Onze babás já registraram queixa contra patroa acusada de agressão no Imbuí

bahia
30.08.2021, 19:14:00
Atualizado: 30.08.2021, 20:30:31
Raiana aguarda na delegacia antes de ser chamada para prestar o seu segundo depoimento (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Onze babás já registraram queixa contra patroa acusada de agressão no Imbuí

Casos aconteceram em residências onde Melina França morava, no Imbuí e em Itapuã

Dona de um conhecido abará no final de linha da Boca do Rio, Gilmar Santos voltava para casa após tomar a segunda dose da vacina quando viu uma movimentação atípica e um rosto familiar na 9ª Delegacia Territorial, na Boca do Rio.

Sentada entre os profissionais de imprensa que a entrevista-la, estava a empregada doméstica Raiana Ribeiro, 25, que se atirou de uma das janelas do apartamento onde foi contratada por Melina França para trabalhar, mas no final das contas acabou mantida em cárcere privado e sofrendo agressões.

Ciente do caso, a ambulante entrou na delegacia para conversar com a garota e deixar uma mensagem de solidariedade para uma mulher que tem o sofrimento estampado no olhar.

Nesta segunda (30), Raiana prestou depoimento pela segunda vez. O caso dela encorajou outras 10 trabalhadoras registrarem queixa sobre a mesma patroa. Ou seja: até o momento há registro de 11 vítimas da mesma mulher, Melina Esteves Franças. Pelo menos 4 no atual apartamento que a acusada mora, no bairro do Imbuí, e as outras na sua antiga residência, em Itapuã. Os casos são apurados pela Polícia Civil.

Leia mais: Babá pula do terceiro andar de prédio no Imbuí e acusa patroa de cárcere privado

O estado físico e psicológico de Raiana é desolador. Para dar entrevista, precisou ser carregada por conhecidos que a acompanharam na delegacia porque ela sequer conseguia dar um passo completo. Descer e subir escadas, então, nem pensar. Sequelas da queda que sofreu do 3º andar de um prédio de classe média alta enquanto tentava escapar do cárcere.

Melina França na saída da delegacia (Foto: Reprodução/TV Bahia)

O terror psicológico que a moça passou também é nítido. Lágrimas escapam com frequência ao lembrar de tudo que passou. "Eu só vou ter paz quando ela pagar pelo que fez. Enquanto isso não acontecer, tudo vai doer. Serão marcas que ficarão em mim pro resto da vida, não adianta correr, nem tentar escapar. É algo que vou ter que lidar", disse Raiana.

Advogado da vítima, Bruno Oliveira afirmou que acompanha um total de 8 mulheres que alegam terem sofrido agressões e serem mantidas em cárcere privado por Melina França. Além disso, elas também afirmam que a patroa as obrigava a fazer uma série de tarefas para as quais não foram contratadas.

Bruno Oliveira é advogado de Raiana e outras 7 empregadas domésticas que acusam Melina França de agressão e cárcere privado (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Raiana conta que passou seis dias no apartamento localizado no condomínio Absolutto, no Imbuí. Natural da cidade de Itanagra, a 120 km de Salvador, Raiana veio a Salvador buscando um trabalho para ter uma vida melhor. Ela viu o anúncio em um site de emprego, fez a candidatura e foi chamada por Melina.

Após contato com a anunciante, a babá trocou informações e após algumas chamadas de vídeo foi contratada para trabalhar. "Depois que eu vi o anúncio, entrei em contato, e o acordo era trabalhar integral e folgar a cada 15 dias", disse Raiane.

No entanto, após iniciar o trabalho, Raiane conta que recebeu nova proposta de emprego e que após comunicar à patroa, passou a ser ameaçada.

"Quando eu pedi para sair do trabalho, ela respondeu: 'eu quero ver se você vai embora. Eu não sou vagabunda. Você não vai embora", lembrou a babá. 

"Ela começou a agressão quando pedi para vir embora, terça de manhã. Fiz outras coisas que ela mandava, o que ela realmente queria, foi muito assustador", disse.

