O que é que Belém tem? No dia do Círio, comparamos a capital do Pará com Salvador 

turismo
13.10.2019, 12:30:00
Atualizado: 14.10.2019, 17:13:41

O que é que Belém tem? No dia do Círio, comparamos a capital do Pará com Salvador 

Cidade guarda semelhanças religiosas, históricas e culturais com a capital baiana

Capital de um estado imenso, debruçada sobre uma baía com o pretexto de se refrescar do calor de ano inteiro, essa cidade não deve ser parecida com nenhuma outra. Povo hospitaleiro, alegre e por vezes até profano como suas festas e músicas, mas também fiel ao sagrado, como demonstra a fitinha colorida amarrada no braço. Pode fazer três pedidos. E a sugestão de desejos trago na culinária local: vatapá, caruru e algum pescado nessa lista tríplice. 

Pra fazer a digestão, e já pagar a promessa de véspera, tem que demonstrar ser gente de fé e ir a pé, no meio da multidão. Tudo isso é tradição, que lembra história e luta contra ridículos tiranos para consolidar a Independência do Brasil. Salvador é barril, né não? Mas não é dela que estamos falando, não! Convidamos você a viajar mais de 1.600 km e desembarcar no portal da Amazônia, Belém do Pará, que estranha não seria se fosse Belém da Bahia.

Confira algumas conexões interessantes entre as cidades.

  • Círio de Nazaré / Lavagem do Bonfim

Deus está nas coincidências, pregava o sagrado e profano Nelson Rodrigues. Até num simples texto como este Ele pode aparecer porque, veja só: este domingo (13) é a data máxima da fé católica em Belém, quando se celebra o Círio de Nazaré. A coincidência é que o Círio, este ano, caiu na grande data para muitos católicos daqui: a canonização de Irmã Dulce. A ocasião leva hoje uma multidão à região do Bonfim, onde os baianos fazem uma lavagem que bem parece o Círio. E como aqui, lá também se homenageia além da conta. “É imenso o consumo de vinho e cerveja. Até quem não é católico” participa, como destaca o jornalista e pesquisador Carlos Rocque no livro ‘História do Círio e da Festa de Nazaré’, lançado em 1981. 

Celebração do Círio de Nazaré, em Belém, neste domingo (Foto: Ricardo Ananias/Divulgação)

Na festa de lá, a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira dos paraenses, é arrastada num carro ligado a uma grande corda, com cada centímetro disputado na base do empurra-empurra. Mas pra provar que tem fé, ouça Márcio Victor: “cole na corda”. A propósito do hit carnavalesco, o Círio também guarda semelhanças com a folia em Salvador: dias antes, várias ruas são interditadas para montagens de arquibancadas e até camarotes. E pra achar vaga em hotel de última hora, não rola. Reserve com meses de antecedência.

  • Fitinhas coloridas

Falando em antecipação, devo avisar que em Belém também tem fitinhas coloridas sendo vendidas na porta da igreja – e às vezes até o conhecido assédio dos ambulantes ao turista. As pulseiras não são para o Senhor do Bonfim, mas para Nossa Senhora de Nazaré, e podem ser encontradas tanto na Catedral Metropolitana (igreja em estilo neoclássico e barroco no Centro Antigo), onde começa o cortejo do Círio, quanto na Basílica Santuário, onde a procissão termina. Neste segundo caso, como na Basílica do Bonfim, tem até gradio com fitinhas amarradas por fiéis em pedidos de graças. De graça o molho de fitas não sai: de R$ 2 a R$ 5 pra fazer caridade e garantir os três desejos.

Basílica Santuário, que tem fitinhas coloridas amarradas ao gradio (Foto: Carlos Borges/Setur Pará)

  • Baiano histórico

O padre baiano Antônio de Macedo Costa (ou dom Macedo Costa), ex-bispo de Belém do Pará, tem influência direta na história das duas igrejas e até do próprio Círio. Em 1882, ordenou uma transformação radical na Catedral Metropolitana, trocando o retábulo original, com novas pinturas, além do altar principal, tudo de origem italiana, e ainda adquiriu aquele que é o maior órgão (o instrumento musical) da América Latina, que volta e meia ainda tocam.

E foi o próprio Dom Macedo quem resolveu criar a paróquia que viria a ter como sede a Basílica Santuário, erguida bem no lugar onde foi encontrada a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, em 1700. 

  • Círio das Águas / Bom Jesus dos Navegantes

A imagem peregrina da santa, por sinal, é levada numa procissão fluvial muito semelhante à nossa festa de Bom Jesus dos Navegantes, em 1º do ano. O ‘Círio das Águas’, assim como aqui, também é acompanhado por diversos barcos e balsas tocados por romeiros, mas é uma tradição mais recente: começou há pouco mais de 30 anos, enquanto a procissão dos navegantes tem registro em 1841. Em ambos os casos, a romaria aquática vai de um ponto a outro da própria cidade.

Barco entrando num igarapé da ilha do Combu; ao fundo, a região central de Belém (Foto: Carlos Borges/Setur Pará)

  • Ilha do Combu / Ilha de Maré 

E pra quem quer ‘sair’ da cidade, sem necessariamente deixá-la, a dica é um passeio à Ilha do Combu, que dá pra comparar a um rolé na Ilha de Maré. Como cá, também há vários bares e restaurantes para passar o dia tomando uma e dando uns tibuns, pra só voltar no final da tarde. No entanto, por lá, a estrutura é muito melhor, com excelentes atrativos turístico-gastronômicos.

