaval, e implantou as bases de um sucesso planetário.

“Primeiro fundamos a escola Olodum, com banda mirim, depois a Banda Olodum e, por fim, o Bando de Teatro. E nisso foi deixando de ser só um bloco de Carnaval, que foi a grande inovação dos anos 80”, comenta João Jorge, antes de explicar a diferenciação. 

“No início, os blocos faziam o Carnaval, paravam em março, e só voltavam depois, no outro ano. Revolucionamos isso, passando a fazer eventos mensais, semanais, e ficamos cada vez mais presentes”.

Presentes e ainda mais visíveis, como em 1988, com ‘Protesto do Olodum’, outro hit engajado de Carnaval que balançou a cidade. Mas pra chegar àquele ponto, o bloco ainda passou por maus bocados financeiros.

“O Olodum tinha parado em 83 e voltou a desfilar em 84. Por isso essa ideia de apelo (com o tema Tanzânia, As Aldeias Ujaamas) para lidar com a comunidade, pra ter força, apoio. E foi justamente o ano que a primeira mulher presidente do bloco foi eleita, Cristina Rodrigues, em 83. E o tema Tanzânia remetia a aldeias comunitárias que atuam em conjunto”, relembra João Jorge, que marca como uma espécie de ascensão mais consolidada o ano de 86, quando o Olodum foi vice-campeão do Carnaval - na época, tinha uma competição entre os diversos tipos de blocos. 

Melhor banda carnavalesca
Em 89, a presença entre os grandes do Carnaval já era ponto pacífico, e chegou a causar efeitos colaterais. Narrava uma reportagem: “No início do desfile, no Campo Grande, a Banda Reggae Olodum deu um show que empolgou a galera, mostrando assim, que continua mantendo o título de melhor banda carnavalesca da Bahia. A empolgação foi tanta que uma multidão invadiu o cordão de isolamento e se misturou aos integrantes do bloco dançando e cantando”. 

Foto: Reprodução/CORREIO

No ano em que a Etiópia era homenageada, as deferências ao bloco afro eram recorrentes. “A mais conhecida Banda do Pelô arrasou em sua apresentação, mostrando que a negritude baiana dos anos 80 está nas ruas para conscientizar o povo de que o Carnaval além de festa é também uma forma de mostrar a realidade e força do negro", resumia um texto.

Consagração nos anos 90
A década de maior sucesso do Olodum começou com um Carnaval apoteótico, assim descrito pelo CORREIO numa manchete: “Lampião está vingado”.

O criador do samba-reggae, Neguinho do Samba, comanda ensaio do Olodum no Largo do Pelô para folia de 1990 (Foto: Margarida Neide/Arquivo CORREIO)

O cangaço era o tema da folia naquele início de década que consagrou o grupo. “O Olodum decididamente foi o grande rei do carnaval baiano, conquistou Caetano Veloso e poetas que detêm o dom de apontar os caminhos”, citava uma reportagem.

O presidente do bloco, João Jorge, conta que o grupo começou os anos 90 com a faca nos dentes porque “a presença do cangaço em Salvador, e da cultura nordestina, era muito forte”.

João Jorge na sede do Olodum, no Pelourinho, em foto para reportagem do jornal em 1993 (Foto: Alice Ramos/Arquivo CORREIO)

Ele lembra que quando a banda começou a entoar os primeiros versos de ‘Protesto do Olodum’, no Pelourinho, “aquilo tomou conta da cidade, mas a grande mídia não captou isso”. Havia, de fato, certo atraso na percepção daquele fenômeno, compensando com todo o destaque dado às proezas do bloco no balanço da festa, naquele ano.

Saída do bloco no Largo do Pelourinho, com o tema Os Filhos do Sol, no 16º desfile do Olodum, em 1995 (Foto: Arquivo CORREIO)

Dois anos depois, foi a vez de outra onda do Olodum começar a invadir a cidade. “Em 92, quando voltamos de uma excursão na Europa, ‘Requebra’ tava na mão do Cheiro de Amor. Aí conversamos com Pierre Onassis e Nêgo (compositores) pra ficar com o Olodum, pois só faria sucesso com a gente. E foi o que aconteceu”. Mas só em 94, quando a requebramania também foi manchete: “Foliões requebram nas ruas de Salvador”.

Foto: Reprodução/CORREIO

Neste período, já não era novidade o sucesso dos rataplãs. Além de Caetano, outros que ficaram encantados e vieram fazer parceria com o grupo estavam Paul Simon, Alpha Blondy, The Platters, Gal Costa, Tim Maia… 

Ah, sim! Teve também um tal de Michael Jackson, que gravou um clipe com a banda dirigido pelo vencedor do Oscar 2019, Spike Lee, em 1996. 

Foto: Reprodução/CORREIO

Um ano antes, em 95, o novo status internacional da banda já entrava nas nossas notinhas. “Turistas e gente da terra encheram o Pelourinho para assistir ao ensaio do Olodum, em frente à sede do bloco”. 

E nunca mais deixamos de segui-los. Como em 1998 (foto abaixo), quando o bloco trocou as fantasias pelos abadás; em 2000, quando comemorou 20 carnavais “arrastando multidões"; em 2006, quando Bono Vox prometeu uma visita e não apareceu; em 2009 e 2011, quando o bloco chorou as perdas de Neguinho do Samba (criador do samba-reggae) e do vocalista Germano Meneghel, respectivamente...