Além de Raiana, também foram ouvidas testemunhas do caso na Delegacia. É o caso do amigo Francisco Rodrigues, que esteve em Salvador na terça passada, véspera da queda de Raiana, após a moça mandar mensagens pedindo socorro.

Francisco afirma que tinha em mãos fotos e o nome de Raiana e pediu para que a portaria auxiliasse a localizá-la - não foram atendidos. Ele alega que o condomínio não deu qualquer colaboração e omitiram informações para que os amigos e familiares não tivessem acesso ao local.

"Eles dificultaram tudo, omitiram todas as informações. Disseram que ela não morava lá e depois aconteceu o que aconteceu. Tudo isso um dia antes, se o condomínio tivesse colaborado tudo isso seria evitado", afirmou.

Advogado de Melina França, Gabriel Sodré esteve na delegacia nesta segunda (30) para acompanhar os depoimentos. Procurado pelo CORREIO, o advogado afirmou que sua cliente está colaborando com as investigações e que a defesa poderá se manifestar com mais precisão quando o inquérito for finalizado.

"Sobre o caso específico [de Raiana], vamos nos pronunciar em momento oportuno. Deixamos claro para o delegado que os esclarecimentos foram dados, as imagens coletadas, o apartamento periciado e estamos colaborando. Vamos aguardar o final do inquérito", afirmou.

Sobre as acusações das outras babás, o advogado afirmou ter tomado conhecimento pela imprensa e ainda não teve acesso às denúncias.

Entenda o caso
Raiane Ribeiro trabalhava cuidando de crianças em um apartamento no Edifício Residencial Absolutto quando caiu do terceiro andar. Socorrida para o Hospital Geral do Estado, ela prestou depoimento no posto policial da unidade e disse que pulou da janela para fugir da patroa.
 
Segundo a funcionária, ela foi agredida e trancada em um cômodo da casa, após ter seu celular tomado pela patroa. Tudo teria começado quando ela avisou que queria deixar o emprego após uma semana de contratada.

Raiane conversou com o CORREIO na noite desta quarta-feira (25) e relatou os momentos traumáticos que viveu. Natural do município de Itanagra, a 120 km de Salvador, ela disse que viu o anúncio de emprego em um site e decidiu se candidatar. 

Após contato com a anunciante, a babá trocou informações e após algumas chamadas de vídeo foi contratada para trabalhar. O acordo era trabalhar integral e folgar a cada 15 dias. No entanto, após iniciar o trabalho, Raiane conta que recebeu nova proposta de emprego e que após comunicar à patroa, passou a ser ameaçada.

A ameaça, de acordo com Raiane, teria ocorrido na terça-feira (24). A babá teria pedido socorro à irmã, pelo telefone. A irmã de Raiane então entrou em contato com uma tia que mora em Salvador. Após o contato, um homem teria ido até o prédio onde Raiane trabalha, mas após fazer contato pelo interfone, a patroa disse que Raiane não estava no local.

Nesta quarta-feira (25), uma pessoa voltou no prédio a pedido da tia de Raiane para procurar a jovem, segundo ela, desta vez, a patroa arrancou a fiação do interfone para evitar o contato. Sem contato externo, Raiane diz que foi trancada no banheiro. Desesperada, ela tentou fugir pelo basculante.

"Ela me trancou no banheiro, ai vi o basculante e decidi fugir para alcançar a janela do apartamento do lado e lá pedir ajuda, mas aí não consegui e fiquei pendurada. Aí depois, eu caí", conta.

Ela caiu dentro de um apartamento localizado no primeiro andar e foi socorrida. Raiane fraturou o calcanhar, e levou pontos na testa, além de ter ficado com alguns hematomas no corpo. Ela teve alta no mesmo dia.

Vaias
A ex-patroa da babá recebeu vaias e gritos de 'criminosa' no retorno para casa, na quinta-feira (26), após mais de seis horas de depoimento na delegacia da Boca do Rio.

De acordo com informações, uma viatura da PM precisou escoltar Melina Esteves França para casa por risco de linchamento. Em um vídeo divulgado por moradores nas redes sociais, é possível ouvir vizinhos vaiando Melina e gritando palavras como ‘criminosa’. Ela estava acompanhada do advogado.

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