Um bom roteiro: pela manhã, fazer uma visita à produção de chocolates e cacau de várzea da Casa do Chocolate Filhas do Combu, comandada por Izete Costa, a Dona Nena, com visita guiada custando entre R$ 60 e (com degustação) R$ 95. Tomar café por lá é uma boa ideia.

Dona Nena mostra delícias de sua fazenda de cacau a visitantes (Foto: Carlos Borges/Setur Pará)

E depois, não muito longe dali, na saída do igarapé, a ideia é bater o rango no Saldosa Maloca (Saldosa com S mesmo), restaurante com acesso ao rio que dispõe de cardápio local irretocável e com preço honesto comandado pela chef Prazeres Quaresma, a Dona Neneca.

O traslado para a ilha é pela Praça Princesa Isabel. Custa R$ 7 o trecho, e tem que sinalizar aonde deseja ir e que horas deseja voltar, oká?

Entrada do restaurante Saldosa Maloca (Foto: Carlos Borges/Setur Pará)

  • Comer e beber

Nem todo lugar têm o privilégio de dizer que tem uma cozinha própria (alô, Rio de Janeiro, aquele abraço!). E a gastronomia é um dos pontos fortes da cultura belenense, com pratos até mesmo equivalentes ao rango típico da Bahia. Que o digam o vatapá e caruru (à moda paraense), mas você vai se acabar mesmo é no tacacá, no pato no tucupi, nas mil coisas preparadas com jambu (uma parada que deixa a língua dormente e fica legal até na cachaça), na coxinha de caranguejo e, claro, no açaí original (entre líquido e cremoso, viu?) pra comer com farinha grossa e de tapioca (esta parecendo bolinhas de isopor), muito açúcar (porque é mais amargo) e, pra acompanhar, algum peixe. Pirarucu, tambaqui e filhote vão bem como acompanhamentos. 

  • Amar e dançar

Pra quem for a Belém já com seu bôto ou sua bôta não pode deixar de visitar o Mangal das Garças, o Parque da Cidade deles. Além de render altas selfies pra atualizar o feed do Insta, vale também pela interação com as dezenas de pássaros da fauna amazônica que compõem um parque ecológico de 40 mil m². Como destaques, o cantinho exclusivo das borboletas e o mirante pra ver a Cidade Velha e a Baía do Guajará de cima.

De casalzinho também vale ir ao Espaço São José Liberto, um polo joalheiro (com joias, gemas, artesanato e moda) que passou a ocupar o lugar de uma prisão e virou mesmo uma joia da cidade.

(Foto: Carlos Borges/Setur Pará)

Se achar o passeio morno demais (embora Belém seja mais quente que Salvador), vá direto à Estação das Docas, que tem aparência de Porto de Salvador e pegada de Vila Caramuru, com vários bares e restaurantes arrumadinhos.

Na verdade, não é só isso: trata-se além de um polo gastronômico, um complexo turístico-cultural (que assim como o Mangal, tem menos de 20 anos de inaugurado), com espaço para feiras, exposições e também com teatro e cinema embutidos.

Forte do Presépio é um passeio legal pra ir a dois, também. É uma espécie de Forte da Capoeira...
Forte do Presépio é um passeio legal pra ir a dois, também. É uma espécie de Forte da Capoeira... (Foto: Carlos Borges/Setur Pará)
... mas com um memorial sobre a história da cidade dentro
... mas com um memorial sobre a história da cidade dentro (Foto: Carlos Borges/Setur Pará)

Tudo isso na frente da Baía do Guajará, que tem um pôr do sol tão deslumbrante quanto o do Porto da Barra. Se animar, separe uma oncinha (R$ 50) pra investir num passeio turístico que sempre rola no final da tarde, apresentando de forma animada a história de Belém e, claro, os melhores predicados culturais da cidade. Vai rir, beber e dançar ao som do autêntico carimbó, o axé de lá.

Passeio turístico de barco no pôr do sol tem aula de carimbó (Foto: Carlos Borges/Setur Pará)

  • Mercado Ver-o-Peso / Feira de São Joaquim 

O Ver-o-Peso, em Belém, guarda semelhanças óbvias com nossa Feira de São Joaquim. Por lá também pintam figuraças, a exemplo de Bete Cheirosinha. Há 50 anos ela vende ervas medicinais no local, e tem simpatia e cura pra tudo.

A famosa erveira Bete Cheirosinha (Foto: Carlos Borges/Setur Pará)

À mulherada, indica garrafada que "elimina cisto, mioma, corrimento e inflamação no útero". Falando com simpatia, nem parece coisa ruim. Assim também é o espírito do belenense: bem-humorado até nas horas amargas, despachado e sem frescura como a boa gente da Bahia. O ‘oxe!’ deles é o ‘égua!’ e, medindo-os com nossa régua, deu pra ver que Belém pode ser também a Bahia da Amazônia.

*O jornalista viajou a Belém a convite da organização do Festival Internacional do Chocolate e Cacau da Amazônia e Flor Pará 2019.


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