Antes do luto, comemoramos juntos, em 2006, os 20 aninhos de “Faraó, Divindade do Egito” com um perfil do autor, Luciano Gomes, um ex-vendedor de cafezinho que compôs o maior sucesso da história dos blocos afros: "Eu falei faraó-óó!" Falamos disso em todos os últimos carnavais do Olodum, que nos fez pirar de vez, requebrar e avisar lá que a Bahia é um cantinho especial do mundo.

Em 1998, no ano em que a Revolta dos Búzios completou 200 anos, o Olodum levou o tema da liberdade para a avenida (Foto: Arquivo CORREIO)

Carnaval 2019
Com o tema “As Duas Histórias: O Perfume das Rosas – Olodum 40 Anos”, o bloco desfila nesta sexta-feira (1º) no Circuito Batatinha (Pelourinho), às 16h, e no Circuito Osmar (Campo Grande), a partir das 20h.

No domingo (3), tem desfile no Circuito Dodô (Barra/Ondina), a partir das 15h. Já na terça-Feira (5), o bloco desfila sem cordas, a partir de 15h, no Campo Grande.

Temas/enredos
Relembre os temas dos carnavais do Olodum desde 1980. O enredo sempre é escolhido com base em contextos históricos, políticos e culturais retratados em fantasias que buscam mostrar a riqueza e a criatividade da diáspora africana em Salvador pelos tempos.

  • 1980 - Olodum na Sexta-feira
  • 1981 - Festa para o Rei de Oyo – Nigéria 
  • 1982 - Guiné-Bissau Bissau
  • 1983 - O Bloco não desfilou
  • 1984 - Tanzânia, As aldeias Ujaamas.
  • 1985 - Moçambique/ Revolta dos Búzios  - O Vulcão africano
  • 1986 - Cuba Um país afro latino americano.
  • 1987 - O Egito dos Faraós
  • 1988 - Madagascar - O Arco Íris.
  • 1989 - Núbia, Axum Etiópia
  • 1990 - Do deserto do Saara ao Nordeste Brasileiro
  • 1991 - Da Atlântida a Bahia, o Mar é o Caminho
  • 1992 - Índia os Caminho da Fé
  • 1993 - Os tesouros de Tuthankamom (Faraó do Egito antigo XVIII Dinastia )
  • 1994 - O Tropicalismo – o Movimento, um reencontro com a Bahia, com o Brasil e as culturas dos povos dos trópicos
  • 1995 - Os Filhos do Sol (em homenagem ao astro rei de todas os povos)
  • 1996 - Os Filhos do Mar –Em Homenagem aos pescadores da Bahia e da África e a Yemanjá rainha do mar.
  • 1997 - Roma Negra – Os gladiadores da Negritude
  • 1998 - A Revolta dos Búzios, 200 anos da Rota da Liberdade
  • 1999 - Os Filhos do Fogo – Uma Homenagem a Xangô
  • 2000 - Do Egito a Bahia, o Caminho da Eternidade - Ramsés II
  • 2001 - África, Ásia, Brasil os Três Mundos
  • 2002 - A Nova Tenda dos Milagres
  • 2003 - “A Lenda do Arco-Íris”
  • 2004 - Tuaregues – Guerreiros do deserto africano
  • 2005 - O casal Solar – Akhenaton e Nefertiti – O Monoteísmo africano
  • 2006 - Angola a Pátria Mae de Milhões de Brasileiros
  • 2007 - Marrocos, O país dos sentidos
  • 2008 - África do Sul Futebol e Paixão. A origem da vida
  • 2009 - Dogons o povo das estrelas
  • 2010 - Índia Brasil África do Sul – A Terceira visão.
  • 2011 - Tambores, Papiros, Twitter – A História da Escrita
  • 2012 - O Vale dos Reis - As sete portas da energia.
  • 2013 - Samba, Futebol, Alegria - Raízes do Brasil.
  • 2014 - Ashanti O trono dourado A Ranha Yaa Asaantewaa.
  • 2015 - Etiópia - A Cruz de Lalibela - O pagador de Promessa.
  • 2016 - Brasil - Mostra a tua cara. Sou Olodum quem tú és?
  • 2017 - O Sol Akhenaton Os caminhos da luz.
  • 2018 – Deusas das Águas – Oceanos, Rios e Lagos
  • 2019 – As Duas Histórias: O Perfume das Rosas – Olodum 40 Anos

Hits
Relembre também os maiores sucessos de Carnaval da banda Olodum:

  • 1984 Ujaama - Olodum (Luciano Gomes) 
  • 1987 Faraó, Divindade do Egito - Olodum
  • 1988 Protesto do Olodum - Olodum
  • 1990 Revolta Olodum - Olodum
  • 1993 Berimbau - Olodum 
  • 1994 Requebra - Olodum
  • 1995 Avisa lá - Olodum
  • 1997 I Miss Her - Olodum 
  • 2009 Dogons - Olodum 
  • 2012 Várias Queixas -  Olodum 
  • 2013 Samba Futebol Alegria - Olodum 
  • 2015 A Cruz de Lalibela - Olodum 
  • 2017 Akhenaton 
  • 2018 Sereia 

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